Saudade trancada
Entre a dor, o prazer e uma calcinha no chão, me perdi na minha própria pele. Hoje, casado e com filhos, o meu diário secreto revive a saudade do que escondi.
Embora eu entenda hoje que sou bissexual, eu acabei classificando o conto como gay, porque o que ocorreu foi o despertar do meu lado feminino.
Sou filho único de um homem influente e autoritário, criado para ser o exemplo em uma cidade de seis mil habitantes. Na rua, meu pai exigia que eu demonstrasse a postura de um homem forte. Dentro de casa, minha mãe também impunha sua rigidez e me ensinou o básico das tarefas domésticas para que eu soubesse me virar sozinho.
Na adolescência, a beleza das mulheres me atraía, mas a total falta de informação me deixava perdido. Eu sentia o desejo, mas não sabia o que fazer com ele. Minha insegurança e timidez eram tão grandes que eu preferia guardar aquela atração para mim a arriscar qualquer aproximação.
Essa barreira só se rompeu quando uma garota da escola, um ano mais velha do que eu, resolveu tomar a iniciativa que eu jamais teria e me pediu em namoro. Aceitei na hora, mesmo sem saber o que fazer. Foi ela quem me ensinou a beijar. Para mim, namorar significava apenas andar de mãos dadas, tomar um sorvete e trocar beijos de vez em quando. Contei para minha mãe e vi meu pai orgulhoso.
Mas o namoro durou poucas semanas; ela queria um desempenho que eu não sabia entregar. Pouco tempo depois a vi, com outro menino, se beijando e se abraçando e isto me deixou extremamente triste, porque gostava dela.
Magoado, fui dar um passeio a pé, uma trilha que segue o rio. Andei quase até sair da cidade, e em meio às folhagens, vi uma clareira e um menino saindo do rio, completamente nu. Imediatamente seu corpo me chamou a atenção. Devia ser um pouco mais velho do que eu, pois tinha um pênis maior que o meu e foi justamente isso que me deixou confuso. Eu gostei de ver o menino pelado, não por ele em si, mas por ver o pênis dele. Foi uma experiência que marcou a minha vida e lembro até hoje.
Talvez seja difícil explicar o que senti naquele momento, mas era excitação pois nunca tinha visto ninguém pelado, tão próximo, embora ele não pudesse me ver. Quando ele começou a se vestir, me afastei. As referências que eu tinha, na época, era o meu que era, e é, pequeno. Com relação às mulheres, na minha cabeça elas tinham um rasgo no meio das pernas. Era assim que eu pensava.
Em várias noites, essa imagem do menino me vinha a cabeça e eu simplesmente, quanto mais força fazia para esquecer isso, parece que mais ela aparecia. Com o passar da idade isso foi diminuindo até sumir.
Não tive outra namorada depois daquilo. Em 1980, passei no vestibular e meu pai alugou um pequeno apartamento para mim em um prédio no bairro da República, em São Paulo. Fui morar sozinho. Aos dezenove anos, eu estava longe da vigilância de casa, trancado ali no centro de uma cidade gigante e barulhenta onde ninguém me conhecia.
Os primeiros três meses foram só de adaptação. Eu só saía para ir à faculdade. Tinha muito medo da situação política da época, então ia da aula direto para o apartamento e me trancava lá dentro.
Numa tarde de sábado, passei em frente a um cinema. Alguns rapazes olhavam os cartazes na entrada. Vi que era um filme sexual. Eu já tinha folheado a Playboy, mas nunca tinha visto sexo explícito em uma tela. Resolvi entrar. A sala estava escura e o filme já tinha começado. Sentei e, quando meus olhos se acostumaram com a penumbra, percebi que o lugar estava quase vazio.
Um garoto sentou ao lado da minha poltrona. Passados alguns minutos, ele abriu a calça, tirou o pau para fora e começou a se masturbar devagar. Aquilo me jogou direto de volta para a cena do rio. O rapaz cochichou que sabia que eu estava gostando. Fiquei paralisado, olhando fixo para o pau dele. Ele segurou minha mão e a puxou para que eu o tocasse. Eu não consegui reagir.
