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O menino dos olhos verdes 39 & 40

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Episódio 39 ― Abandono | Episódio 40 ― Mãos Dadas

Ele pediu para trancarmos tudo. Pode me ajudar? ― Pediu Gabriel.
O sol já tinha se posto há algum tempo. Só a luz do final do crepúsculo ainda se ousava a iluminar o céu. Estávamos fechando toda a chácara e nos arrumando para irmos embora. Agora era aquela hora em que tudo ficava constrangedor…
― Ah cara… não… não… não poderíamos ter dormido! ― Rafa disse ansioso enquanto andava de um lado para o outro.
― Ah… não tem problema… ― Tentei confortá-lo.
― Claro que tem! Nós prometemos que te levaríamos para casa antes das seis e meia! ― Ele disse nervoso. ― Isso é culpa do Gabriel!
― Rafa, relaxa, não é culpa de ninguém… eu invento uma desculpa… ― Eu disse.
Para falar a verdade, eu estava mais nervoso que ele… mas, para não deixá-lo mais desesperado do que ele já estava, eu tentei manter a calma. Esse foi um dos momentos em que eu menti muito só pelo bem dele. A maldita “amiga” de Gabriel não terminava nunca de se arrumar. Ela havia entrado no banheiro já faziam uns dez minutos.
― O que há de errado com mulheres? Essa menina não sai da porcaria desse banheiro! ― Rafa reclamou.
― Calma, Rafa… ela só está se arrumando… ― Tentei confortá-lo novamente, mesmo estando tão irritado quanto.
― Porra, Rafael! ― Gabriel gritou lá de dentro do quarto. ― Você pegou meu KY de novo?
Nessa hora me deu uma vergonha alheia e um desconforto imenso. Como eles podiam conversar sobre isso abertamente?
― Foi o Lucas quem pediu! ― Rafa respondeu gritando.
Nessa hora, eu não sabia onde enfiar a cara, além de mentiroso, ele ainda tinha me difamado! Se eu pudesse voltar no tempo, nunca deixaria o Rafa abrir aquela mochila… o prazer que havíamos tido com esse negócio não valia a pena perto da vergonha que eu estava passando agora…
Finalmente a moça saiu de dentro da porra do banheiro.
― Podemos ir? ― Gabriel perguntou.
― Ah, espera, esqueci uma coisa… ― Ela disse e voltou a entrar no banheiro.
― Aaaaa… ― Rafa suspirou irritado.
― Calma, Rafa… calma… ― Eu disse.
― Tô calmo! ― Ele disse irritado.
Por fim, fechamos toda a chácara, montamos no carro e fomos embora.
No carro, o silêncio constrangedor voltou a tomar conta do ambiente. Olhei para fora, pela janela, e depois olhei para dentro. Olhei para Juliana e ela estava mexendo no celular… era insana a velocidade com que ela digitava em seu celular de capinha cor de rosa. Ela estava no banco do carona, agora, e o Rafa estava atrás comigo.
O Rafa estava olhando a escuridão pela janela… ele estava distraído… tentei imaginar o que se passava naquela cabecinha… pensei um pouco sobre o que Gabriel me falara anteriormente, sobre o Rafa se sentir culpado pelas coisas que aconteceram comigo. Tadinho, ele devia estar se culpando por termos perdido a hora…
Acho que sua cabecinha de doze anos não conseguia processar tantos problemas… ele provavelmente estaria se remoendo por dentro por não conseguir lidar com tantas causas e consequências.
― ―
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Ele percebeu que eu estava olhando para ele e daí ele olhou para mim, soltando um fraco sorrisinho.
― Você está bem? ― Ele me perguntou preocupado.
― Sim, por que? ― Perguntei.
― Nada… ― ele respondeu.
O silêncio voltou a reinar no carro, e só ouvíamos o barulhinho das unhas bem-feitas de Juliana batendo contra a película do iPhone.
― Eu vou deixar a Juliana primeiro, pode ser, Lucas? ― Gabriel perguntou.
― Pode… ― respondi.
― Não. ― Rafa respondeu e olhou para mim.
― Não tem problema, Rafa… ― eu tentei confortá-lo. ― Pode deixar ela sim, Gabriel. ― Rafa fez uma cara de preocupado e voltou a olhar para fora do carro.
Gabriel chegou na casa de Juliana e parou o carro.
― Bom, tá entregue, Ju… ― Ele disse gentilmente.
― Aííí… ― Ela disse. ― Obrigadinha!
Daí ela se inclinou para o lado, fechou os olhou e sua boca foi de encontro com a de Gabriel. E eles deram início à um longo e melodramático beijo. Rafa olhou para mim e fez cara de nojo, eu ri. Depois do beijo de despedida, Juliana desceu do carro dizendo:
― Foi um ótimo dia! Nos falamos depois, querido. Tchau meninos!
― Tchau! ― Eu respondi sozinho.
Assim que a porta do carro bateu, a treta começou.
― O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA, GABRIEL? ― Rafa gritou indignado.
― Que que foi? ― O irmão perguntou indiferente.
― TEMOS QUE DEIXAR O LUCAS LÁ! ELE TÁ ATRASADO!
― Relaxa aí, maninho… ― Ele disse rindo.
― NÃO TEM GRAÇA!
E assim, eles foram discutindo por boa parte do caminho. Os garotos começaram a ter uma briga de irmãos… depois de dois minutos, eles tinham até me esquecido… estavam lavando toda roupa suja de uma vez. Enquanto eles se desentendiam como dois leões furiosos, pensei um pouquinho sobre meu irmãozinho ou irmãzinha… será que brigaríamos assim também?
