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O menino dos olhos verdes 47

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Episódio 47 ― Chuva de Meteoros

Depois de escovar os dentes, me troquei para sair. Hoje seria um dia longo. Daqui a pouco o Rafa iria passar aqui em casa, para me buscar para irmos alugar ternos para o baile. Mas não era isso que me preocupava…
Minha mãe ainda queria conversar com os pais do Rafa, sobre a viagem e tal… ela praticamente já tinha se conformado com tudo, mas… vai saber… ela poderia mudar de ideia depois de conversar com os pais do Rafa…
Mas, antes de qualquer coisa, eu precisava falar com o seu Humberto… fazia muito tempo que eu não conversava com ele e nós precisávamos colocar a conversa em dia.
Hoje era sábado, então a vendinha dele estava fechada. Atravessei a rua e fui até sua casa. Toquei a campainha e esperei ele vir me receber.
― Olha só, quem é vivo sempre aparece… ― ele disse.
― Ah… oi… tio… desculpa o sumiço…
Ele abriu o portão e veio me dar um abraço.
― Vem cá! Como tá, meu filho?
― Tô bem, tio…
― Hum… entra… entra… vem cá!
Nós entramos na sua casa e fomos até a sala, onde ele me serviu um copo de guaraná. Eu me sentei em um sofá e ele se sentou no outro.
― Então… o que te traz aqui tão cedo? ― Ele disse enquanto desligava a televisão.
― Pois é, tio… então… o Rafael meio que me convidou para ir viajar com ele…
― Nossa… uau… isso é sério? ― Ele me olhou admirado.
― É sim… ― eu disse meio tímido.
― Nossa, Lucas… uau… isso é um passo muito grande…
― É… eu sei, tio… ― eu concordei.
― E o que sua mãe acha disso? ― Ele perguntou.
― É… pois é… é justamente sobre isso que eu queria conversar com o senhor…
― Ah, meu deus… olha, Lucas, eu não gostaria de me meter no caminho de vocês e muito menos me complicar…
― Não! Não é nada disso, tio… ela está relativamente de boa, com a viagem e tudo mais…
― Hum… então qual o problema?
― É que ela precisa de ajuda em casa… e é só isso que está me prendendo aqui… como o senhor sabe, ela está grávida e…
― Ah… já entendi… já entendi…
― Pois é… eu só… assim… não sei como te pedir isso sem parecer um idiota egoísta, mas…
― Você quer que eu a ajude? Enquanto você se diverte viajando com o Rafa?
― Não… nada disso, tio… tá… tudo bem… é exatamente isso, mas…
― Relaxa, Lucas! Só estou brincando… ficaria feliz em ajudar… o que preciso fazer?
― Ah… tá… olha… tipo… às vezes ela precisa trabalhar muito e acaba não tendo tempo de preparar o almoço ou o jantar…
― Então você quer que eu cozinhe para ela?
― Não! Nada disso! Só gostaria que o senhor ficasse de olho nela… e garantisse que ela fizesse todas as refeições…
― E desde quando você virou o adulto nessa relação? Parece até que está deixando sua filha comigo…
― ―
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― Ah… não… não…
― Estou brincando, Lucas… hahaha… relaxa…
― Eu sei… mas então… o senhor pode fazer isso?
― Só preciso ficar de olho nela?
― Isso…
― E se ela não comer?
― Tá… aí…
― Aí vou ter que cozinhar, né?
― Não… nada disso, tio… tá… tudo bem… é exatamente isso, mas…
― Sem problemas, estou brincando! Sou um ótimo cozinheiro!
― Tá… e pode ser que ela precise de carona… porque o carro não é nosso e pode ser que ela não consiga dirigir por conta da gravidez…
― Hum… entendi… sem problemas… também posso levá-la para qualquer lugar.
― E tem o Duque também… não confio na minha mãe para tomar conta dele…
― Se quiser, ele pode ficar um tempo aqui em casa…
― Faria isso por mim, tio?
― Claro, Luquinha!
― Valeu, tio… mas acho que é isso… o senhor pode fazer isso por mim? Por favor…
― E tem alguma coisa que eu não faça por você, Luquinha?
― Ah… valeu, tio… eu acho…
― Só vai te custar um beijinho!
Eu sorri, me levantei do sofá que estava e fui até ele. Dei um beijinho em sua bochecha e depois me sentei ao seu lado.
― Então… viajar? E vocês vão para onde?
― Então… se tudo der certo, vamos para Porto de Galinhas…
― Hum… não me diga!
― O senhor já foi para lá?
― Não… mas já ouvi falar… é praia lá, não é?
― Aham!
― Olha só… então você finalmente vai realizar seu sonho, hein?
Okay… pode rir… mas um dos meus sonhos era conhecer o oceano…
― Sim! E advinha só…
― O que?
― Vamos de avião!
― Mentira!
― Verdade!
Okay… pode rir novamente… mas outro de meus sonhos era andar de avião…
― Fico muito feliz por você, Lucas…
― Obrigado, tio…
Daí eu perguntei para ele:
― Tio, que horas são?
Ele olhou no relógio e respondeu:
― Nove e meia, por que?
― Ah… é que o Rafa vem aqui às dez…
― Nossa… mas vocês estão um grude mesmo, hein?
― Hahaha… pois é… é que vamos atrás de ternos…
― Ternos?
― É…
― ―
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― E pra que que vocês vão atrás de ternos?
― É… pois é… é que meio que… meio que vamos ao baile da escola…
Nessa hora, ele começou a rir.
― Baile?
― Tá! Eu sei que é ridículo, tio! Não precisa esfregar na cara…
― Não! Eu não acho ridículo não… pelo contrário…
― Tá… que seja… ― eu disse me levantando do sofá. ― De qualquer forma, acho melhor eu ir indo.
― Tá bom, filho… boa sorte!
Saindo dali, voltei para casa. Fui para meu quarto e comecei a me arrumar para ver o Rafa. Botei uma calça e uma camiseta bonita, fui até o banheiro arrumar o cabelo e fiquei lá tentando ficar perfeito por pelo menos quinze minutos, quando ouvi a campainha tocar. Dei mais uma olhada nos dentes, senti meu hálito e finalmente saí do banheiro. Fui correndo atender a porta. Assim que a abri, dei de cara com o Rafa e sua mãe.
― Ah… oi… ― eu disse tentando esconder minha felicidade ao vê-los.
― Oi, Lucas! ― Dona Olívia me cumprimentou com um beijo na bochecha.
― E aí… ― Rafa disse tímido por estar perto da mãe.
― Entrem, por favor… ― eu os convidei para dentro.
― Com licença. ― Ela disse.
Os dois entraram e eu fechei a porta da sala. Daí minha mãe apareceu para recebê-los também.
― Ah… são vocês… ― ela disse enquanto se aproximava. ― Como a senhora vai? ― Ela disse estendendo a mão.
― Bem, e você? ― A mãe do Rafa respondeu.
― Ah… tudo ótimo também… infelizmente nosso último encontro não deu muito certo, né?
― É… pois é… ― ela concordou. ― Mas, então… hoje eu vou levar o Rafael para alugar um terno para o baile… gostaria de saber se o Lucas pode ir junto…
― Ah é… eles já tinham combinado sim… claro que ele pode.
― Ah, que ótimo!
― Mas assim… ― minha mãe perguntou. ― Você sabe quanto mais ou menos teria que gastar? Pra alugar um terno desses?
― Hum… lá onde a gente aluga fica em torno de cem reais…
― CEM REAIS? ― Minha mãe olhou para mim com cara de que eu ia apanhar mais tarde. Eu dei de ombros.
― É… por aí…
― Tá bom… sem problemas… sem problemas… e quanto à viagem? ― Minha mãe continuava me dando umas olhadinhas furiosa. Eu estava encrencado… com toda certeza.
― Ah… tá… quanto à isso…
― Ah, podemos conversar em particular? ― Minha mãe sugeriu. ― Filho, por que você não vai lá mostrar seus brinquedos para o Rafael?
Aff… que brinquedos, mãe? Já tenho doze anos! Mas eu entendi a deixa e fiz sinal para que o Rafa me acompanhasse até meu quarto. Nossas mães ficaram se resolvendo na sala.
Assim que nós entramos, eu me joguei na cama e o Rafa disse:
― Então…
― Então o que? ― Eu perguntei.
― Cadê seus brinquedos?
― Aff… seu besta! ― Eu disse jogando um travesseiro nele.
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― O que você acha que elas estão discutindo? ― Ele disse enquanto vinha se sentar na cama comigo.
― Não sei… mas conhecendo minha mãe, coisa boa não pode ser…
― Hum… e aí… dormiu bem? ― Ele perguntou enquanto se acomodava ao meu lado.
― Dormi sim…
― E o popô? Sarou?
― Ah… é verdade… tinha até me esquecido, mas sarou sim… eu não estava sentindo mais nada quando acordei…
― Oba! Já podemos usar de novo!
― Larga de ser besta, Gatinho.
― Ai… quanto tempo que você não me chamava assim! Que saudades! ― Ele disse enquanto fazia um carinho nos meus cabelos.
― Hã? Te chamei de Gatinho ontem…
― Eu sei! Já faz um tempão!
― Hahaha…
― Mas é sério… já faz um tempinho que não saímos juntos sozinhos… tipo só eu e você…
― É mesmo… agora que você falou…
Nessa hora, ele se aproximou de mim e me deu um beijo. Nós dois estávamos deitados na cama, um de frente para o outro. Daí ele envolveu meu corpo com os braços e me puxou para perto. Eu passei minhas mãos pelo seu pescoço até alcançar seus cabelinhos dourados e joguei minha perna por cima dele. Nossas bocas se encostaram e ele enfiou sua língua dentro da minha.
Fazia tempo que nós não nos beijávamos assim… a última vez que nos beijamos, tinha um pinto no meio do caminho. Quando me lembrei disso, fiquei mais duro do que já estava. Daí desgrudei minha boca da dele e colei nossas testas. Ele me olhou e perguntou:
― O que foi?
― Ah… não é nada… só não consigo tirar da cabeça o que aconteceu ontem…
― Ah… acho que eu também não…
― Mas foi mal… vem cá…
Voltamos a nos beijar e ficamos assim por mais pelo menos dez minutos, até eu ouvir minha mãe me chamar:
― LUUUUUUUCAS!
Desgrudamos nossas bocas e trocamos um olhar intenso. Sim, dez minutos de beijo foi muita coisa… minha boca estava praticamente com o gosto da dele… nada que eu devesse reclamar.
Me levantei da cama e ajeitei meu pinto dentro da cueca, que estava mais duro que tudo. Daí eu e ele fomos até a sala, onde nossas mães estavam.
― E aí? ― Eu perguntei assim que entrei.
― Precisamos ter uma conversinha séria, senhor Lucas Henrique. ― Minha mãe disse em um tom ameaçador.
Fodeu, eu pensei. Eu e minha mãe fomos até meu quarto e deixamos o Rafa e sua mãe na sala. Assim que entramos, ela fechou a porta, olhou para mim e agarrou meu braço, me dando um belisco super dolorido.
― CEM REAIS, SEU FILHO DUMA PUTA?
― AUUUU! ― Eu me segurei para não gritar, pois não queria preocupar o Rafa.
― CEM REAIS?
― Me solta! Me solta! ― Eu gemi de dor enquanto tentava escapar do belisco dela.
Ela me soltou e eu botei a mão no braço.
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― Auuuuu! Precisava disso?
― HEIN!? CEM REAIS? QUER FALIR A GENTE?
― Desculpa, mãe! Desculpa! ― Eu pedi.
― Porra, Lucas! Tem minhoca na cabeça?
― Desculpa! ― Pedi mais uma vez.
― Com cem reais dá pra gente comer por duas semanas!
― Eu sei, desculpa, mãe! Desculpa!
― Só não te dou um coro aqui, porquê! ― Ela levantou a mão e ameaçou me bater.
― Desculpa, mamãe! Por favor! Me desculpa!
― Porra, Lucas! Desse jeito você vai foder a gente! Quem você acha que é, pra levar um estilo de vida igual o desse garoto? Você não tem dinheiro não, seu filho duma vagabunda! Preciso te lembrar disso toda hora?
― Não senhora! ― Eu respondi com medo de apanhar.
― E ainda quer que eu te deixo ir viajar com eles! ― Ela disse botando a mão na cabeça.
Eu fiquei em silêncio, com medo dela me proibir de ir viajar.
― Porra, moleque! ― Ela disse enquanto tentava recuperar a calma.
― Desculpa, mamãe… por favor… vai ser só uma vez! E eu juro que depois nunca mais peço nada!
Ela me olhou brava.
― Não vou nem pedir presente de natal! ― Tentei argumentar.
― Ah, como se você já fosse ganhar alguma coisa!
― Desculpa, mãe! ― Eu implorei mais uma vez, dessa vez com os olhos cheios d’água.
― Aff, vou pegar o dinheiro pra você… é claro que eu não vou mandá-los embora agora, né? Mas, se você me aprontar mais uma dessas… ― ela disse levantando a mão pra cima de mim.
― NÃO! NÃO VOU FAZER! JURO! ― Eu disse desesperado enquanto me encolhia para me defender, mas ela nem chegou a me bater.
― Não vai mesmo, porque se fizer…
― Juro que não vou!
― E quanto a sua viagem…
― O que você conversou com a dona Olívia? ― Perguntei.
― Bom… ela me confirmou que o hotel e o avião sairão de graça… e que você só teria que gastar com comida e com lazer lá… mas, mesmo assim, não posso deixar que eles te banquem…
Nessa hora, me deu um aperto no coração.
― Olha só, Lucas Henrique… eu vou te falar uma coisa e você trate de prestar muita atenção. Eu vou te dar quinhentos reais. Nem mais, nem menos. E você vai ter que se virar com esse dinheiro lá. É pra você comprar sua própria comida, é pra você pagar a sua parte no táxi e é pra você pagar qualquer passeio que for fazer lá. E não é para deixar, em hipótese alguma, eles gastarem um tostão com você, entendido?
Nessa hora, meus olhos até brilharam de felicidade.
― Tá falando sério? ― Eu perguntei.
― Estou. Claro que eu vou me arrepender assim que deixar o dinheiro na sua mão, pois você é um cabeça oca. Mas, se o seu dinheiro acabar… você vai fazer o favor de passar fome, mas não vai aceitar um centavo deles, estamos entendidos?
― Sim senhora! ― Eu disse quase explodindo de felicidade por dentro.
― E eu vou fazer questão de perguntar isso para eles quando vocês chegarem.
― Sim senhora!
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― Feliz? ― Ela perguntou.
― Muito! ― Eu respondi.
― É… dá pra ver… agora vem cá me dar um abraço.
Me atirei nos braços dela.
― Obrigado! Obrigado! ― Eu disse.
― E nosso combinado ainda está de pé. Notas boas e minha lembrancinha.
― Fechado! ― Eu disse feliz. ― Posso ficar com o dinheiro que sobrar? ― Eu perguntei.
― Nem fodendo. ― Ela respondeu imediatamente.
― Sim senhora! ― Eu também respondi imediatamente, pois já sabia a resposta antes mesmo de perguntar.
Saímos do quarto e voltamos para a sala. Assim que passamos pela porta, minha mãe olhou para a mãe do Rafa e fez que sim com a cabeça. Nessa hora, o Rafa veio correndo dar um abraço na minha mãe.
― OBRIGADO! OBRIGADO! OBRIGADO! ― Ele agradeceu e minha mãe riu.
― É… eu conversei com o Lucas, viu, Dona Olívia. Ele vai levar dinheiro e vocês não vão precisar gastar nada com ele, tudo bem?
― Você quem sabe, dona Ana, mas se precisar…
― Não senhora. Não é para vocês gastarem nada com ele, por favor. Ele vai levar o dinheirinho dele e vai cuidar para que seja suficiente.
― Tá… tudo bem… então está tudo certo? ― Ela perguntou.
― É… acho que sim… ― minha mãe respondeu.
― Podemos ir, então? ― Dona Olívia sugeriu.
Depois disso, eu, o Rafa e sua mãe saímos da minha casa e fomos para o centro da cidade, para procurarmos as roupas sociais. A mãe dele nos levou em uma loja chiquérrima da Nordstrom. Meu deus… eu ficaria surpreso se o aluguel ficasse em apenas cem reais aqui.