Minha mão encostou na sua pele que era quente e firme. Senti um arrepio forte subir pelo meu corpo e meu próprio pau ficou duro na hora. O rapaz começou a mover a minha mão de cima para baixo, me mostrando o ritmo que ele queria. Logo que o ritmo aumentou, ele soltou minha mão, e eu continuei sozinho, apertando e deslizando até que o rapaz soltou um gemido baixo, o corpo dele deu um solavanco e ele gozou na minha mão.
Peguei um lenço e limpei minha mão. O rapaz continuou sentado ao meu lado como se nada tivesse acontecido. Eu não sabia o que fazer. O filme continuou passando na tela, mas eu não conseguia prestar atenção em nada, completamente confuso. Quando o filme terminou e as luzes da sala se acenderam, o rapaz virou para mim e sugeriu algo mais íntimo. Disse que tinha um lugar para a gente ir, mas que aquilo tinha um custo.
Somente muito tempo depois fui entender a mecânica dos garotos de programa daquela época. A punheta funcionava como um cartão de visitas para clientes novatos e sem malícia. A cobrança só vinha depois, quando eles ofereciam o serviço completo.
Falei que não queria. Ele insistiu, disse que eu era muito bonitinho e tinha um corpinho gostoso, mas avisou que, se eu mudasse de ideia, ele estava sempre por ali.
Cheguei no apartamento e tentei organizar meus pensamentos. Estava confuso. Uma parte de mim dizia para continuar experimentando; a outra dizia para parar imediatamente. O fato era um só e eu não conseguia entender: por alguma razão, eu havia gostado.
Durante a semana, não consegui me concentrar nas aulas. Sentia que algo em mim estava muito errado. No sábado seguinte, a força do desejo me levou de volta àquela calçada. Passei em frente ao cinema e vi o rapaz ali na frente. Não tentei contato e passei direto, assustado. Mas ele me viu e veio atrás de mim na calçada. Dei uma desculpa qualquer, disse que não queria nada e apressei o passo.
Voltei para o apartamento sozinho e a frustração bateu forte. Tentei achar uma explicação lógica para o que estava sentindo, mas, intuitivamente, eu sabia que não era a razão que estava no comando. Eu era homem, e aquilo não poderia estar acontecendo comigo. Era uma força muito mais forte, que vinha de dentro e engolia qualquer tentativa minha de pensar direito.
Mais uma semana se passou e, conforme o sábado se aproximava, a tensão só aumentava. Eu sentia medo de tudo. Medo de ir e acabar gostando ainda mais; medo de que alguém conhecido passasse por ali e me visse; medo de onde aquele rapaz iria me levar e, principalmente, medo de quem ele realmente era. Eu não sabia nada sobre ele.
E o pior era tentar entender a minha própria cabeça: eu sabia que não sentia atração por homens, e nem mesmo por aquele rapaz. Minha atração era puramente pelo órgão sexual, pelo pau em si, e isso me deixava ainda mais confuso.
O sábado chegou. Fui até a porta do cinema e fiquei parado na calçada, o coração batendo na garganta. O rapaz me viu e veio direto na minha direção. Conversamos rápido, ali no meio do movimento. Para me sentir mais seguro, propus que fôssemos para o meu apartamento. Ele topou na hora.
Eu morava numa rua paralela, a apenas dois quarteirões dali. Meu prédio não tinha portaria, o que facilitou muito a nossa entrada sem que ninguém fizesse perguntas. Assim que entramos no apartamento, o nervosismo me travou; eu não sabia direito o que queria. O rapaz, muito prático, começou a apresentar os preços dos serviços. Pensei seriamente em desistir, não pelo dinheiro, mas pela vergonha que me sufocava.
Percebendo minha hesitação, ele mudou de tática. Olhou em volta, viu que o apartamento era só meu e fez uma proposta: se eu o deixasse passar as noites de sábado dormindo ali, no domingo de manhã eu poderia escolher o serviço que quisesse, de graça. Ele explicou que morava muito longe e que ir embora aos sábados à noite era sempre muito complicado.
Pedi um tempo para pensar na proposta dele. Para aquela tarde, decidi ficar apenas com a punheta. Ele ficou meio frustrado. Claramente queria fechar o acordo da noite ou ganhar um dinheiro melhor, mas não reclamou. Tirou a roupa e eu fiz o serviço rápido, concentrado apenas naquilo, até ele gozar.