Fomos até o departamento adolescente e, em seguida, caminhamos até o setor de roupas sociais. Fomos recebidos por um atendente que se parecia mais com um garçom italiano do que com um vendedor de roupas… ele se aproximou segurando uma bandeja e disse:
― Bom dia, senhores. Gostariam de degustar uma cortesia da casa?
E ele nos ofereceu uma bandeja contendo em uma metade bolachinhas de água e sal e, em sua outra metade, chocolatezinhos italianos em forma de cubinhos. Meus olhos até brilharam quando vi a fineza do lugar. O Rafa pegou uma bolachinha e provou. Eu peguei um chocolatezinho, provei e…
― Porra! Isso é gostoso! ― Eu disse para o atendente, que me olhou estranho. Daí eu me toquei de que tinha falado palavrão. ― Erm… posso pegar mais um? ― Eu perguntei.
― Claro, senhor! Fique à vontade.
Nessa hora, eu comecei a rir.
― Hahaha… Rafa, você viu? Ele me chamou de senhor! Não precisa me chamar de senhor não, moço, tenho doze anos… ― eu disse rindo. O Rafa riu de mim.
Daí eu peguei mais um chocolate e disse:
― Obrigado, moço, esse é pra mais tarde…
O moço olhou pra mim e disse gentilmente:
― Sinta-se em casa, se quiser, pode pegar até mais um…
― Ah… já que você ofereceu…
Aí eu peguei mais um chocolate, guardei no bolso e disse:
― Ah, moço… vou levar só mais um pra minha mãe também…
Aí eu peguei mais um.
― Ah… tem o tio Humberto também… vou pegar um pra ele também, tá bom?
― ―
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Eu disse e peguei mais um.
― E acho que vou levar um pra depois do jantar também…
E eu peguei mais um. O Rafa começou a rir.
― Chega, seu idiota! Devolve esse último!
― Nem pensar! Sai fora!
― Lucas!
― Ah, nem vem! E eu te conheço! Mais tarde você vai querer! Já vou avisando, se quiser pega agora! Depois não vou te dar! O moço disse que podemos pegar! ― Eu reclamei.
― É claro. Podem ficar à vontade. ― O moço disse rindo.
― Aff… pede logo uma sacolinha pra ele, então, Lucas! ― O Rafa disse brincando.
Nessa hora, eu olhei para o moço e ele disse:
― Eu vou buscar uma para o senhor.
Nessa hora, eu comecei a rir.
― Traz cheia de chocolate, de preferência! ― Eu gritei para ele e a mãe do Rafa riu.
Daqui a pouco ele voltou com um saquinho e me entregou.
― Muitíssimo obrigado. Minha barriga agradece. ― Eu disse.
Daí o moço ofereceu champanhe para mãe do Rafa, que recusou educadamente. Em seguida, conversamos um pouquinho com ele e explicamos a situação do baile, que estávamos querendo alugar ternos e tal. E ele nos ajudou. Trouxe dois trajes e entregou um para mim e o outro para o Rafa.
Entramos nos provadores, cada um em um, obviamente, e experimentamos as roupas. Depois de vestidos, eu e o Rafa saímos praticamente ao mesmo tempo das cabines. E, quando eu bati os olhos nele, viajei nos meus pensamentos… me lembrando mais uma vez de quão sortudo eu era, por tê-lo para mim.
Meu Gatinho loiro estava adoravelmente elegante. O terninho que ele estava usando era justinho e caía perfeitamente bem em seu corpinho adolescente. Seu cabelinho loiro, que ele sempre usava com topete, estava penteadinho para o lado, fazendo que ele se parecesse ainda mais novinho do que já era. Ele também me olhou e esboçou um sorriso mágico, calmo e tranquilo.
― Você está parecendo um bilionário! ― Ele disse para mim.
Me olhei no espelho e… realmente… eu estava me sentindo muito poderoso nessa roupa… hahaha…
― É… acho que eu realmente tinha ganhado na loteria… ― eu disse para mim mesmo.
Os ternos ficaram super bem em nós dois. Quando terminamos de experimentar, fomos até o caixa, para acertar os detalhes do pagamento. O aluguel acabou ficando em R$ 89,90… mas há quem diga que esses dez reais de troco nunca voltaram para a mãe do Lucas. Alguns dizem que o Lucas gastou tudo em chocolate… outros dizem que isso era impossível, pois depois de tanto chocolate que ele havia comido na Nordstrom, nunca mais quis ver chocolate na vida. Pois é… acho que nunca saberemos…
Deixando a brincadeira um pouco de lado, vamos fazer um pequeno avanço no tempo. Depois que saímos da Nordstrom, a mãe do Rafa me deixou em casa. Como era sábado e eu faria a minha prova de ciências na segunda, eu passei todo final de semana estudando. Claro que era uma provinha ridícula de sexto ano… mas eu não podia brincar com uma recuperação… não com uma viagem em jogo.
Segunda-feira chegou e eu fiz minha prova… estava muito fácil. A nota só saiu terça e eu acabei tirando dez… recuperando minha nota. Claro que o mérito não foi só meu… mas também de uma pessoinha muito especial que tinha me ajudado… de uma forma ou de outra.
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É… exatamente… acabei usando os dez reais que haviam sobrado na Nordstrom para comprar uma caixa de bombons para Arthur. Claro que eu pedi permissão para o Rafa, perguntando se tinha algum problema e ele disse que não… até me encorajou a fazer isso.
Arthurzinho ficou vermelho igual um pimentão quando recebeu meu presente seguido de um beijinho na bochecha e de um vocativo carinhoso… enfim…
Não chegamos a discutir o que tinha rolado naquele dia… ficou tudo meio que… estranho. Continuamos agindo normalmente um com o outro… mas eu estava me esforçando muito para que isso acontecesse… e eu tenho certeza de que ele também estava.
Quando nos reunimos no recreio… eu, ele e o Rafa… conversamos um pouquinho e o assunto morreu. O assunto nunca tinha morrido com a gente… o Arthur e o Rafa sempre ficavam trocando provocações… mas não dessa vez… eles estavam… com vergonha um do outro… por incrível que pareça, foi eu quem acabou quebrando o gelo, falando sobre as olimpíadas internas.
E, por falar em olimpíadas internas, elas finalmente aconteceram. Na quinta e na sexta-feira dessa semana, a escola realizou tipo uma gincana, onde as equipes eram divididas por turmas… quinto ano, sexto ano, sétimo e oitavo. Portanto, eu meio que acabei na equipe do Rafa, do Igor, do Miguel e de toda galera do sexto ano… enquanto tínhamos, como adversário, Arthur.
Foram realizadas várias provas. O Rafa participou do futebol e fez o gol da vitória contra os moleques grandões do oitavo ano. Depois, nas finais, jogamos contra o quinto ano e também ganhamos, fazendo o sexto levar o primeiro lugar no futebol.
Já na competição de conhecimentos gerais, eu e a sabichona da minha sala, a Érica, ficamos de enfrentar o sétimo ano… sim… Arthur e uma garota não tão inteligente quanto ele. Pois é… nem preciso dizer que perdemos de lavada, né? Parte da culpa foi do Arthur e parte da culpa foi da Érica, que apertava o botão para responder mesmo não sabendo a resposta. Depois que o sétimo ganhou da gente, eles também ganharam do oitavo ano, levando, portanto, o primeiro lugar nas provas de conhecimento.
Tiveram várias outras provas… mas, acontece que, nem a minha turma nem a do Arthur saíram vencedoras… quem ganhou foi o pessoal do nono ano… os formandos… toda escola começou a gritar que eles tinham roubado, pois eles não tinham ficado em primeiro lugar em nenhuma prova e, ainda sim, tinham conseguido ficar em primeiro lugar no geral. Mas, o fato de toda escola reclamar, não tirou o troféu do nono ano… eles ainda saíram com a taça dourada com um grande símbolo da Nova Aliança.
O final das olimpíadas internas tinha acontecido sexta-feira de manhã. Sexta-feira à noite, o nono ano tinha realizado o churrasco dos formandos e, finalmente, sábado à noite, hoje, agora, seria o grande baile de formatura, que toda escola era convidada a prestigiar.
― Tem certeza de que pegou tudo, Lucas? Escova de dentes? Pijamas? Cueca?
― Acho que sim, mãe.
― Não vou acordar no meio da noite pra levar cuecas limpas pra ninguém não, ouviu?
― Tá… eu trouxe, pode ficar tranquila… tá na mochila.
― E vê se não fica até o final, viu, filho? Por que quem fica até o final de festa é rapariga e biscate…
― Tudo bem, mãe…
― E fica longe de bebida, também, viu?
― Mãe! É uma festa da escola… não vai ter bebida.
― Você que pensa, Lucas. E não aceite nada dos outros… cigarro, chiclete, passa longe dessas coisas…
― Mãe, os professores estarão lá…
― Eu sei, filho, mas é um professor pra cada cinquenta alunos!
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― Tá… tudo bem… pode ficar tranquila… não vou fazer nada de errado.
― Se acontecer alguma coisa na casa do seu amigo, me liga, não precisa se preocupar…
― Tá… valeu…
― E, se for fazer…
― Mãe… pelo amor de deus… ― eu implorei.
― Preservativo.
― Mãe…
― No teu e no dele.
― MÃE!
― Tá… parei… só tô avisando…
― Já disse que não fazemos isso… ― menti.
― Vai que, né? Tá levando aí na mochila?
― Tô… ― eu disse envergonhado e botei a mão na cara.
Finalmente chegamos na entrada do baile. A festa seria em um clube de lazer que ficava na área rural da cidade. Era um daqueles clubes que tinham piscina, campo de futebol, quadra de tênis, pista de atletismo e salão de festas. A festa, no caso, seria no salão principal do clube, que ficava à dez metros de onde eu e minha mãe estávamos nesse momento. Eu tinha combinado de ir dormir na casa do Rafa, já que não era viável para minha mãe vir me buscar altas horas da madrugada na friagem da noite.
Ela parou o carro, eu me despedi e desci. Desci segurando minha mochilinha nas mãos já que eu estava de terno e não seria nada elegante botar uma mochila escolar nas costas. Nela tinha meus itens de higiene pessoal e minha troca de roupa, para mais tarde.
E cá estava eu… em frente ao arco de flores que findava a entrada para o baile. Após o arco, um longo tapete vermelho se seguia até a entrada do salão, onde havia um fotógrafo fotografando os formandos.
Não era cedo, nem tarde. Eram nove da noite, horário em que havia o maior fluxo de convidados chegando. O Rafa ainda não tinha chegado, ele tinha acabado de me enviar uma mensagem dizendo que estava quase chegando. Aí eu fiquei completamente desconfortável, por estar sozinho em um ambiente extremamente intimidador.
Haviam várias rodinhas de alunos por aí, mas nenhuma delas possuía pessoas que eu tinha amizade. Aí eu comecei a sentir alguns olhares pra cima de mim e fiquei mais desconfortável ainda. Resolvi entrar para dentro do salão, para ver se encontrava alguém. Mas, assim que fui atravessar o lindo corredor decorado com flores lilases, dei de cara com Miguel… ah… graças aos céus.
― Miguel! ― Eu exclamei.
Miguel estava com um terninho preto e com uma gravata borboleta. Ele tinha penteado seu cabelo para trás e o lotado de gel… então estava bem lambido. Mas ele estava elegante.
― Oi, Lu! E aí! ― Ele me cumprimentou.
― Oiii! Nossa, até que enfim encontrei alguém… só tem galera mais velha aqui… ― eu disse para ele. Eu já estava até meio arrependido de ter vindo.
― Relaxa… daqui a pouco o pessoal chega.
― Não chegou ninguém ainda?
― Não que eu saiba… só nós dois…
― Hum…
― Eu estou sentado numa mesa ali com meu primo do oitavo… quer vir?
― Ah… claro! ― Eu aceitei o convite.
Eu segui o Miguel para dentro do salão. Era um salão bem grande. À esquerda da entrada, havia um barzinho em que o barman estava servindo batidas de guaraná com morango.
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À direita, tinha o espaço do buffet, com alguns frios. No centro do salão, eu pude avistar vários de nossos professores, eles ocupavam as mesas da região mais clara do salão. E, no fundão, além de ser a parte mais escura, era onde estava a pista de dança e o DJ. A galera da escola estava toda concentrada lá…
Miguel me levou até uma mesa que estava no canto. Tinham alguns meninos e meninas do oitavo ano. Eu nunca tinha conversado com ninguém dali e todos eram mais velhos… daí me senti bem desconfortável. E a única cadeira livre que tinha na mesa, estava do lado de um garoto que eu conhecia só de vista… eu sabia o nome dele… era Henrique… sim… esse mesmo… o crush do Maurício.
Eu me sentei na mesa e estavam todos se divertindo. Miguel se enturmou logo. Ele já conhecia o pessoal. Eu me senti extremamente desconfortável nessa mesa e não via a hora do Rafa chegar para me tirar dali.
Eu queria socializar com o Henrique, mas eu estava com muita vergonha… sem falar que eu não tinha assunto… ele era mais velho, mais maduro. Eu me sentia uma criança perto dele. Ele estava sentado bem do meu lado e não estava participando muito da conversa. Ele olhava mais para o celular do que para a mesa.
Comecei a pensar em assuntos para falar com ele e decidi que ia começar perguntando se ele jogava Minecraft…
― Oi… ― eu virei para o lado e o cumprimentei.
Ele se assustou um pouco com minha aproximação, o que me fez ficar vermelho de vergonha, pois eu não sabia o que ele estava pensando sobre mim. Senti minhas orelhas ficando quentes.
― Ah… oi… ― ele disse tímido e depois olhou para seus amigos.
― Você é o Henrique, né? ― Eu perguntei.
― Aham… sim… por que?
Quando ele perguntou o porquê, eu fiquei sem reação… eu não estava esperando essa pergunta… aí fiquei completamente sem graça.
― Ah… nada… eu… eu… sou… o Lucas…
― Hum… é… eu sei… ― ele respondeu.
Tá… essa era outra resposta que eu não esperava… ele sabia quem eu era? Agora eu estava completamente confuso… se ele sabia quem eu era, ele com certeza sabia o que eu era… e agora eu já estava arrependido de ter começado essa conversa. Daí, sem saber como proceder, eu disse:
― Hum… erm… é… você joga Mine?
― Se eu jogo o que?
― Mine… Minecraft…?
― Ah… o jogo dos bloquinhos? ― Ele perguntou.
― É… esse mesmo… ― eu respondi com um pingo de esperança.
― Ah… não… nunca joguei não…
― Hum… ― eu respondi.
Daí eu fiquei completamente sem assunto, pois só tinha planejado a conversa até aí… eu achei que ele fosse dizer que sim… daí teríamos sobre o que conversar… mas não foi o que aconteceu e eu não consegui desenrolar mais… daí ele voltou a mexer no celular e me ignorou completamente. Eu fiquei sem graça.
Peguei meu celular também e mandei uma mensagem para o Rafa:
― Lucas: GATINHO! CADÊ VOCÊ? PLMDS!
― ―
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Mas ele não respondeu de imediato. Daí eu voltei a olhar para a mesa e fiquei prestando atenção na conversa. O primo do Miguel estava contando como ele tinha feito para quebrar um frasco no laboratório de química.
Tentei pensar em alguma coisa para conversar com o Henrique, daí eu disse para ele:
― Ei, Henrique… ― Ele olhou para seus amigos e só depois olhou para mim.
― Oi? ― Ele perguntou.
― Você participou das olímpiadas internas?
― Ah… sim… eu participei da natação. ― Ele voltou a olhar para os amigos, ao invés de olhar para mim.
― Hum… ― eu disse.
― E você?
Fiquei com vergonha de dizer que tinha participado da competição de conhecimentos gerais… me fazia parecer tão nerd… mas acabei confessando assim mesmo…
― Ah… eu participei da competição de conhecimentos gerais…
― Hum… legal… ― ele disse novamente olhando para os amigos.
― E você ganhou? ― Eu perguntei.
― Não… ― ele respondeu. ― Você?
― Não, também…
E ele olhou para os amigos novamente. Aff, cara… na boa… não precisava ser um gênio para perceber o que estava acontecendo aqui. Ele estava se preocupando com o que seus amigos iriam pensar por ele estar conversando com o Lucas… o veadinho do sexto ano. Era evidente que ele estava se sentindo incomodado conversando comigo… caralho… eu não estava acreditando nisso…
É claro que eu já havia sofrido discriminação por causa da minha orientação sexual. Mas acho que todas as vezes em que fui menosprezado, eu sofri discriminação de forma direta… como a de Hermes… ou a do meu pai… em que eles apontavam o dedo na minha cara e me julgavam… mas acho que agora era a primeira vez que eu sofria isso de forma indireta e implícita… em que a pessoa não queria se relacionar comigo simplesmente por causa da minha orientação… custava Henrique ser um pouco mais discreto? Fiquei magoado com ele… de verdade.
Eu queria mais do que tudo sair daquela mesa. Foi aí que uma luz caiu do céu e eu avistei Arthur.
Larguei minha mochila no cantinho do salão, pedi licença da mesa e fui em direção a ele, para encontrá-lo.
― Oi, galã de novela! ― Eu sorri para ele assim que o vi. Ele estava lindo de terninho.
― Ah… é você, Olhos Verdes… ― ele me cumprimentou estendendo a mão.
― Oie… ― eu disse novamente.
― Que foi? ― Ele perguntou.
― Nada… tá gatinho, hein? ― Eu o zoei.
― Aff… tá parecendo o cabeça de melão… e, por falar nisso, cadê ele?
― Não chegou ainda…
― Hum… ― ele disse. ― Quer dar uma volta por aí? ― Ele me convidou.
― Claro… pode ser. ― Eu aceitei.
Daí nós dois fomos dar uma voltinha juntos pela festa. Arthur estava olhando para todos os cantos, parecia até que ele estava procurando alguém…
― Ela ainda não chegou. ― Eu disse.
― Ela quem? ― Ele se fez de bobo.
Eu olhei sério para ele.
― ―
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― Tá… pareço um idiota, né? ― Ele perguntou.
― Um idiota bem fofo! ― Eu sorri.
Continuamos andando pela festa até chegarmos ao bar.
― Duas batidas, por favor. ― Arthur pediu. ― Guaraná com morango.
O barman entregou as batidas e o Arthur me passou um copo. Estava até com um guarda-chuvinha de decoração.
― Uau! ― Eu disse. ― Guarda-chuvinhas! Quem é que está pagando por tudo isso?
― Hahaha! ― Arthur riu. ― Esqueceu que estamos numa festa da Nova Aliança?
― Ah… é verdade… ― eu disse rindo.
Quando eu fui beber, ele me impediu.
― Espera! Eu quero propor um brinde! Vem cá!
Nos afastamos um pouquinho do bar e ele me olhou.
― Eu gostaria de propor um brinde! ― Ele disse novamente.
― Um brinde? A quem?
― Um brinde! A todas as crianças imundas, desprezíveis, ignorantes, podres de ricas, sem maldade no coração e sem ambição alguma que estudam na Nova Aliança e financiam nossos estudos! Nos dando, além de livros e apostilas, guarda-chuvas inúteis nos nossos copos, sem que tenhamos que pagar um mísero tostão pra isso! ― Ele finalizou e ergueu o copo.
― Profundo, hein? Tava inspirado? ― Eu perguntei e ele riu.
― Inspirado não… apaixonado… ― ele disse.
Daí nós dois erguemos nossos copos e depois demos um gole nas nossas batidas.
― Isso é bom… ― eu disse.
― Concordo.
― A última vez que eu tomei isso… acabei beijando a pessoa pela qual eu estava apaixonado…
― Sério? Não me diga… então vamos torcer para que estas não estejam vencidas essa noite, né?
― Com toda certeza. ― Eu disse e ergui o copo.
Depois do nosso brinde, saímos andando pelo salão mais uma vez. Depois de darmos mais algumas voltas, eu cruzei o meu olhar com o de uma pessoa que eu nunca mais queria ver na vida. O rosto dele foi como um gatilho para explodir uma bomba de emoções dentro de mim. Todas as memórias foram voltando de uma vez.
A foto minha e do Rafa… o cabo de vassoura… a caixa de leite… o Rafa gritando “Faz comigo!”… as milhares de fotos espalhadas pela escola… tudo foi voltando…
― Lucas? Lucas! LUCAS!
Acordei do meu transe hipnótico com o Arthur me chacoalhando.
― QUE FOI? ― Eu perguntei para ele. Quando percebi que tinha soado grosso, eu repeti a pergunta com mais calma: ― Que foi?
― Ei! O que foi? Você está bem?
― Sim. Por que?
― Você ficou estranho do nada… e deixou seu copo cair…
Quando ele disse isso, olhei para meus pés e o meu copo estava no chão. Tinha molhado os meus sapatos e os dele.
― Ah… desculpa, Arthur. Me distraí um pouco.
Voltei a olhar para a rodinha de garotos que estava a alguns metros da gente. Arthur percebeu que eu estava os encarando e olhou na mesma direção.
― Ah… é aquele Caio… não é?
― ―
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Eu fiz que sim com a cabeça. Caio era o outro amigo de Hermes, o que tinha colado nossas fotos por toda escola e saído impune. Ele estava ali em uma rodinha de garotos do nono ano e de alguns mais velhos que pareciam ser ex-alunos da Nova Aliança. No centro da rodinha, haviam quatro garrafas de vodka e uma de whisky. Todos os meninos estavam com copos de bebidas nas mãos e eles tentavam esconder as garrafas fazendo uma barreira em volta das mesmas.
Eu fiquei encarando esse Caio… até que ele percebeu. Quando ele viu que eu estava olhando para ele, ele soltou um sorrisinho e ergueu seu copo, como se estivesse propondo um brinde ou um cumprimento. Na mesma hora, eu fiz cara de bravo, ergui a mão e mostrei meu dedo do meio para ele. Imediatamente, Arthur segurou meu pulso e puxou para baixo com força, tentando esconder minha mão.
― Tá maluco, Olhos Verdes!? Que arrumar mais problemas pra gente? Olha o tamanho desses caras!
Eu continuei encarando os meninos com cara de bravo.
― Lu! ― Ele me chamou.
Quando ele me chamou de Lu, igual o Rafa fazia, eu imediatamente olhei para ele.
― Ei! Não vale a pena… para!
― Vamos sair daqui. ― Eu disse virando as costas e indo embora.
― Ei! Peraí! Peraí!
Daí nós dois resolvemos ir até a entrada do salão, para ficar vendo o pessoal chegar.
― Foi mal, Arthur… é que…
― Ei… relaxa… não deixa ele estragar sua noite. Tenta… tenta não pensar muito naquilo…
― Tá… ― eu concordei.
― Ele… ele meio que repetiu de ano…
― O que!? ― Eu exclamei.
― Ei! Não era para você estar surpreso com isso! Eu te avisei que ele estava quase para repetir!
― Eu sei… eu sei… é só que… eu acho que ainda não superei…
― Olha só… não tem problema! Mas você tem que admitir que ele nunca mais se meteu no seu caminho…
― Ainda! ― Eu reclamei.
― Ei! Calado! Ele nunca mais se meteu no seu caminho… ponto. Agora você só tem que ficar longe do dele!
― Tá… eu sei… eu acho…
Daí ficamos conversando lá um pouquinho até um carro prateado familiar parar em frente ao arco florido da entrada. Meu Gatinho loiro desceu do carro mais lindo que nunca. Não consegui esconder meu sorriso ao vê-lo. Eu fiquei observando ele se despedir de sua mãe e depois caminhar em nossa direção. Ele veio desfilando como se fosse um príncipe britânico. Assim que ele chegou até nós, estendeu a mão para o Arthur.
― Oi, Arthur… ― ele disse.
― E aí… ― Arthur o cumprimentou.
Daí ele se virou para mim e estendeu a mão.
― Oi! ― Ele disse.
― Oi!
Mas, assim que eu apertei sua mão, ele me puxou com tudo, me agarrou e enfiou a língua na minha boca. Daí começamos a dar um beijo de língua na frente de todo mundo, inclusive do Arthur.
― ―
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― Ah, deus do céu… arrumem um quarto para vocês… ― Arthur disse desviando o olhar.
Nem demos ouvidos a ele. Apenas continuamos nos beijando ali por pelo menos mais trinta segundos.
― Você tá lindo! ― Ele olhou nos meus olhos e disse.
― Ai, para, Gatinho… o Arthur tá vendo… ― eu disse e encostei minha testa na sua.
― Eu não me importo… depois do que ele já viu… ― ele disse e eu ri. ― Ei… senti saudades, meu amor…
― Mas nos vemos ontem!
― Eu sei… eu sei… mas senti saudades mesmo assim…
― Ah… eu também…
Aí ele me deu mais um selinho.
― O que vocês estão fazendo aqui fora? ― Ele perguntou.
― Esperando por você, meu Gatinho… ― eu disse.
― Awnt! Obrigado, meu amor!
Ele disse e me deu outro selinho.
― Ah, pelo amor de deus, não me façam ir no banheiro vomitar. ― Arthur disse.
― Xiii… alguém tá com ciúmes… ― Rafa disse para brincando.
― Nossa, vou explodir de ciúmes aqui… ― Arthur disse ironicamente.
― Cadê o resto do pessoal? ― Rafa perguntou enquanto me soltava.
― Só chegou a gente… ― eu disse. ― E o Miguel… que está lá dentro.
― Hum… o Igor ainda não chegou?
― Não…
― Entendi…
Daí ficamos conversando lá um pouquinho até um carro cheio de garotas parar em frente ao arco florido da entrada.
― Ei! Arthur! Acho que sua garota chegou… ― eu disse brincando.
Arthur ficou meio nervoso e começou a se arrumar.
― Como estou? ― Ele perguntou para a gente.
― Tá lindo. ― Eu respondi.
― Tá muito gostoso… ― Rafa respondeu ao mesmo tempo.
Desceram quatro meninas do carro aos gritinhos histéricos. Uma delas era Giovanna, que vestia um vestidinho curto e cor-de-rosa. Daí as garotas começaram a tirar selfies em frente à festa.
― Nossa… é verdade… a Gi tinha me dito que ela e as amigas fariam um esquenta antes de virem pra cá… na casa da Bruna.
― Esquenta? ― Arthur perguntou.
― É… elas iriam se arrumar para a festa…
― Hum… entendi… ― ele disse.
― E eu acho que, depois do baile, elas ainda vão fazer uma festinha do pijama na casa da Bruna…
― Festinha do pijama? ― Arthur perguntou surpreso.
― É sim… ― eu disse.
― Hum… eu sei bem o que rola nessas festinhas de pijamas… ― Rafa disse com carinha de safado.
― Como assim? ― Arthur perguntou.
― As garotas se reúnem para falar sobre os garotos que beijaram na festa!
― Sério? ― Arthur perguntou preocupado.
― Aham. Depois, elas dão nota para cada um deles…
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Pude ver o Arthur ficando cada vez mais nervoso, conforme o Rafa ia falando.
― E, se o garoto beijar mal, fica com o filme queimado por toda eternidade… ainda bem que a gente treinou antes, né, Arthur?
Arthur olhou pra gente e soltou um sorrisinho tímido e nervoso.
― E depois, elas ainda conversam sobre os garotos que foram ainda mais corajosos e que tiveram coragem de pedir um boquete para elas.
Nessa hora, Arthur ficou de boca aberta.
― E, no final da noite… só no final da noite mesmo… elas conversam sobre os meninos ainda mais valentes que tiveram coragem de se aventurar no vale proibido do prazer! Mais conhecido como buceta!
― Hahaha… ― eu ri. ― Desse jeito vai acabar assustando o Arthur, Rafa… ― eu disse brincando.
― Ei! ― Arthur reclamou.
― Que assustar o Arthur o que! Ele já está pronto! A gente fez questão de garantir isso, se lembra? ― O Rafa disse e eu ri.
― Mas aí… ― eu disse. ― Se tudo isso que você está dizendo for verdade, Rafa…
― Sim… o que tem? ― Ele perguntou.
― A gente podia fazer uma festinha do pijama também… ― eu sugeri.
― Super apoio… ― ele disse rindo. ― Topa, Arthur?
― Sai fora! ― Arthur reclamou. ― Eu, hein! Festinha do pijama é meu pau.
― Ai, seu grosso! ― Rafa disse brincando. ― Mas agora, falando sério, Arthur… sabe o que eu e o Lucas estávamos discutindo?
― O que? ― Ele perguntou na inocência.
― Como seria um beijo triplo? Você já deu um?
Nessa hora, as bochechas do Arthur ficaram vermelhas e ele desviou o olhar.
― Ou então… a gente podia brincar de sanduiche!
― E como se brinca disso? ― Ele perguntou na inocência novamente.
Mas levou apenas um segundo para se tocar.
― Puta que pariu, Rafael! Dá um tempo! ― Ele disse botando a mão na cara.
Aí, finalmente, o grupinho de garotas se cansou de tirar fotos e veio na nossa direção. Quando a Giovanna me viu, ela veio correndo me dar um abraço.
― Luluzinho! ― Ela disse enquanto me dava um beijinho na bochecha.
― Oi, Gi! ― Eu disse.
― Luluzinho? ― Rafa disse. ― Gostei…
― Ain! Oi Rafael! Meu amor! ― Ela disse e foi dar um beijinho no Rafa.
Aí ela se virou para o Arthur, que estava igual um pimentão de vermelho e disse:
― Oiii! Anderson! Tudo bem com você?
Eu pude ver a cara de decepção do Arthur quando ela errou seu nome.
― Ah… tudo… ― ele disse enquanto recebia um beijinho na bochecha também.
― E aí! Luluzinho! O que você me conta? Novidades? ― Ela perguntou.
― Hum… até agora não, né… ― eu disse. ― Mas a festa só está começando… as fofocas estão por vir!
― Ah… pode ter certeza! ― Ela disse. ― Ei! Eu vou ali com as minhas amigas cumprimentar o resto pessoal, depois a gente conversa!
― Tá, minha gata! Vai lá! ― Eu disse.
Eu e o Rafa olhamos para o Arthur, que fazia uma carinha muito engraçada de preocupado.
― Acho que temos muito trabalho pela frente, Rafa… ― eu disse rindo.
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― Pode apostar que temos… ― ele concordou. ― Não é mesmo, Anderson?
Eu ri. Arthur fez cara de bravo. Depois disso, nós resolvemos entrar para a festa e dar uma voltinha por lá. Quando passamos em frente ao bar o Rafa soltou um berro:
― NÃO BRINCA! É OPENBAR DE TODDYNHO?
Eu até me assustei com o grito dele… aí eu olhei para a cara do Arthur e nós começamos a rir. Cada um de nós pegou uma caixinha de toddynho e continuamos dando uma volta pelo salão.
Vimos alguns conhecidos… falamos com algumas pessoas… encontramos alguns professores que ficaram felizes ao ver eu e Arthur e fizeram cara de desprezo quando viram o Rafa… e continuamos dando uma volta até o Igor aparecer.
― E aí, mano! ― Rafa o cumprimentou indo dar um abraço nele.
― E aí! ― Igor disse.
Igor também estava incrivelmente lindo. Seu cabelinho louro escuro estava começando a ficar grandinho… ele nunca mais tinha cortado… então ele não estava mais usando um topetinho para cima… ao invés disso, ele tinha começado a usar franja… talvez tivesse sido a pedido de Sarah… mas acho que nunca saberemos.