No sábado seguinte, tomei coragem. Fui ao encontro dele e disse que, por aquela noite, ele poderia ficar. Falei que era para fazer um teste, para ver como seria. Era a desculpa que eu dava a mim mesmo para não sentir que estava assumindo um compromisso sem volta.
Ele chegou bem no final da noite de sábado. Eu o recebi e, de imediato, disse que ele poderia dormir no sofá da sala. O rapaz olhou para o quarto, viu que a minha cama era de casal e sugeriu que dormíssemos juntos ali, que não tinha problema.
Acabei aceitando. Na minha cabeça, eu tinha a certeza absoluta de que nada aconteceria durante a noite. O combinado estava claro para mim: dormiríamos apenas, e só na manhã de domingo é que eu bateria a punheta para ele, como de costume. E nada mais.
Eu nunca havia dormido com ninguém na mesma cama e aquilo me trazia uma sensação estranha, desconfortável. Fiquei tenso, sem saber o que poderia acontecer no escuro daquele quarto. Mas a noite passou e tudo aconteceu exatamente como eu havia previsto: amanheceu, fiz a punheta nele, ele pegou suas coisas e se foi.
Quando a porta se fechou e eu me vi sozinho no silêncio do apartamento, minha cabeça começou a rodar. O vazio que ficou era enorme. Eu olhava para a cama desfeita e me perguntava, sem encontrar resposta nenhuma, por que diabo eu estava fazendo aquilo comigo mesmo.
O final de semana seguinte chegou acompanhado de um temporal daqueles que travam a cidade. Por causa da chuva, o rapaz apareceu bem mais cedo no apartamento, trazendo debaixo do braço uma garrafa de vodka. Eu não era de beber muito, mas a tensão dos últimos dias me fez aceitar. Sentamos e fomos bebericando, conversando sobre amenidades enquanto o som da chuva batia forte na janela.
Em dado momento, fui até a pia da cozinha para lavar os copos. De repente, senti a presença dele logo atrás de mim. Ele se aproximou, me pressionou contra a pia e começou a beijar o meu pescoço. Aquilo me causou um arrepio violento, uma eletricidade que desceu pela minha espinha e que eu nunca, em toda a minha vida, havia sentido antes.
Mesmo gostando daquela sensação, o medo falou mais alto e eu pedi para ele parar. Mas, em vez de se afastar, o rapaz me virou de frente, segurou meu rosto e me deu um beijo na boca.
Minha mente simplesmente entrou em pane. Fiquei paralisado, sem reação por alguns segundos, sentindo o calor dos lábios dele nos meus. Quando recuperei o controle do meu corpo, desviei a boca para o lado, o peito subindo e descendo rápido. Olhei para ele, assustado com o que tinha acabado de acontecer, e perguntei, com a voz quase sumindo:
- Por que você fez isso?
Ele me olhou sem pressa, com a calma de quem já conhecia aquele roteiro de cor.
- Eu já tive clientes assim - ele disse, em voz baixa.
Ele complementou dizendo que existem pessoas que precisam de um empurrão para se libertarem, e que alguns clientes assumem novas personalidades, principalmente quando se vestem, se depilam, se maqueiam como mulheres. Explicou que era como se não fossem eles ali.
O rapaz deu um passo atrás, me medindo com os olhos.
- Talvez você devesse tentar... para ver o que você realmente quer.
A bebida parecia ter mexido bastante comigo e eu já não conseguia pensar direito. Decidi ir dormir e me enfiei nas cobertas; nem vi quando ele se deitou ao meu lado. O domingo chegou cinzento e lá se foi mais uma punhetinha rápida, quase mecânica, antes de ele ir embora.
Durante toda a semana seguinte, as palavras dele não saíram da minha cabeça. Fiquei remoendo se ele não teria razão. Somente na sexta-feira é que finalmente aceitei a ideia. Talvez fosse aquilo mesmo. Se eu me transformasse em outra pessoa para experimentar, não seria eu ali de verdade. Santa ingenuidade.
Na manhã de sábado entrei em uma loja de lingeries do bairro. A vendedora veio logo me atender e, com muita vergonha, pedi uma calcinha, um sutiã e uma camisola curta, dizendo que era presente para a minha namorada.