Nós nos cumprimentamos e ele sugeriu que fossemos nos sentar em uma mesa, pois a Sarah tinha vindo com um sapato que machucava seu pé. Daí nós fomos nos sentar em uma das mesas que tinham ali. Não conseguimos sentar no fundão, pois todas as mesas já estavam ocupadas. Mas conseguimos pegar uma mesa no canto do centro.
Logo Miguel veio se sentar com a gente… ele estava acompanhado de uma garota que ele estava ficando. Daí na mesa ficou eu e o Rafa, o Igor e a Sarah, o Miguel e a sua ficante, e o Arthur…
Ficamos conversando lá por um bom tempo. Foi bem divertido. Até que começou a tocar Sorry, do Justin Bieber…
― Nossa! Vamos lá dançar! ― A Sarah convidou. ― Adoro essa música!
Igor olhou para ela com cara de morte. Eu ri… ele tinha acabado de se foder… a Sarah ia levá-lo para a pista, para dançar.
― Nossa! Eu também! ― O Rafa exclamou.
Aff… porque eu ainda falo essas coisas?
Acabou que todos da mesa resolveram ir lá pra pista dançar. Claro que, o último a aceitar isso foi o Arthur, mas ele acabou cedendo à pressão social.
Quando chegamos na pista, Sarah encontrou algumas amigas e foi dançar com elas. Miguel e sua ficante começaram a dançar juntos e nos deixaram. Aí sobraram eu, o Rafa, o Igor e o Arthur. Acabamos formando uma rodinha entre a gente mesmo.
O Rafa e o Igor eram muito soltos para dançar, sem falar que eles conheciam a letra da música e sabiam cantar. O Arthur ficou parado na roda com os braços cruzados. E eu tentei, sem sucesso, mexer os quadris e desenrolar alguma coisa. Arthur riu de mim.
― Eiii! ― Eu reclamei. Como a música estava muito alta, eu fui até seu ouvido e gritei: ― VAI TOMAR NO SEU CÚ! EU NÃO SEI DANÇAR!
Aí ele foi até o meu ouvido e gritou:
― TÔ VENDO! ESTÁ RIDÍCULO!
Aí eu fui até o ouvido dele e gritei:
― MAS PELO MENOS TÔ DANÇANDO! ― Ele riu.
Aí começou a tocar Cheap Thrills da Sia. Imediatamente, o Rafa veio dançar se esfregando em mim. Eu comecei a rir, porque ele ficava fazendo umas carinhas ridículas de sedutor retardado.
― ―
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Do nada, a Giovanna apareceu no meio da pista. Aí ela veio dançar comigo. Quando o Arthur viu, ele começou a dançar também… só assim para esse garoto começar a se soltar… claro que ele estava todo duro e ridículo, mas já era um começo.
Aí a Giovanna virou de costas para mim e começou a rebolar e esfregar a bunda na minha cintura. Meu deus… isso devia estar deixando o Arthur maluco. Claro que ela só estava fazendo isso porque sabia que eu não sentia atração nas meninas, e sabia que eu não me aproveitaria dela… mas eu comecei a ficar de pau duro. Não porque ela era uma garota… mas porque ela estava esfregando a bunda em mim, pelo amor de deus!
Quando comecei a ficar duro, eu me afastei um pouquinho dela, mas ela acabou voltando a dançar de frente para mim. Aí ela foi até meu ouvido e gritou:
― E AÍ! ALGUMA FOFOCA, JÁ?
Eu fui no ouvido dela e gritei:
― NÃO! E VOCÊ?
Aí ela disse:
― CAROL FICOU COM O GUSTAVO!
― MENTIRA! ― Eu gritei.
― SÉRIO! ― Ela gritou.
― PORRA! NÃO DAVA NADA PARA OS DOIS!
― POIS É!
Daí continuamos dançando ali na pista até o DJ anunciar:
― Senhoras e senhores, em alguns instantes, daremos início à entrada dos formandos. Pedimos que, por gentileza, os formandos se dirijam até a entrada do salão.
Tivemos que dar licença da pista para a cerimônia de formatura. Depois de alguns minutos, os formados foram sendo chamados um a um. Eles entravam aos gritos e berros de felicidade.
Enquanto estávamos assistindo eles entrarem, eu olhei pelo salão e avistei Maurício. Dei uma olhadinha para o Rafa e ele estava distraído conversando com o Igor. Daí eu dei uma fugidinha para ir lá falar com Maurício.
― Ei! Maumau!
Quando o garoto me viu, seus olhos até brilharam de felicidade.
― Lucas! Ah! Oi! E aí?
Ele também estava usando um terninho, que o deixava todo pomposo e elegante.
― Oi… você também veio… ― eu disse.
― Sim… e aí?
― Tudo bom? ― Eu perguntei.
― Tudo… e com você?
― Também…
― E o Rafa? ― Ele perguntou.
― Vai bem… ― eu disse.
― Ah… que bom…
― É…
Aí nós ficamos em silêncio por um segundo.
― Ei… podemos conversar um pouquinho?
― Claro… pode ser… ― ele aceitou.
― Pode ser lá fora? ― Eu sugeri. ― Que aqui dentro está com muito barulho…
― Aham… ― ele concordou.
Ao invés de sairmos pela entrada do salão, saímos pelos fundos. Era uma parte com pouca iluminação e tinham alguns casais ficando. Continuamos seguindo pelo caminho até
― ―
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sairmos daquele ambiente de pegação. Continuamos andando até chegarmos a um enorme gramado de futebol. Estava bem frio aqui fora, por ser área rural da cidade e quase onze horas da noite.
O campo de futebol possuía uma arquibancada bem alta. Convidei o Maurício para subir ali. Nós escalamos os gigantescos blocos de cimento em forma de escada até chegarmos ao topo.
― Caralho… dá pra ver quase toda cidade daqui… ― ele disse apontando.
E realmente dava. O clube ficava em uma parte alta da cidade. Nos sentamos na arquibancada e ficamos admirando as luzes da cidade que brilhavam em um tom dourado escuro.
― Então… eu conversei um pouquinho com o Henrique. ― Eu comecei dizendo.
― Ah… jura!? E aí? ― Ele perguntou esperançoso.
― Olha… desculpa dizer isso assim… mas, logo de cara, ele me pareceu meio… idiota.
― O que? Por que? ― Ele perguntou meio decepcionado.
― Eu não sei dizer… eu senti um pouco de descaso quando conversei com ele…
― Como assim?
― Não sei explicar bem… eu fui conversar com ele e… era como se ele estivesse com vergonha de estar falando comigo na frente dos amigos… tipo isso…
― Mas o que você acha que isso quer dizer?
― Primeiro que ele é um idiota.
― Hã?
― Porque tipo… se ele não gostar de meninos, considere que ele foi super grosseiro e preconceituoso comigo… agora… se ele gostar, ele foi um idiota agindo daquela maneira.
― Por que diz isso?
― Porque sim! Olha a diferença entre vocês dois, Mau! Você veio falar comigo! Ele me ignorou! Desculpa, mas eu achei ele um super idiota…
― Droga, Lucas… mas eu gosto tanto dele… você nem faz ideia…
― Tá tudo bem… relaxa…
― Eu não sei o que eu faço… ― ele disse fazendo cara de choro.
― Ah não, Mau… você não vai chorar por causa dele, né?
Ele respirou fundo algumas vezes e disse:
― Não… acho que não…
― Mas olha… tudo isso ainda pode ter sido só impressão minha… às vezes ele vai ser legal com você…
― Não precisa tentar me animar… ― ele disse olhando para baixo.
― Eu não… olha só… se você quiser, a gente pode ir lá conversar com ele… eu vou junto contigo…
― E vamos falar o que!? Oi, Henrique, gosto muito de você! Te acho lindo, fica comigo?
Eu fiquei em silêncio e deixei ele falar.
― E agora? Eu tô tão confuso… porque eu fui nascer assim?
Aí o garoto começou a chorar. Aí droga…
― Ei… não fica assim não…
Eu, que estava sentado ao seu lado, comecei a passar a mão nas suas costas.
― O que você sente por ele? ― Eu perguntei.
― Como assim? ― Ele me olhou e perguntou aos soluços.
― O que você sente quando olha para ele?
― Ah… não sei explicar…
― ―
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― Enxuga aqui… ― Eu disse passando os polegares nas suas lágrimas. ― Tenta me explicar…
― Ah… não sei… eu gosto dele…
― Mas você sente tesão nele? ― Eu perguntei e ele demorou um pouquinho para responder.
― É… acho que sim…
― Acho não, Maurício… quero ou um sim ou um não… quando você olha para ele, você sente vontade de…?
― Sim… sinto! ― Ele disse olhando para baixo. ― Mas eu não queria…
― E você pensa nele o tempo todo?
― Não sei… acho que sim… mas sei lá… mais ou menos… ― ele respondeu. ― Por que?
― Relaxa… só estou tentando ver se você está realmente apaixonado ou se é só tesão…
― Ah… tá… mas agora que você falou, não… não penso nele o tempo todo…
― Ah lá! Tá vendo? ― Eu disse um pouco mais aliviado.
― É que… na verdade, Lucas, eu penso assim mais em outra pessoa…
― Em outra pessoa? ― Eu perguntei confuso.
― Aham…
― Mas é menino também?
― É sim…
― Hum… então deixa eu ver se eu entendi… você pensa mais nesse outro menino do que em Henrique? Mas é por Henrique que você está apaixonado?
― Erm… na verdade, não… ― ele disse.
― Olha, desculpa… mas agora eu não estou entendendo mais nada…
― Eu gosto dos dois… mas eu passo mais tempo pensando no outro…
― Isso é bom, Maumau… porque se o Henrique for um idiota… você ainda pode…
― Não, Lucas… é aí que tá o problema…
― O que foi? Você acha que o outro garoto também é hétero?
― Não… muito pelo contrário… ele também gosta de meninos…
― Ué… não entendi… se você sabe que ele curte? Então qual…
Mas, quando finalmente fui perguntar qual era o problema, eu entendi do que se tratava…
― Aí… droga… droga, Maurício… não… desde quando? ― Eu disse já começando a passar mal.
― Olha, Lucas, desculpa… eu queria que fosse diferente… queria muito…
― Desde quando?
― Desde quando eu descobri sobre vocês… eu nem te conhecia antes disso…
― E por que você não falou nada… aquele dia? ― Eu perguntei.
― Eu fiquei com medo de que você ficasse bravo… igual você está agora…
― Aff… olha… não… eu não estou bravo… estou apenas tentando entender…
― Mas aí você veio com aquela história de que… tinha ficado com outro garoto… e eu pensei que…
― Ah não, Maurício… sem chances… não mesmo! De jeito nenhum!
― É que eu só queria experimentar uma vez…
― Não mesmo! Olha… ― eu disse me levantando. ― As coisas entre mim e o Rafa já não estão lá grandes coisas… não posso ficar com você e nem com nenhum outro menino…
Ele olhou para baixo enquanto tentava entender.
― O problema não é você… ― eu disse. ― Você tem que entender isso, pelo amor de deus…
― ―
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― Eu sei…
― Não, tô falando sério… em outra ocasião, eu com certeza…
― Não precisa disso, Lucas… eu estou bem…
Eu coloquei a mão na cabeça e olhei para a cidade iluminada. Ai cara… que droga.
― Olha… ― eu disse me sentando mais uma vez com ele. ― Tem muita gente legal nesse mundo, sabe? Você vai encontrar alguém que te faça feliz…
Aí ficamos em silêncio por um tempinho, apenas olhando para o céu estrelado. Sua declaração ficou girando na minha cabeça e me deixando ainda mais confuso.
― Posso te fazer uma pergunta, Lucas? ― Ele quebrou o silêncio.
― Claro… diz aí… ― eu disse.
― Você é feliz?
Ouch… essa pergunta me pegou de surpresa.
― Ah… tá… okay… olha… eu acho que nunca pensei sobre isso, mas… acho que sou sim…
― Mesmo sendo o que nós somos?
― Ah, Mau… sinceramente? Esse é o menor dos meus problemas…
― Como você pode ser tão tranquilo com isso? Ultimamente, eu não consigo pensar em outra coisa…
― Tranquilo? Tá brincando? Eu penso nisso o tempo todo! É só que… eu acho que eu já me aceitei, sabe? Não há nada que eu possa fazer pra mudar o que eu sou. E, se hoje eu me entendo e me aceito, eu devo isso principalmente ao Rafa… ele me ajudou muito… você não tem noção… sério… eu não sei o que eu seria sem ele…
O garoto continuou me ouvindo atentamente.
― É sério… nada parece abalá-lo… sabe? Ele leva tudo de forma tão natural que às vezes eu me sinto normal também… quando estou com ele, eu me esqueço de todos os meus problemas… é como se eles não existissem… eu não sei se ele age dessa forma só pra me deixar feliz ou se ele realmente é assim, mas ele me faz muito bem…
― Nossa… ― ele disse sem saber ao certo o que dizer.
― Pois é…
Continuamos olhando para o céu.
― Você é muito sortudo, Lucas…
― Sortudo? ― Eu perguntei rindo. ― Longe disso… você não faz ideia do que eu tive que passar para estar onde eu estou… meus pais se separaram por minha causa, cara…
― Ah… desculpa, eu…
― Não… relaxa… é só que… hoje está tudo bem, mas… nem sempre foi assim… você viu o que Hermes fez…
― Vi sim…
― E ele é só um dos muitos que existem por aí… ainda dói, sabe?
― Eu posso imaginar…
― É… e eu sei que dói no Rafa também… mas ele não demonstra… por mais extrovertido e tagarela que ele seja, ele guarda muita coisa para si… ainda mais quando minha felicidade está em jogo… eu percebo isso… ele não consegue esconder de mim… só que nunca falamos sobre isso…
― Entendo…
― E é por isso que… sabe? Eu não posso, Mau… desculpa…
― Não! Eu não quero que você se sinta pressionado! Por favor! Eu não quero ser o intrometido na relação de vocês… porque, se tivesse um namorado, a última coisa que eu
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desejaria, seria alguém para atrapalhar a gente… então… eu não quero ser para você o que eu não gostaria que você fosse para mim…
― Entendi… mas, como eu disse… se a ocasião fosse outra… você até que é bem gatinho…
― Ah… ― ele riu tímido com as bochechas vermelhas. ― Obrigado… você também é…
― Valeu… ― eu agradeci. ― Tá… a conversa está muito boa, mas acho que deveríamos voltar para a festa…
― Também acho… o Rafa já deve estar perguntando de você, né?
― É o que vamos descobrir… ― eu disse rindo.
No caminho de volta, fomos conversando.
― Tá melhor? ― Eu perguntei.
― Muito… obrigado por me ouvir…
― Nada… e, qualquer coisa que você quiser conversar, pode me chamar, tá? Qualquer coisa mesmo. Se quiser me ligar no meio da noite pra falar sobre garotos… não pense duas vezes… acho que existem formas piores de acordar… ― eu disse e ele riu.
― Obrigado, Lucas…
― De nada…
Voltamos para o salão e ele disse que ia lá ficar com os amigos dele. Nos despedimos e eu fui procurar o Rafa. Encontrei ele sentado na nossa mesa discutindo com o Igor.
― Tá maluco, Igor? É claro que são implantes, seu idiota!
― Seu cú, Rafa! São naturais! Olha! Não tem nenhuma marquinha!
Quando o Rafa me viu, ele perguntou:
― Eii! Onde você estava?
Eu me sentei na mesa com eles e disse:
― Conversando com um amigo…
― Que amigo? ― Ele perguntou.
― O Maurício…
― Ah… aquele que gosta de…
Eu olhei bravo para o Rafa, tínhamos combinado de guardar segredo sobre o Maurício. Ele não poderia ir falando assim para qualquer um.
― …brigadeiro?
Igor ficou confuso.
― Hã? Quem não gosta de brigadeiro?
― É, esse mesmo… ― eu disse para o Rafa.
― Enfim… ― Rafa disse mudando de assunto. ― Lu! O que você acha dos peitos dessa mina… você acha que são naturais ou que ela botou silicone?
Daí o Rafa me mostrou o celular do Igor, que tinha uma foto de uma moça mostrando os peitos.
― Deus do céu… olha o tamanho dessa coisa… é claro que são implantes… ― eu disse.
― TÁ VENDO? ― O Rafa esfregou na cara do Igor.
― Ah! E o que vocês sabem sobre peitos!? ― Igor reclamou irritado.
― Mais que você, pelo visto… ― O Rafa respondeu. ― Cabaço.
Eu ri dos dois. Não sei porque, mas ver o Rafa agindo assim me dava tesão… chacoalhei a cabeça e tentei afastar os pensamentos sacanas.
― Cadê o Arthur? ― Eu perguntei.
― Foi no banheiro. ― Rafa disse. ― Mas, pela demora, ele não aguentou esperar até chegar em casa…
― E a Sarah, Igor?
― ―
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― Ah… me trocou por um monte de garotas… não é culpa minha que eu não sei dançar Beyonce.
Daí ouvimos o DJ anunciar:
― E AGORA, SERÁ A VALSA DOS FORMANDOS! QUALQUER UM QUE QUISER DANÇAR, ESTÁ CONVIDADO A PARTICIPAR TAMBÉM!
Nessa hora, o Rafa me olhou.
― Nem fodendo, garoto. ― Eu já fui avisando.
Ele se levantou da mesa e veio na minha direção.
― Sai! ― Eu falei. ― Xô!
Aí, quando ele chegou ao meu lado, ele estendeu a mão.
― Vamos dançar?
― O que? Nem fodendo! Isso é ridículo!
― Por favor! ― Ele pediu com carinha de cachorrinho manhoso.
Eu olhei para o Igor e disse:
― Me ajuda!
Ele riu. Daí o Rafa veio no meu ouvido e sussurrou:
― Se você dançar comigo, eu deixo você me comer a noite toda.
Imediatamente, eu me levantei e disse:
― Nossa! A noite está agradável para uma dança, né? Me acompanha?
E assim, nós dois fomos para a pista. A minha sorte era que estava bem lotada, então… nem chamaríamos tanta atenção assim. E também não erámos o único casal de meninos ali… claro que todos os outros eram de zoeira… mas dava uma camuflada na gente.
Começou a tocar uma música lenta e eu e o Rafa começamos a balançar pra lá e pra cá… cara… era uma cena ridícula… eu queria morrer de vergonha. Ele percebeu meu desconforto e perguntou:
― O que foi? Tá com vergonha de mim, agora?
― Tô… ― admiti.
― Pensa na recompensa mais tarde…
― É bom valer muito a pena… ― eu disse tímido olhando para baixo.
― Viemos aqui pra isso, se lembra? É um baile…
― Que seja… ― eu olhei para nossos pés, para ter certeza de que não tropeçaríamos.
― Ei… ― ele me chamou.
Quando eu olhei para ele, ele me roubou um beijinho. Eu fiquei vermelho de vergonha e ri nervosamente.
― Deixa essa música acabar que a gente volta pra mesa, tá bom?
― Obrigado… ― eu agradeci.
― O que você foi falar com o Maurício?
― Ih… por que quer saber? Ficou com ciúmes? ― Eu disse brincando.
Mas ele não riu, ao invés disso, ficou preocupado.
― Acho que fiquei… desculpa… ― ele disse triste e olhou para baixo.
Nessa hora, eu me senti mal.
― Não, Gatinho… eu é que tenho que pedir desculpas… a gente foi só conversar… sobre o Henrique… que é o menino que ele gosta…
― Ah… que legal! E você descobriu alguma coisa sobre o Henrique?
― Descobri que ele é um idiota…
― Jura? ― Ele disse decepcionado.
― É… uma pena…
― ―
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― Talvez sim… talvez não… depois do que conseguimos fazer com o Arthur, eu não duvido de mais nada… se ele caiu, qualquer um cai…
― É… talvez você tenha razão… ― eu concordei.
― Oi, gente! ― Uma voz de garota nos chamou.
Olhei para o lado e Giovanna estava dançando com sua amiga Bruna.
― O que acham de trocarmos de parceiros? ― Ela sugeriu. ― Posso roubar o Luluzinho um pouquinho, Rafa?
― Fica à vontade! ― Ele disse. ― Já me cansei dessa coisa mesmo! ― E ele deu uma piscadinha sexy para mim.
Daí trocamos de parceiros. Eu fiquei dançando com a Giovanna e o Rafa ficou dançando com a amiga dela. Agora que eu estava dançando com uma garota, eu me sentia bem mais confortável.
― Oi… e aí… ― eu disse.
― Oi, Luluzinho!
― Oi!
― Depois podemos conversar um pouquinho? Quero te contar um negócio…
― Vish… é bomba? ― Eu perguntei.
― Das grandes… ― ela confirmou.
― Tá… me encontra daqui… meia hora? Pode ser?
― Claro… aonde?
― Hum… olha… saindo daqui do salão, pelos fundos, tem um campo de futebol…
― Estou ouvindo…
― Me encontra lá na arquibancada…
― Tá…
― Daqui meia horinha… é que eu só preciso falar com uma pessoa antes…
― Tá… tudo bem… daqui meia hora… arquibancada… entendi…
Daí nós continuamos dançando valsa por mais dois minutinhos, até o Rafa me sequestrar novamente.
― Com licença, Gi, mas já estou com saudades do meu amorzinho… você poderia me devolvê-lo?
― Awnt! ― Ela disse e deu um belisco fortíssimo na minha bochecha.
― AUUU! ― Eu gritei.
― COISA FOFA! ― Ela gritou para mim. ― Só não te dou uma mordida porque senão o Rafa vai me bater!
― Vou mesmo, garota! Você já abusou da sorte pedindo uma dança! Se morder meu bebê, vamos sair nos tapas! ― Ele disse brincando.
― AWNT! BEBÊ? MEU DEUS! MORRI! ― Ela disse rindo muito.
Daí ela me soltou e eu voltei a abraçar o Rafa.
― Meia hora! ― Ela disse para mim.
― Tá! ― Eu confirmei.
Daí eu olhei para a cara do Rafa e disse rindo:
― Bebê?
― É sim… meu nenenzinho lindo… ― ele disse, beijou minha bochecha e eu sorri.
Depois disso, voltamos para nossa mesa, onde o Igor estava sozinho assistindo pornografia no celular. Daí eu disse para o Rafa:
― Gatinho… a Gi disse que quer conversar comigo… vou lá falar com ela agora, tá bom?
― Tá… não demora! ― Ele pediu.
― ―
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Eu tinha menos de trinta minutos para encontrar o Arthur. Me apressei e saí por aí procurando-o. Não demorei muito para achá-lo… ele estava em uma mesa com um pessoal do sétimo ano.
― Ei! Arthur! ― Eu bati no seu ombro.
Ele se virou e eu disse:
― Pode vir aqui um pouquinho?
― Aham…
Ele se levantou da mesa e me acompanhou. Nós fomos até a entrada do salão, onde havia menos barulho.
― O que foi? ― Ele perguntou.
― Eu estou indo falar com a Giovanna agora. Você ainda quer que…?
Quando eu disse isso, ele colocou as duas mãos na cabeça e fechou os olhos.
― Ai, porra…
― O que foi? ― Eu perguntei.
― Ah… nada não… é que eu não achei que esse momento fosse chegar tão rápido…
― Do que você está falando?
― Droga, Lu! Estou nervoso…
― Ah, qual é, Arthur… achei que a gente já tinha passado dessa fase!
― Eu sei… eu sei…
― Olha, se você fizer igual fez comigo, está ótimo… tenho certeza de que ela vai gostar!
― Mas essa é a parte fácil… sobre o que vamos conversar? Antes e depois?
― Sei lá… tenta só se abrir pra ela… você viu que não é o fim do mundo…
― Mas, quando a gente se beijou, foi diferente… já erámos amigos! Eu mal tenho intimidade com ela! Ela nem sabe o meu nome! O que eu vou falar?
― Olha… só seja você mesmo! ― Tentei aconselhá-lo.
― Ser eu mesmo? Qual é, Olhos Verdes! Nós dois sabemos que essa é uma péssima ideia!
― Tá! Okay! Okay! Agora eu entendi seu desespero!
― E o que eu devo fazer?
― Não sei… vai pensando em coisas legais pra falar com ela!
― Tipo o que?
― Não sei! Só tenta NÃO falar sobre nerdices! Ou sobre Minecraft! Isso entedia qualquer garota!
― Mas eu vou falar sobre o que, então?
― Olha, eu preciso ir… marcamos de nos encontrar daqui dez minutos…
― ESPERA! ― Ele me segurou pelo braço.
― O que foi?
― Você pode ver se meu hálito está bom? ― Ele pediu.
Eu olhei para os lados, para ver se não tinha ninguém vendo, e me aproximei dele. Ele soltou o hálito na minha cara e eu pude sentir um cheirinho delicioso de menino. Me lembrei do Rafa. Chacoalhei a cabeça e tentei afastar os pensamentos safados.
― Tá ótimo. ― Eu disse.
Quando eu me virei para ir embora, ele me segurou de novo.
― ESPERA!
― O que foi?
― Como estou?
Eu dei uma olhadinha no seu look e ele estava bem gato.
― Espera!
― ―
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Eu disse e desabotoei o botão de cima de sua camisa, para deixá-lo mais sexy.
― Prontinho!
Quando eu me virei para ir embora, ele me segurou de novo.
― ESPERA!
― O que foi?
― Não me deixa aqui sozinho! ― Ele pediu.
― Ah, pelo amor de deus, Arthur! Vira homem! Vai dar tudo certo!
Dei dois tapinhas no seu ombro e disse:
― Quando a hora chegar, eu venho te chamar.
Daí eu o deixei lá e voltei para dentro do salão. Atravessei a festa até chegar na saída dos fundos. Refiz o caminho que tinha feito com o Maurício até chegar no gramado de futebol, passando por aquele ambiente escuro onde havia alguns casais ficando. Avistei Giovanna lá em cima da arquibancada. Escalei os blocos de cimento e finalmente cheguei até ela. Daí me sentei ao seu lado.
― Oi! Cheguei!
― Bem na hora… ― ela disse sorrindo.
Agora estava mais escuro e mais frio que antes. A cidade continuava iluminada pelas luzes douradas e o céu estava mais estrelado que antes. O brilho das estrelas se fundia e se confundia com o brilho da cidade. Giovanna estava encolhida de frio, daí eu retirei meu terno e disse enquanto entregava para ela:
― Aqui!
― Ah, obrigada! Mas você não vai ficar com frio?
― Estou bem. ― Eu disse enquanto desdava o nó da minha gravata, que já estava me enforcando. ― E você? Tá tudo bem?
― Ah… tá sim…
― Então… depois eu tenho que conversar uma coisa com você… ― eu disse enquanto me lembrava do Arthur.
― Ah… o que foi?
― Não! Nada demais… você pode começar primeiro… sobre o que queria falar?
― Ah… é complicado… ― ela disse enquanto mudava sua feição de brincalhona para séria.
― Acho que temos a noite toda…
― Eu gosto muito de você, sabe… Lucas?
― Aham… eu também gosto muito de você, Gi…
― E eu também confio muito em você…
― Estou ouvindo…
― Você sabe que eu sempre te conto tudo, né?
― Aham…
― Pois é… eu acho que estou gostando de alguém…
Nessa hora, eu comecei a rezar para que essa pessoa não fosse eu. Daí ela ficou em silêncio.
― Gi…? ― Eu a chamei.
― Tá… certo… tudo bem… e eu acho que essa pessoa também gosta de mim…
Nessa hora, eu fiquei mais aliviado… pois era sinal de que não era eu. Mas, assim que retomei a calma, pensei no Arthur.
― E por acaso essa pessoa é da sua sala? ― Eu perguntei.
Ela demorou para responder, mas acabou confessando:
― É sim…
― ―
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― E quem é?
Quando eu perguntei, ela começou a rir nervosamente. Daí olhou para mim.
― O que foi? ― Eu perguntei.
― Lucas… eu acho que… olha… desculpa não ter te contado antes, mas… eu gosto de meninas…
Nessa hora, eu fechei os olhos e botei a mão na cara. Puta que pariu! Arthur…
― Espera… então… então… você é lésbica? ― Eu perguntei.
― Sou…
― Uau… mas… e sua amiga? Por que você acha que ela gosta de você?
― Ultimamente temos conversado bastante e… ela confessou pra mim que já tinha ficado com uma garota… e que tinha gostado…
― Não me diga! ― Eu disse ainda pensando no Arthur.
― Aí eu confessei para ela que tinha vontade de ficar com uma menina também… mas não disse que era lésbica… disse apenas que tinha vontade… e, desde então, ela fica me jogando algumas indiretas… eu acho que ela está muito a fim…
― Puta que pariu… ― eu disse tentando processar tudo.
― E… acho que vou pedir pra ficar com ela hoje…
― Hoje? ― Eu disse surpreso.
― É… pretendo procurá-la quando terminarmos aqui… aí queria pedir algum conselho pra você…
― Ai… caralho…
― O que foi?
― Nada! Só estou… digerindo tudo… ― eu disse pensando no Arthur.
― Desculpa não ter te falado antes…
― Ei! Relaxa… eu sei bem como é a sensação…
― Mas e aí… o que você me aconselha?
― Bom… vocês já são amigas, não são?
― Aham…
― Assim fica bem mais fácil… mas o que você quer que eu diga?
― Não sei… como faço pra tocar no assunto com ela?
― Hum… é difícil dizer sem conhecer muito ela, mas… sei lá… inventa uma história de que você tem uma prima que é lésbica… veja como ela reage… e, de acordo com as reações dela, vai desmentindo devagarzinho até ela perceber de que na verdade você está falando sobre você… sei lá…
― Hum… ― ela disse.
― É só uma ideia…
― Não! Eu até que gostei! Vou tentar fazer isso…
― Mas e aí…
― E aí o que?
― Então… você é… lésbica… posso chamar assim?
― Acho que é assim que chamam, não é?
― Tá… tudo bem… você é lésbica… mas… assim… foi por isso que quis ser minha amiga desde o começo?
― Também… mas não só por isso… você pareceu ser um menino legal… diferente da maioria…
― Hum… diferente como? Mais gato? ― Eu perguntei rindo.
― Não… mais veadinho…
― Ei! ― Eu reclamei. ― Não sou veadinho! Sou muito homem!
― ―
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― Ah, Lucas… pelo amor de deus… você fica parecendo uma garotinha quando olha para o Rafa… até eu sou mais homem que você.
― Ei! ― Eu reclamei novamente.
― É sério… mas vocês são muito fofos! São o casal mais lindo que eu conheço!
― Rum! Valeu! ― Eu me fingi de bravo.
― Aí… eu te amo, Lucas! ― Ela disse e me deu um abraço.
― Valeu… eu também me amo! ― Eu disse brincando e retribuí o abraço.
Foi quando vimos uma estrela cadente no céu.
― Olha! Olha! Você viu? Você viu? ― Eu gritei apontando.
― Aham! Uma estrela cadente!
― Vamos fazer um pedido! ― Eu disse e fechei os olhos.
Claro que eu não acreditava nessas coisas, mas mesmo assim eu pensei em alguma coisa para pedir… não me veio nada na mente logo de cara… daí eu pedi para que… para que eu e o Rafa durássemos para sempre…
Quando abri os olhos novamente, eu perguntei:
― E aí… o que pediu?
― Ei! Não podemos contar para ninguém! Senão eles nunca vão se realizar!
Eu sorri e voltei a olhar para o céu.
― Mas e aí… ― ela disse.
― E aí o que? ― Eu perguntei pensativo.
― Sobre o que você queria falar?
― Ah… ― me lembrei do Arthur. ― Não é nada…
― Como nada? Diz aí!
― É que…
Eu disse e fiquei em silêncio.
― É que o que?
― Um amigo meu… olha… eu sei que é muito injusto eu te pedir isso, mas… teria alguma chance de você ficar com um menino hoje?
Quando ela se deu conta da pergunta, olhou para baixo triste.
― Droga, Lucas… não me peça isso, por favor…
― Não! Não vou insistir! É só que… ele é muito importante para mim…
Ela olhou triste para mim e disse:
― Desculpa…
― Não… relaxa… eu nem devia estar te pedindo isso… a única coisa que você tem que fazer é ir falar com a…
― Bruna… ― ela disse.
― É a Bruna? ― Eu disse surpreso.
― É sim…
― Rá! ― Eu disse olhando para o céu. ― Isso é que eu chamo de fofoca bomba! ― Ela riu.
― Estou nervosa…
― Ficaria surpreso se não estivesse… pretende falar com ela agora?
― Aham…
― Posso sugerir um lugar? ― Eu disse.
É claro que esse era o lugar mais perfeito e mágico do mundo… o friozinho… o céu estrelado… a cidade iluminada… a musiquinha de fundo… a grama verde que com a luz do luar ficava prateada… mas eu queria vir com o Rafa aqui… e não seria interessante trazê-lo aqui enquanto a Giovanna ficava com a amiga dela.