Ela me perguntou o tamanho dela. Gaguejei e disse que ela tinha o mesmo corpo que o meu. A mulher deu um risinho, mas não insistiu; eu era pequeno, então não havia muito por que desconfiar. Ela escolheu o modelo, paguei e saí correndo com a sacola.
Voltei para o apartamento. Não comprei maquiagem porque não fazia a menor ideia do que escolher e muito menos de como usar aquilo. Mas a depilação eu podia resolver. Embora não tivesse muitos pelos, peguei uma lâmina e raspei o que tinha. Quando passei a mão na pele lisa, senti uma diferença absurda no toque do meu próprio corpo.
Vesti a calcinha, o sutiã e a camisola curtinha. Senti de imediato o toque do nylon na minha pele depilada, uma textura macia e fria que eu não estava nem um pouco acostumado a usar. Olhei-me no espelho do banheiro e mal consegui reconhecer a minha própria imagem. Embora tivesse comprado um sutiã com o bojo bem pequeno, eu não tinha seios, e aquele vazio no tecido parecia estranho, me lembrando do que eu era.
Sentei-me no sofá e fiquei esperando. Os minutos passavam, o rapaz não chegava e aquela ansiedade começou a se transformar em pânico. A cada barulho no corredor, eu prendia a respiração. Já estava decidido a tirar tudo e desistir daquela loucura quando, de repente, a campainha tocou.
Meu corpo inteiro gelou. Não havia mais tempo para voltar atrás.
Fui em direção à porta com muita vergonha, mas a abri. O rapaz me olhou de cima a baixo, e os olhos dele brilharam de surpresa. Um sorriso de canto de boca surgiu em seu rosto.
- Nossa... - ele exclamou, em voz mansa. - Você tem nome, amor?
A pergunta me pegou totalmente desarmado; eu não tinha pensado em nada disso. Sob a pressão daquele olhar, o primeiro nome que me veio à mente saltou da minha boca:
- Tânia - respondi, quase num sussurro.
Entramos no apartamento e ele logo avisou que estava com fome. Fui para a cozinha e, ainda trêmulo, preparei um omelete rápido para ele. Ver a mim mesmo naquela cozinha, vestido de camisola, agindo como uma dona de casa para um homem, era quase surreal.
Depois de saciar a fome, ele me puxou para perto. Continuávamos ali na cozinha quando ele indicou o próprio colo para que eu sentasse. Hesitei, o coração disparado, mas acabei cedendo e me acomodei nas pernas dele. Quando ele começou a acariciar minhas coxas depiladas, a sensibilidade extrema da pele lisa me fez arrepiar por inteiro.
Ele me puxou pela nuca e me beijou. Desta vez, eu não recuei por não conseguir recuar. Um turbilhão de sensações sobrecarregava o meu cérebro de uma só vez: a textura fria do nylon, o calor das mãos dele na minha pele depilada e a intensidade daquela boca. Eu era pura reação física, totalmente entregue ao momento.
Ele sugeriu que fôssemos para a cama, e eu já conseguia sentir o pau duro dele pressionado contra a minha calcinha. Eu sabia exatamente o que iria acontecer a seguir, mas não tinha coragem suficiente para aquilo.
Fomos para o quarto, mas quando nos deitamos, eu disse a ele que não queria. Ele não insistiu; ficou na dele, apenas me puxou para perto e me abraçou. Dormimos daquele jeito, de conchinha, no silêncio do quarto.
Na manhã de domingo, ele acordou e perguntou se eu não queria chupar. Eu recusei; preferia a punheta. Fiz o que ele queria ali mesmo na cama. Assim que gozou, ele se limpou, vestiu as roupas e foi embora, deixando o apartamento em silêncio outra vez.
Quando a porta da frente se fechou, um momento de lucidez me atingiu e a razão começou a cobrar o seu preço. Olhei para baixo e me vi ali, ainda vestindo aquela calcinha. Perguntei-me como eu pudera gostar daquilo. O pior de tudo era admitir que no fundo eu queria ter ido além. Mas será que eu teria coragem? Talvez eu ficasse daquela forma para sempre, paralisado no meio do caminho, embora sentisse que, a cada dia, aquela vontade só aumentava.
No final de semana seguinte, a angústia me venceu. Vesti novamente a lingerie e a camisola só para sentir aquele toque familiar e tentar me acalmar. Lá fora, uma tempestade desabou mais uma vez, lavando as ruas.
A campainha tocou antes do esperado; ele tinha chegado cedo. Abri a porta e o rapaz entrou rápido, rindo, com a água escorrendo pelo cabelo e pelas roupas. Não houve hesitação desta vez. Ele deu um passo à frente e me beijou, o corpo frio e úmido contrastando com o meu calor.
Ele se afastou um pouco, olhou para mim todo ensopado e, com um sorriso de canto de boca, sugeriu que fôssemos tomar um banho juntos.
Recuei um passo, relutante. Ele percebeu e foi para o banheiro, chamando por Tânia. Fui atrás dele. Ali dentro, tirei a roupa e me despi completamente na frente do rapaz.
Era a primeira vez na vida que eu ficava nu diante de alguém que não fosse um médico. O desconforto veio na hora, junto com uma comparação inevitável. Olhei para baixo e vi a diferença. Como eu já sabia, o meu pau não era grande, e a desvantagem em relação ao dele me fez sentir ainda mais vulnerável.
Ele estendeu a mão e eu entrei no box. Debaixo da água morna, começamos a nos tocar e a lavar o corpo um do outro. O pau dele logo ficou duro, e eu o ensaboei e o lavei com carinho.
Ele me abraçou por trás, colando o peito nas minhas costas e pressionando o membro ereto contra a minha bunda. Instintivamente, joguei meu quadril para trás, encaixando-me nele, e senti toda aquela pressão firme contra mim.
Depois de nos enxugarmos, voltamos para o quarto. Sentei-me na beirada da cama e ele ficou em pé bem ao meu lado. O pau ereto dele ficou exatamente na altura da minha boca. Eu já tinha visto em detalhes no filme como aquilo era feito e sabia perfeitamente o que ele queria que eu fizesse.
Tomada por uma vergonha imensa, comecei apenas beijando o pau dele. Fui passando os lábios por toda a extensão, como se quisesse reconhecer cada centímetro daquela carne. Lambia os testículos, beijava a base, até que o rapaz puxou a pele da extremidade para trás, expondo a cabeça.
Vi que ela estava coberta por um líquido límpido e brilhante. Temendo o gosto, aproximei-me com cuidado. Toquei a substância primeiro com os lábios e depois com a ponta da língua. Para o meu alívio, tinha apenas um sabor levemente salgado e com um gosto que não era ruim.
Como eu não tinha nenhuma experiência, ele foi me orientando com toques suaves na minha cabeça. Comecei apenas sugando a ponta, com muita delicadeza. Aos poucos, fui ganhando confiança e colocando o membro cada vez mais para dentro da boca, entregando-me àquilo com o entusiasmo puro e a satisfação de uma criança feliz.
Depois de algum tempo, ele se afastou um pouco e disse que hoje eu não iria escapar. Eu estava tão entregue ao prazer que sentia que nem dei ouvidos à provocação. Ele então me pediu que deitasse de bruços na cama e abrisse as pernas. Por um breve instante, a hesitação me travou, sentindo o peso do que viria a seguir. Mas o desejo falou mais alto, e acabei obedecendo.
Dei uma olhada para trás e vi que ele estava passando algo diretamente no pau. Era vaselina. Naquela época, ainda não se ouvia falar de AIDS no Brasil, e as penetrações eram quase sempre sem camisinha; quase ninguém tocava no assunto de doenças.
Ele se posicionou atrás de mim. Logo em seguida, seus dedos lambuzados de vaselina invadiram meu buraco virgem. A sensação imediata foi de um incômodo agudo e invasivo.
- Relaxa - ele cochilou perto do meu ouvido. - No início dói um pouquinho, mas depois passa e fica gostoso.
Eu me assustei e travei na hora. Senti as mãos dele abrindo as bandas da minha bunda, posicionando a cabeça do pau bem na entradinha e empurrando lentamente para dentro. Contraí o corpo inteiro no mesmo instante, com dor. Ele parou e insistiu, pedindo para eu relaxar e deixar entrar, que seria melhor.
Ele continuou empurrando, centímetro por centímetro. O desconforto era demais.
- Para, por favor... está doendo, para - pedi, tentando me afastar.