― ―
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― Claro… ― ela aceitou.
― Leva ela lá na área da piscina… ― que também parecia ser bem bonita.
― Hum… ótima ideia… ― ela disse se levantando.
― Eita! Mas já vai? Assim, direto?
― Tenho que aproveitar enquanto ainda estou com coragem…
― Hum… ― eu disse enquanto me levantava também. ― Boa sorte, então, amiga…
Eu dei um abraço nela e um beijo em sua bochecha.
― Obrigado, Lucas…
Depois disso, ela devolveu meu terno, eu me arrumei novamente e voltamos para a festa. Quando passamos por aquele caminhozinho escuro, eu vi Maurício ficando com uma menina. Ele estava encostado na parede e ela estava na sua frente. Ele a segurava pela cintura e ela tinha passado os braços em seu pescoço. Os dois estavam ali no escurinho um enfiando a língua na boca do outro. Não sabia se ficava feliz ou triste por ele… o que será que estava se passando pela sua cabeça agora?
Ele, que estava com os olhos fechados, os abriu e olhou bem em minha direção. Ficamos nos encarando por três segundos até ele voltar a fechar os olhos e se concentrar no beijo. Chacoalhei minha cabeça e voltei para festa… para dar a triste notícia para o Arthur.
Dei uma voltinha pelo salão, mas não vi sinal dele… nem do Rafa. Fui até a mesa em que estávamos e só estava o Miguel lá, com a menina que ele estava pegando. Os dois estavam sentados lado a lado e estavam dando aquela namoradinha, se é que você me entende… ele até tinha passado o braço em volta dos ombros dela.
― Oi… gente! ― Eu disse não querendo atrapalhar muito. ― Vocês viram o Arthur?
― Hum… o Arthur? Não… ― Miguel disse. ― Você viu, môr? ― Ele perguntou para a garota, que fez que não com a cabeça.
― E o Rafa?
― Também não…
― Igor? Sarah?
― Também não…
― Tá… valeu! ― Eu disse e voltei a procurá-los.
Resolvi ir procurar no banheiro. Chegando lá, percebi que o banheiro era pequeno. Haviam três boxes, três mictórios, três pias e um espelho bem grande que refletia todo banheiro. Não tinha ninguém aqui e os boxes estavam vazios, exceto o último…
Me aproximei do último boxe e tentei dar uma olhadinha por baixo. Vi um sapato social preto, mas não ajudava muito… eu não saberia diferenciar qual era do Arthur. Daí eu resolvi chamar por ele:
― Arthur?
― AH! NÃO! ― Ele gritou quando me ouviu. ― JÁ!?
Ele destrancou o boxe e saiu fazendo o maior drama do mundo. Quando ele percebeu minha tristeza, perguntou:
― O que foi?
E eu só precisei fazer um sinal de não com a cabeça para ele entender que não ia rolar.
― Tá falando sério? ― Ele perguntou procurando qualquer sinal de insinceridade e de brincadeira no meu gesto, mas ele não encontrou, porque eu não estava brincando.
― Desculpa… ― eu disse triste.
― Ah… porra! ― Ele disse soltando um super suspiro de alívio. ― Puta que pariu! Ah… não acredito! Ah… caralho! ― Ele disse e começou a rir.
― O que foi? ― Eu perguntei.
― ―
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― Nossa… eu nunca me senti tão aliviado na vida! Eu estava quase tendo um ataque do coração… sente aqui!
Ele se aproximou, pegou no meu pulso e botou minha mão em cima do seu coração. Eu pude sentir ele palpitando rapidamente. Daí olhei para o Arthur e nós nos encaramos por um segundo. Me perdi um pouco pensando em como ele estava lindo essa noite. Quando percebemos que a coisa tinha ficado estranha, eu retirei minha mão de seu peito e olhei para o espelho do banheiro.
― O que aconteceu? ― Ele perguntou.
― Podemos ir conversar lá fora? ― Eu sugeri.
― Tá…
Aí foi a vez de levar o Arthur para a arquibancada do campo de futebol. Quando passei pelo caminhozinho escuro, Maurício ainda estava lá aos beijos com a menina.
Escalamos os blocos de concreto até chegarmos ao topo. Daí eu me sentei bem ao seu lado e comecei dizendo:
― Então… eu fui conversar com ela, Arthur…
― E aí?
― E aí que… droga…
― O que foi? ― Ele perguntou.
― Não sei como dizer isso sem te machucar…
Ele me olhou em silêncio.
― É que… eu gosto muito de você e…
― Desembucha, Olhos Verdes…
― É que… ela… ela tá gostando de outra pessoa…
Quando eu disse isso, ele imediatamente olhou para o céu.
― Au… doeu…
― Sinto muito…
― Quem é o cara? ― Ele perguntou.
― Então…
― Então o que? Eu conheço? É da minha sala?
― Arthur, o que eu te disser aqui, você não pode contar pra ninguém…
― O que? Do que você está falando?
― A Gi… ela gosta da… Bruna…
― O QUE? ― Ele gritou decepcionado. ― ELA É GAY? ― Daí ele passou a mão no rosto.
― Olha… eu… eu sinto muito…
― Isso explica muita coisa… ― ele disse.
― Como você está se sentindo? ― Eu perguntei.
― Ah… acho que normal…
― Normal? Não tem como se sentir normal!
― É só que… não sei… acho que isso me conforta um pouco…
― Como assim?
― É que… quando eu levei meu primeiro fora dela, eu acabei… eu acabei enchendo minha cabeça de coisas… sabe? Eu achei que eu fosse o problema…
Eu fiquei em silêncio ouvindo ele desabafar.
― Mas… agora… agora que eu sei que o problema não sou eu… isso me conforta bastante…
― Ah… que bom, Arthur… mas eu sempre tentei te dizer isso…
― É… acho que agora eu entendo…
― ―
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Ele respirou fundo, se reclinou para trás se apoiando com as mãos e continuou encarando o céu. Eu também olhei para cima e fiquei admirando a noite. De fato, era uma noite muito bonita. Foi quando outra estrela cadente passou.
― Olha! Você viu? ― Eu perguntei animado. ― Uma estrela cadente!
― Vi sim… ― ele disse.
― Acho que esse lugar é mágico! É a segunda que eu vejo hoje!
― É a segunda de muitas… ― ele disse.
Olhei para ele sem entender.
― Não é o lugar que é mágico, Olhos Verdes… é a data…
Foi quando eu avistei outra estrela cadente cruzar o céu como uma bala.
― OLHA! OUTRA! VOCÊ VIU? ― Eu exclamei.
― Vi… é isso que chamam de chuva de meteoros. Eu até tinha me esquecido de que aconteceria hoje… é uma Geminidas…
Eu não fazia ideia do que isso significava, mas fiquei completamente encantado com os meteoros no céu. Ficamos em silêncio por um minuto, até o Arthur abaixar a cabeça e começar a chorar.
Partiu meu coração vê-lo nessa situação… eu queria muito poder fazer alguma coisa por ele… mas não havia nada ao meu alcance.
― Arthur… chora não… ― eu tentei falar, mas isso só intensificou mais o choro dele.
E ele veio me dar um abraço.
― Eu gostava tanto dela… ― ele disse entre gemidos e soluços.
Eu não esperava que ele fosse procurar contato humano como consolo. Mas ele, que estava sentado ao meu lado, passou os braços em volta da minha cintura e envolveu meu corpo, procurando aconchego e conforto. Ele afundou a cara no meu colo e desabou a chorar.
― POR QUE!?!? ― Ele gritou.
― Arthur… ― eu tentei acalmá-lo passando a mão em seus cabelos.
― POR QUE!? SÓ ME DIZ POR QUE!!! EU GOSTAVA TANTO DELA!!!
― Fica assim não…
Vê-lo chorar partiu meu coração. Só fiquei mais triste do que já estava. Comecei a imaginar como seria minha vida se meu amor não fosse correspondido… daí comecei a chorar também…
Eu estava com muita dó do Arthur… ele era a última pessoa no mundo que merecia passar por isso… ele era o garoto mais doce e inocente que eu conhecia. Esse garoto merecia ser feliz mais do que qualquer pessoa…
Comecei a chorar e minhas lágrimas foram caindo na cabeça dele. Ele olhou para mim e perguntou:
― Por que você está chorando?
― Não sei… acho que é porque você está triste…
Ele voltou a afundar a cabeça no meu colo e chorou mais ainda. Nessa hora, ouvi alguém se aproximar. Olhei para o lado e era o Rafa. Ele estava parado em pé nós olhando a alguns metros daqui. Daí ele mexeu a boca perguntando:
― Tá tudo bem?
Eu fiz que não com a cabeça. Aí ele apontou o dedo para si e depois para a gente, num sinal que significava:
― É pra eu ir aí?
Novamente, eu fiz que não com a cabeça. Aí ele virou as costas e foi embora. Continuei ali com o Arthur por pelo menos mais meia hora. Fiquei fazendo um carinho nos seus cabelinhos
― ―
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finos até ele se acalmar e parar de chorar. Quando ele parou, ele não me soltou… continuou me abraçando.
― Tá mais calmo? ― Eu perguntei.
Ele fez que sim com a cabeça. Seus olhos estavam inchados, molhados e vermelhos.
― Fica triste não… se você fica assim, eu também fico…
Ele fez que sim com a cabeça novamente.
― Eu sinto muito pela Gi…
― Valeu… ― ele disse.
― Eu gostaria de poder fazer alguma coisa…
― Você já fez… mais até do que devia…
― É… acho que sim…
― Obrigado… por ter tanta paciência comigo… ― ele agradeceu.
Me cortou o coração vê-lo assim. Aí ele finalmente criou coragem para se levantar.
― Vamos entrar? ― Eu sugeri. ― Senão vamos acabar pegando um resfriado… está muito frio.
― Tá… pode ser… ― ele concordou limpando o nariz.
Nós dois nos levantamos e voltamos para a festa em silêncio. Os casais do lugarzinho escuro já tinham sido substituídos por outros, mas haviam algumas pessoas ali que eu podia jurar ter visto beijando outras mais cedo.
Como eu precisava muito conversar com o Rafa, eu tive que abandonar Arthur por um tempo. Para minha sorte, ele disse que ia embora da festa, já que sua noite estava arruinada. Eu perguntei umas quinhentas vezes se ele ia ficar bem e ele disse que sim. Daí ele disse que ia ligar para sua mãe e nós nos despedimos. Aí eu fui atrás do Rafa.
Encontrei ele lá na nossa mesa segurando vela para o Igor e Sarah.
― Oi, gente… ― eu os cumprimentei.
― Oi, Lucas! ― Igor e Sarah disseram ao mesmo tempo.
― Poxa! Você disse que ia ser rápido! ― Rafa reclamou. ― Tô te esperando faz uma hora e meia!
― Desculpa… ― eu disse sem graça. ― Podemos conversar?
― Claro! ― Ele disse enquanto se levantava da mesa.
Ele se aproximou de mim e eu disse:
― Quer ir ficar comigo lá fora?
― Tá… pode ser… ― ele concordou.
Sim… acredite ou não, voltei lá para o campo de futebol… só que dessa vez com o Rafa. Fomos andando de mãos dadas até lá. Já eram quase duas da manhã. Subimos até o topo da arquibancada e caminhamos até o final dela, o mais afastado possível de tudo e de todos. Aí nos sentamos lado a lado, quase que colados.
― Bora ficar? ― Eu pedi.
― Uhum… ― ele concordou.
Daí nós nos abraçamos e começamos a beijar na boca. Nossa, tinha sido uma noite e tanto… eu acho que estava até com um pouco de dor de cabeça… de tanta coisa que tinha sentido hoje… só o Rafa mesmo para me acalmar desse jeito.
Ficamos nos beijando ali sozinhos por quase quinze minutos. Até finalmente desgrudarmos nossas bocas.
― Te amo, Gatinho… ― eu disse enquanto enfiava as mãos dentro do seu paletó, para me esquentar.
― Também te amo… ― ele disse enquanto beijava minha cabeça. ― Como foi sua noite, meu amor?
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― Um desastre… ― eu disse triste. ― Não sei nem por onde começar… AH! JÁ SEI! ― Eu exclamei. ― Olha! Olha para o céu!
Ele, sem entender muito bem, olhou para cima junto comigo e depois voltou a olhar para mim.
― Tá lindo, né?
― Espera! Fica olhando!
Daí nós ficamos olhando para o céu por uns trinta segundos.
― O que foi? ― Ele perguntou confuso.
― Só olha!
― Por que?
― Só olha!
Daí um meteorozinho cruzou o céu rapidamente deixando um rastro branco, brilhante e intenso.
― UAU! ― Ele exclamou. ― Uma estrela cadente! Como sabia que isso ia acontecer? ― Ele perguntou.
― Hoje está acontecendo uma chuva de meteoros… aquilo era um meteoro…
― Nossa! Eu nunca tinha visto um antes! ― Ele exclamou. ― É lindo!
― É sim… e você tem que fazer um pedido!
Daí ele me olhou.
― Pedido? O que posso pedir? Já tenho tudo que desejo bem aqui na minha frente!
― Cala essa boca! ― Eu disse. ― Eu já pedi amor! Agora é a sua vez! Trate de pedir dinheiro!
Ele riu. Era tão bom vê-lo sorrindo. Mas, infelizmente, agora era a hora conversarmos sério. Eu devia isso a ele.
― Rafa… ― eu comecei.
― Oi, meu amor?
― Primeiro… desculpa por hoje… não fica bravo comigo não, por favor…
― O que? Eu jamais ficaria bravo com você, meu Gatinho!
― Eu sei… eu sei… é que… eu sabia o quanto esse baile era importante pra você e o quanto você queria ter tido uma noite mágico junto comigo… me desculpa por sumir assim… não passamos nem dez por cento da festa juntos…
― Oh meu deus… não tem problema não, meu amor… ― ele disse me dando um beijo na bochecha. ― Não precisa nem se desculpar… eu vi que você estava com o Arthur e que ele estava mal… o que houve com ele?
― Giovanna… não deu certo dela ficar com ele…
― Por que?
― Porque, neste exato momento, ela deve estar enfiando a língua na boca de uma garota.
― É O QUE? ― Ele exclamou.
― Sim… só não conta pra mais ninguém… mas ela é lésbica…
― Você sabia?
― Descobri isso hoje…
― Caralho… tadinho do Arthur… contou pra ele?
― Contei sim… você viu no que deu…
― Tadinho… como ele deve estar agora?
― Ele foi embora… tadinho… tava arrasado…
― Caralho… ― Rafa disse passando a mão nos cabelos. ― A Gi… caralho… eu não esperava isso dela…
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― Né?
― Nossa… meu deus… ainda estou tentando processar… ― ele disse rindo.
― Pois é… e, Rafa… ― eu disse tímido.
― O que?
― O Maurício…
Mas eu não tive forças para completar a sentença. As palavras insistiam em não sair da minha boca.
― O que tem ele?
Eu não sabia se falava ou não… daí eu me lembrei do Matheus… foi me dando um aperto no peito e eu comecei a me sentir sufocado. Daí meus olhos se encheram d’água e eu comecei a chorar.
― O que? O que foi, meu amor? Por que você tá chorando? ― Ele perguntou enquanto me abraçava e me trazia para perto de si.
― O Maurício… Rafa… ― eu tentei dizer enquanto chorava. ― O Maurício… ele… ele se declarou para mim hoje…
Nessa hora, ele ficou em silêncio e me abraçou com mais força.
― Ele… ele disse que gostava de mim… Rafa…
― Ei… tenta se acalmar… ― ele disse. ― Por que você tá chorando?
Na verdade, eu estava chorando por causa do Matheus. Eu tinha que falar isso pra ele… já estava me corroendo por dentro.
― Ele… ele disse que gostava de mim…
― Ei… para de chorar, por favor… senão eu vou chorar também…
Tentei me acalmar e limpei minhas lágrimas.
― Respira. ― Ele disse.
Eu respirei fundo algumas vezes, dei mais algumas fraquejadas, mas consegui me recompor mais ou menos.
― Rafa… ele disse que gostava de mim… é que… desculpa… foi muito forte pra mim… eu sabia exatamente o que ele estava sentindo, porque eu já tinha sentido aquilo um dia… quando eu gostava de você e você nem desconfiava… eu já estive no lugar dele e sei como é difícil…
― Eu também entendo… nós dois já passamos por isso… mas… ― ele disse e me olhou preocupado. ― Mas… vocês… chegaram a ficar?
― O que? Não! Claro que não!
― Ah… tá… entendi… ― ele disse um pouco mais aliviado.
― Quer dizer… eu não fiquei com o Maurício… ― eu disse com os olhos cheios de água novamente.
Quando eu disse isso, eu percebi que ele ficou muito sem graça.
― Rafa… ― eu o chamei.
― Oi, meu amor?
― Quantas pessoas você já beijou?
― Hã? ― Ele perguntou confuso. ― Por que você quer saber disso?
― Porque sim…
― Olha… sinceramente? Se você estiver preocupado, saiba que, depois que começamos a namorar, eu não beijei ninguém… só minha mãe… e o Arthur, aquela vez…
― Não foi essa minha pergunta!
― Mas eu não entendi por que que você quer saber isso agora, assim, do nada! Eu não respondi sua pergunta porque a resposta só vai te machucar! Você foi o primeiro menino que
― ―
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eu beijei! Isso que importa! Antes de você, só fiquei com meninas pelas quais eu não sentia absolutamente nada.
― Quantas?
― Porra, Lu! Vinte e quatro.
― Vinte e quatro!? ― Eu exclamei.
― Não disse que ia te machucar?
― Não machucou!
― Agora vai me dizer por que quer saber sobre isso?
Eu fiquei em silêncio. Eu estava nervoso. Eu não sabia qual seria a reação do Rafa.
― Rafa… ― eu disse e peguei na mão dele. ― Você tem o direito de ficar o quão bravo quiser… tudo bem? ― Ele não respondeu, apenas me olhou em silêncio, tentando entender. ― Eu cometi um erro… e eu estou muito arrependido…
― Ah… ― ele suspirou. ― Menino ou menina?
Nessa hora, meu coração doeu. Será que ele tinha me entendido tão rápido assim?
― Menino…
Na mesma hora, ele se levantou e botou as duas mãos na cabeça.
― Eu conheço?
― Conhece.
― É da nossa sala?
― O que? Não!
― Não é da nossa sala?
― Não! Claro que não! É o Matheus.
― Que Matheus? Do sétimo?
― Não, Rafa! O Matheus! Da minha rua!
― Hã? Quem?
― O Matheus! Matheus! Da minha rua!
― O pirralho?
― É!
― Espera! Você ficou com aquele pirralhinho? ― Ele disse com um tom de deboche.
Nessa hora, confesso que fiquei muito mais aliviado.
― Fiquei.
― Por que? ― Ele disse indignado.
― Eu… eu não sei… eu só… eu só perdi o controle!
― Mas quantos anos ele tem? Seis?
― Oito! Quase nove!
― E quando foi isso?
― A primeira vez foi…
― A primeira!? ― Ele exclamou preocupado. ― A primeira de quantas?
― Espera! Só me escuta, por favor! Senta! Você tá me deixando nervoso andando de um lado pro outro! Senta aqui!
Ele se sentou e olhou para mim.
― Então… olha… se eu não me engano, na mesma semana em que a gente começou a namorar, ele foi lá em casa…
― Na mesma semana que começamos a namorar? É sério isso, Lucas?
― Escuta! Não! Eu não fiquei com ele esse dia! Acontece que, o garoto estava curioso… e ele veio com aquele monte de perguntas… “Lucas, o que é masturbação? ”…
Quando eu disse isso, o Rafa ficou ainda mais muito confuso. Ele não estava entendendo absolutamente nada.
― ―
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― Aí ele ficou me enchendo o saco… aí eu ensinei…
― HAHAHA! ― Ele começou a rir. ― Porra, Lucas! Caralho! Assim você me mata do coração… eu estava acreditando, seu bobo! ― Ele disse rindo.
― Rafa! Para! Não estou brincando!
― Para de zoar! ― Ele disse começando a esboçar uma feição de preocupado.
― É sério… não estou zoando… ― eu disse olhando para baixo.
― Isso é sério? ― Ele perguntou preocupado.
― É! É claro que é! ― Eu não sabia mais o que fazer para que ele acreditasse.
― Lucas! Para de brincar! Isso é sério?
― É! Eu juro!
― Ouh… mas… é… mas… hã?
― Aí ele ficou me enchendo o saco… e eu tive que ensinar…
― Espera… deixa eu ver se entendi… você ensinou um menino de seis anos a bater punheta?
― Não! Claro que não! Tá… ensinei! Mas ele tem oito! Quase nove!
Aí ele ficou olhando para o horizonte, enquanto tentava entender.
― Tá… que seja… mas foi só isso?
― Foi… quer dizer… não… o garoto não sabia fazer direito, Rafa…
Nessa hora, ele começou a rir e botou as duas mãos na cara.
― Você masturbou um garoto de seis anos, Lucas?
― Ele tem oito, porra! E não! Eu não masturbei ele!
― Ué…
― Foi só uma chupadinha…
― VOCÊ CHUPOU UM GAROTO DE SEIS ANOS, LUCAS!? ― Ele gritou rindo.
― Shhhh! Cala sua boca, seu idiota! ― Eu disse batendo no braço dele e olhando em volta para ver se não tinha ninguém nos espionando. ― E ele tem oito!
― Eu não acredito… ― o Rafa disse rindo. ― Quanto de pau esse garoto tem?
― Ah… sei lá…
Aí eu mostrei meu polegar para ele, mostrando que o pintinho do Matheus era daquele tamanho. Ele colocou a mão na boca indignado.
― Lucas, sua safada! Mas ele gozou? Saiu porra?
― Não… não saiu nada… ele não tem idade…
― Eu ainda não acredito que você pagou um boquete para um garoto de seis anos…
― Aff… oito! Vê se cresce…
Daí continuamos olhando para o horizonte em silêncio.
― Ele é um garoto de sorte… descobriu a punheta com oito anos e, já na sua primeira vez, recebeu um boquete… e foi um boquete seu ainda!
― Larga mão de ser besta! Por que? Você descobriu com quantos anos?
― Com dez! ― Ele admitiu. ― E boquete, até hoje, eu só experimentei o seu.
Não sei porque, mas fiquei feliz ao saber que tinha descoberto antes dele. Pela primeira vez, eu me senti mais transão que ele.
― Eu descobri com nove… rá! ― Eu disse e ele riu.
― Continua! Sua história estava boa! ― Ele pediu.
Cara… como assim minha história estava boa? Esse garoto era um retardado pervertido! Eu estava contando que tinha chupado outro garoto e ele estava se divertindo com isso.
― Tá… aí eu chupei ele e… ele gostou bastante, mas não repetimos a dose… eu fiquei muito arrependido…
― Ele te chupou também?
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― Não! Rafa, ele só tem seis anos!
― Oito! ― Ele me corrigiu.
― AFF! ― Eu reclamei revoltado. ― Enfim! Ele só tem oito anos! Não pedi para que ele me chupasse, porque ele ainda tem nojinho e eu não sei nem se ele curte…
― Hum… e aí?
― E aí que ficou nisso… não fizemos mais nada esse dia… mas, logo depois que eu fiz isso, eu fiquei muito arrependido! E eu fiquei com medo de te contar…
Ele me olhou em silêncio.
― Depois disso, acho que ele gamou em mim… no dia do meu aniversário, se lembra? Que você me deu o Teddy? Ele tava completamente tomado de ciúmes… naquele dia, ele me roubou um selinho…
― Um selinho?
― Sim… aí ele foi o segundo menino que eu beijei.
― Espera… tá contando selinho?
― Claro!
― Ah… então… ― ele olhou para cima e ficou um tempinho pensando. ― Trinta e seis…
― TRINTA E SEIS? ― Eu exclamei. ― Eu acho que eu nem conheço trinta e seis garotas!
Ele riu.
― Mas, enfim… e a terceira e última vez… foi quando a gente brigou… que meu pai me fez cortar o cabelo… meus pais estavam brigando em casa e eu queria sair dali… daí fui para a casa dele… quando cheguei lá, ele foi muito fofo dizendo que eu tinha ficado bonito careca… aí eu meio que perdi o controle e dei um beijo nele… mas eu estava sobre muito stress, sabe? E eu estava com raiva de você… foi depois daquele dia que você apareceu lá em casa sem avisar… aí queria fazer alguma coisa pra te machucar e acabei fazendo essa besteira… me desculpa por isso, por favor…
― Foi isso?
― Foi.
― Se foi só isso, por que não me contou?
― Não sei… me perdoa, Gatinho…
― Tá perdoado, meu amor… eu ainda adorei sua história… devia virar escritor!
― Não, Rafa… tô falando sério… é hora de se abrir aqui! Para de ficar guardando as coisas para si! Eu preciso saber o que você está pensando! Se você ficou magoado! Por favor! Se abra comigo! Por favor!
― Ei! Calma! Tá bom! Calma! Relaxa… relaxa…
― Se abra comigo, por favor! Era pra você estar bravo! Não quero que você guarde mágoas! Essa sua paciência me deixa nervoso!
― Já disse que estou bem! Olha só… escuta! Quer saber quando eu fiquei com ciúmes?
― Quando? ― Eu perguntei aliviado por ele estar conversando comigo.
― Quando você sumiu com o Maurício.
Fiquei aliviado quando ele admitiu e botou pra fora.
― Por que ele em específico?
― Não… não é ele em específico… é só que… ele tem maldade no coração… diferente do Arthur…
― Maldade no coração?
― É… foi inocente o que fizemos com o Arthur, você não acha?
― Não teve nada de inocente ali, Rafa…
― Não! Você não entendeu… Arthur é nosso amigo… ele não é uma ameaça pra gente… não fico preocupado quando você está sozinho com ele, porque confio nele… confio em vocês
― ―
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dois… e, mesmo se vocês ficassem, eu não ia me importar… olha para o Arthur! Desculpa, mas ele é muito inocente!
― Tá… acho que agora entendi…
― Maurício não… agora eu vejo ele como um concorrente… e eu sinto que ele me vê assim também, sabe? Ele não me vê como um amigo… isso faz com que eu não confie nele. Não sei… só não fui muito com a cara dele…
― Ele é de boa…
― Pode ser que seja… mas inocente ele não é.
― Tá… nisso eu tenho que concordar.
― Aquele garoto sabe o que faz…
― Não sei… ― eu disse por fim.
― Quer conversar sobre mais alguma coisa? ― Ele perguntou.
― Não… acho que é isso… estamos bem?
― Eu é que te pergunto… estamos bem?
― Acho que sim… obrigado, Rafa… ― eu disse dando um abraço nele. ― Obrigado por me ouvir e me perdoar. Nunca mais vou fazer isso.
― Relaxa… eu sei… só tenta não esconder mais nada… estamos passando por isso juntos, se lembra?
― Aham…
― E não é nem por mim… é por você também… como se sente agora?
― Muito melhor!
― Então…
― Você é a melhor pessoa do mundo, Rafa… ― eu disse apertando seu corpo. ― Não desiste de mim… por favor!
― Nunquinha! Nem se você quisesse! ― Ele disse e beijou minha cabeça.
Nossa… foi como tirar um elefante das costas… eu me sentia bem mais leve e feliz.
― Mas, Lucas… posso te falar uma coisa? Como amigo?
― Fala…
― Promete que não vai ficar chateado ou bravo?
― O que? Claro… diz aí…
― Cuidado, tá…
― Desculpa, Rafa… vou ter mais cuidado sim…
― Não! Não é disso que tô falando… é sobre o Matheus…
― O que tem ele?
― Eu estava brincando até agora pouco, mas… você não acha ele ainda muito pequeno para essas coisas?
― Ah… tá… isso…
― Não sei, posso estar errado… é que depende muito da pessoa… mas oito anos…
― Concordo… ― eu disse. ― Ele é muito pequeno… não vai se repetir…
― Não… só tô dizendo… não leva para o lado pessoal não…
― Não, que isso, relaxa…
― Ah… era só isso mesmo…
Ele segurou minha mão e nós ficamos em silêncio por alguns segundos.
― Quer brincar? ― Ele perguntou.
― De que?
― Tá com você!
― ―
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Ele me relou e saiu correndo, enquanto descia pulando os blocos de concreto da arquibancada até chegar no chão. Eu saí correndo atrás dele e nós dois começamos a brincar de pega-pega no campo.
Quando estava com ele, eu saí correndo com todas as minhas energias, mas ele era mais rápido. Aí ele me segurou pelo braço e nós dois caímos na grama. Fomos rolando abraços por alguns metros, até finalmente pararmos. Ele ficou por cima e me segurou pelos pulsos. E cá estávamos nós… no gramado prateado tendo como testemunha do nosso amor uma chuva de meteoros…
― Te peguei. ― Ele disse olhando nos meus olhos.
― Ui… fui pego. E agora?
― E agora? ― Ele perguntou e deu um beijo no meu pescoço. ― E agora que você nunca mais vai sair daqui!
― Acho que posso viver com isso… ― eu disse rindo.
― Aquela sua história… me deixou excitado… ― ele confessou.
― Ah… deixou, é? Eu percebi. ― Eu disse enquanto sentia uma coisinha dura entre nossos corpos.
― O que acha de fazermos aqui?
― O que? Aqui? Agora? No gramado? Ao ar livre? Com a escola toda no salão ao lado?
― É sim…
― Você é um safado pervertido!
― Eu sei… topa?
― Ai, Gatinho… está muito frio aqui!
― Eu fico por baixo, se quiser! E eu não vou deixar você passar frio! Vou te esquentar até você começar a suar!
― Olha… por que não vamos para um lugar mais confortável?
― Quer ir embora, então?
― Para sua casa?
― Pro meu quarto. Pra minha cama. Pra onde você quiser!
― Você está me devendo uma coisa… se lembra?
― Por causa do seu bumbum?
― Não… por causa da dança! Mas agora que você falou… tem a do bumbum também!
― Droga… é mesmo… mas um Mackenzie sempre paga suas dívidas…
― Já ouvi isso em algum lugar…
― Não me diga!
― É…
― Então podemos ir?
― Claro…
― Vou ligar para meu pai… ― ele disse enquanto se levantava.
Daí ele estendeu a mão para mim e me ajudou a levantar também.
― E eu preciso ir ali buscar minha mochila. ― Eu disse.
― Então bora…
E assim, voltamos para o salão. O Rafa ficou lá fora ligando para seu pai enquanto eu entrei para buscar minha mochila. Ainda haviam muitas pessoas aqui na festa, embora fossem quase três horas da manhã. Só que agora só tinha sobrado a galera mais velha, do oitavo e do nono ano. A festa tinha se transformado. O DJ estava tocando uns funks meio pesados e a galera estava toda na pista se acabando de dançar e descendo até o chão. Uma dessas pessoas que estava se acabando ali era Giovanna… ela estava dançando num esfrega-esfrega violento com a sua amiga Bruna… essas duas aí deviam estar só no pó da rabiola de tanto tesão.
― ―
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Fui procurar a mochila que eu tinha trazido e, quando cheguei na nossa mesa, encontrei Arthur. Ele estava sem o paletó do terno e sua camisa social estava com as mangas arriadas e com os três primeiros botões soltos, deixando uma parte de seu peito à mostra. Seu cabelo estava todo bagunçado e ele não parecia bem.
― Ué, Arthur… pensei que você tivesse ido embora… ― eu disse.
Mas ele pareceu não entender absolutamente nada do que eu estava falando.
― Queeeeeeim… estááá… aí? ― Ele perguntou com dificuldades. Ele parecia estar tonto.
― Arthur? Você tá bem?
― Olhos Verdes? Olhos! OLHOS! ― Ele gritou. ― Ve-verdes… coomuh a… comuh a noiteeee… soh qui ah noite é preeta… preeta, escuuuura e sooomBRIA… comuh a vida… qui eh triste…
Fui até onde ele estava e havia uma garrafa de vodka vazia no chão ao seu lado.
― Deus do céu, Arthur… você bebeu?
Eu não fazia ideia do que fazer…