- Aguenta um pouquinho, daqui a pouco você vai sentir prazer - ele respondeu, sem recuar.
Agarrei os lençóis com força, afundando os dedos no tecido enquanto ele continuava enfiando. Eu reclamava e pedia para parar, mas ele não me ouvia. Foi ali, com o rosto enfiado no travesseiro, que percebi que já não tinha mais controle de nada. Agora era ele quem mandava na situação, e não ia parar até terminar.
Ele empurrou de uma vez, completando a penetração, e deitou o corpo sobre o meu. Senti todo o seu peso me esmagando contra o colchão. Ele ficou imóvel por alguns instantes, deixando-me acostumar com a invasão, enquanto eu sentia apenas um ardor forte e uma pressão enorme lá dentro.
Aos poucos, aquela dor aguda começou a ceder. O rapaz então iniciou movimentos curtos e bem devagar. Eu ainda reclamava baixinho, mas percebi que já não doía tanto quanto antes. De repente, uma sensação estranha e profunda correu pelo meu corpo e, sem que eu pudesse controlar, senti meu próprio pau começar a endurecer.
Aquela reação do meu corpo me assustou e me trouxe uma ponta de vergonha. Mas, ao desviar o olhar para o lado, vi minha calcinha jogada no chão. Olhando para ela, me senti como se fosse uma mulher, e essa imagem, de certa forma, me tranquilizou e me fez aceitar o que estava acontecendo.
O rapaz começou a ditar o ritmo, penetrando com mais velocidade e firmeza. O incômodo praticamente desapareceu, dando lugar a uma sensação profunda e real de prazer.
O ritmo dele ficou mais rápido e urgente. Senti o pau dele pulsar forte lá dentro, dando pequenos espasmos rítmicos que entregavam que ele estava para gozar.
Ele empurrou o quadril com força contra a minha bunda e travou. No mesmo instante, senti uma onda de calor muito forte e úmida se espalhar dentro de mim. Era o sêmen quente sendo ejaculado, um preenchimento morno que parecia selar de vez tudo o que tínhamos acabado de fazer.
Assim que o ato terminou, o rapaz se afastou e continuou deitado no quarto, recuperando o fôlego. Eu me levantei e fui direto para o banheiro tomar um banho.
Debaixo do chuveiro, sozinha com meus pensamentos e com uma excitação que ainda queimava no meu corpo, comecei a me tocar, revivendo mentalmente cada detalhe do que tinha acabado de acontecer na cama. Eu estava totalmente entregue àquilo quando, de repente, olhei em direção à porta. O rapaz estava ali, parado, me flagrando no meio do ato. Ele não disse uma única palavra, apenas ficou me olhando em silêncio.
Assim que terminei, ele entrou no chuveiro comigo. Ficamos ali juntos, sob a água, abraçados por alguns instantes em silêncio.
Eu sentia uma vergonha enorme de tudo o que tinha acabado de acontecer. Não era apenas timidez; era um sentimento mais profundo, como se uma parte de mim tivesse se perdido ali dentro daquele quarto e eu nunca mais pudesse recuperá-la.
Depois do banho, deitamos nus na cama e dormimos.
Na manhã seguinte, ele se vestiu para ir embora. Antes de sair, me perguntou se eu queria alguma coisa. Eu disse que não. Estava confuso mais uma vez.
Depois que ele saiu, eu olhava para a calcinha e entrava em colisão comigo mesmo. Uma parte me dizia que eu era mulher; a outra, que eu era homem. Por ser inexperiente, foi difícil e demorado tomar uma decisão. Tive que passar mais algumas vezes por aquele ritual — com o rapaz me comendo, eu o chupando, experimentando o seu sêmen.
Chegou o final do ano e eu precisava voltar para passar as férias na minha cidade. Quando cheguei, disse ao meu pai que iria desistir do curso porque não tinha gostado e procuraria outra coisa. Ele não gostou, mas eu insisti, pois não queria de jeito nenhum voltar para lá. Ele acabou aceitando.
O tempo passou. Arrumei uma namorada, me casei e tive três filhos. Nunca mais passei por nenhuma outra relação como aquela. Hoje, encontrei um velho diário que escondo há muito tempo, cheio de anotações meio criptografadas que só eu entendo. Relembrei toda essa história. Não vou negar: me deu saudades.
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