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16 Comentários

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  • Responder Rafa ID:g61w3brm4

    Vamos ADM libera aí hahahha,eu não estou aguentando!

  • Responder Greenbox amigobc ID:dloya5u42

    Aí seila claro você quem nada só passar como falo com você kkkkk

    • Seila ID:e243s2gzj

      estou sempre disponivel para quem quiser conversar no aplicativo wickr me. o meu nome la é raikoua1

  • Responder Greenbox amigobc ID:dloya5u42

    Meus amigos o conto 48 O menino dos olhos verdes vai sair em duas partes por ser muito grande. Desculpa a gora que eu vi eu postei de novo as 21 hora de hoje

  • Responder Greenbox amigobc ID:dloya5u42

    Meus caros leitores já postei capítulo 48

    • Seila ID:e243s2gzj

      por mim ja postaria todos os capitulos que faltam kkk, mas depois eu iria me arrepender de ler todos de uma vez e eu ficaria com um vazio depois dessa grande obra. um abraço para vc amigo, espero que possamos conversar qualquer dia

    • Rafa ID:g61w3brm4

      Aeee muito obrigado amigo!

  • Responder tesão gay ID:3ij0y0lim9a

    estou bebado sei que vou me arrepender de falar isto depois, mas foda-se vou falar. queria muito que minha historia de amor fosse assim, embora ainda não sei o final da historia, sou gay, tenho 43 anos e nunca sai do armario, nunca tive coragem, por morar em uma famila homofobica, minha mãe tenho certeza 100% que aceitaria, hoje passo a figura de um machão mas por dentro, o que eu sinto aqui dentro é muito peso para carregar, não sou uma pessoa feliz, tento ser e passo a imagem disto, as vezes penso me descarregar e que se foda, mas me falta coragem, meu conselho para os molecadas e meninas tambem, tenham coragem, não seja eu, façam e enquanto podem, me desculpem, só estou desabafando, queria ter um amigo firmeza para falar cara a cara, mas não tenho, só tenho voces, amigos que não conheço e não não vão me julgar, a vida pode ser feliz num simples sorriso mas esconde a tristeza por dentro.

  • Responder Legolas ID:bf9sybyb0j

    quero muito o trisal com matheus e outro com arthur kk

  • Responder legolas ID:bf9sybyb0j

    Seila eu estou tentando te achar naquele app e n conseguir meu nome la é vicotrrr, me chama pf

  • Responder greenbox amigobc ID:dloya5u42

    é meus amigos as fazes olhamos para nossos filhos e semtimos que esta tudo bem com eles e tudo mais isso serve de exemplo para nos cuidarmos um pouco mais de nossos filhos se nos olharmos as estatistica de suicidio por crianças como homossexual este conto serve para nos como exemplo termos a mente aberta em pro de uma sociedade menos caotica nenm todos gostão de vermelho como impõe a sociedade eu gosto da azul e ai como fica

    • Rafa ID:g61w3brm4

      Quando sairá o próximo?

  • Responder Tesão gay ID:3ij0y0lim9a

    Muito bom esse capítulo, foi muito revelador, tudo estava complicado no início da historia parecendo não ter solução, mas devagar tudo vai se encaixando fazendo as coisas darem certo, assim é a vida na sua realidade, aguardo ansioso pelo próximo capítulo….valeuuuuuu greenbox amigo bc

    • Greenbox amigobc ID:dloya5u42

      Obrigado um abraço

  • Responder Keno ID:1dawlywqrc

    Mais 1 capítulo concluído, me acabei de chorar tanto de felicidades como de tristeza por conta do pequeno Arthur não ter ficado com a menina que ele mais gostava, e de felicidade por conta de finalmente o olhos verdês ter falado sobre ele e Mateus tem também entendi pque rafa ( gatinho) ter compreendido nosso olhos verdes estou ansioso para o próximo capítulo espero que Arthur não deixe nosso olhos verdes passar vergonha ainda mais no fim desse capítulo por ele ter bebido e estar todo desengonçado e espero que rafa e Lucas leve para casa o Mateus espero muito o próximo capítulo mesmo que demorei um pouco estou salvando esse capítulo para sempre poder ler e sentir o que sinto cada vez que eu ler

  • Responder Rluv ID:7xbyrj5vv2

    Mais capítulo concluído, que história boa. Finalmente o Lucas se abriu com o Rafa e contou tudo, o Rafa é sensacional. Tadinho do Arthur, talvez seja a hora dele perceber o que ele tá perdendo com os meninos.