Quando chegamos na rua 2, eu disse:
― Gabriel, pode me deixar aqui na esquina mesmo… meus pais não precisam saber que eu cheguei de carro…
― Tá, beleza. ― Ele disse estacionando.
Quando o carro finalmente parou, eu me despedi deles:
― Bom, acho que é isso… erm… Gabriel… obrigado pelo passeio… eu me diverti bastante… e Rafa… até amanhã, na aula.
― De nada… ― Gabriel disse olhando pelo retrovisor.
― Tá… tem certeza de que você não quer que eu desça? ― Rafa ofereceu.
― Não! De jeito nenhum! ― Eu protestei.
― Tá… mas você me manda mensagem, dizendo se deu tudo certo?
― Mando sim… ― confortei-o.
― Jura?
― Juro.
― E qualquer coisa me liga…
― Tá, Rafa…
― E amanhã você vai na escola, né?
― Vou sim, acabei de te falar que ia…
― ―
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― Tá… então até amanhã, eu acho…
― Sim, até amanhã…
― Tá…
Eu senti que ele queria falar mais alguma coisa, mas estava se segurando por causa do irmão.
― Então tá… ― Eu disse por fim. ― Tchau…
E assim, eu abri a porta do carro e saí. Depois de dar três passos em direção a minha casa, ouvi a porta do carro se abrindo.
― Espera! ― Ele disse.
Eu olhei para trás e, logo em seguida, olhei para frente, em direção à minha casa. Minha casa estava a uns trinta metros de distância. Fiquei com medo dos meus pais me flagrarem com o Rafa. Daí voltei a olhar para ele.
― Espera! ― Ele disse novamente.
― O que foi? ― Perguntei.
Daí ele se aproximou de mim e me deu um selinho.
― Te amo. ― Ele disse e me olhou, esperando uma resposta.
Fiquei em silêncio por um momento e depois respondi:
― Valeu… ― sem saber ao certo o que dizer.
― Se cuida. ― Ele disse mais uma vez.
― Você também… ― respondi.
― Tá… agora preciso ir…
― É… é melhor mesmo… ― concordei.
Ele se virou e, mais uma vez, olhou para trás e abanou a mão. Fiz igual. Daí o carro deu partida e se foi. Eu fiquei ali parado, no meio da calçada… sem saber muito o que fazer em seguida. Olhei para os lados e a rua estava vazia. Daí caminhei lentamente até chegar no portão da minha casa.
Chegando lá, dei de cara com a minha mãe falando no telefone. Meu pai não parecia estar em casa.
Fui até a cozinha, preparei um pão, pois estava morrendo de fome, e voltei para sala. Liguei a TV e botei no meu desenho favorito. Minha mãe fez sinal para que eu abaixasse o volume, e assim eu fiz.
― Ah… entendi… tá certo… tá certo… falo sim… tá… então depois eu retorno… até logo.
Daí ela desligou o telefone e me olhou curiosa.
― Onde você estava?
Olhei para ela de volta e respondi:
― Tentando arrumar um emprego… ― menti.
― E? ― Ela perguntou interessada.
― E que todos os lugares em que eu fui, me disseram que iam retornar depois… mas duvido muito que algum retorne. Parece que eles têm algo contra contratar crianças…
― Tentou o mercadinho do seu Mario? O filho da dona Cida trabalha lá…
― Não, mas vou lá amanhã.
― Sei… ― ela disse.
Daí continuei vendo TV… até meu pai chegar. Da sala, pude ouvi-lo cumprimentando minha mãe lá no portão. Segundos depois, ele apareceu na porta da sala.
― Oi, Lucas. Boa noite, filho.
― Oi… ― eu disse sem graça.
― Como foi o trabalho? ― Minha mãe perguntou para ele assim que ela entrou na sala.
― Ah… foi estressante… foi um dia difícil… e o seu? ― Ele perguntou para ela.
― ―
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― Ah, nada demais… fiquei em casa depois do trabalho… e o Lucas foi procurar um emprego.
Ele olhou para mim e disse:
― Huuuum… agora estamos indo a algum lugar, não é mesmo? ― Eu olhei para ele e dei um sorriso falso. ― Ei, Ana, eu preciso que você assine alguns papéis aqui… ― ele disse para ela.
― Que papéis? ― Ela perguntou.
― Esse daqui é a transferência do Lucas, e esse daqui é a matricula na Escola Municipal.
Nessa hora, eu quase me engasguei com o pedaço de pão que eu estava mastigando. Transferência? Transferência?
― Transferência? ― Eu disse em voz alta, mas não foi o suficiente para que eles me ouvissem.
Daí eu me levantei, olhei para eles e soltei um berro:
― TRANSFERÊNCIA? ― Os dois se assustaram com meu grito.
― Sim, Lucas, transferência! Eu disse que ia te tirar daquela escola hoje. E eu fui lá. Você só não saiu ainda porque sua mãe precisa assinar também.
Enchi os pulmões de ar e, cheio de raiva, gritei:
― NÃO. VOU. SAIR. DA. ALIANÇA!
Nessa hora, o semblante do meu pai ficou sério, ele se virou para minha mãe e entregou os papéis, me ignorando completamente. Isso foi o a gota d’água. Saí correndo em direção a ela, para tomar os papéis de sua mão; mas, na mesma hora, meu pai percebeu o que eu ia fazer e pegou os papéis de volta. Fui correndo até ele e ele levantou o braço, deixando os papéis fora do meu alcance.
― ME DÁÁÁÁÁ!!!!!! ― Gritei.
― SAI, LUCAS!
― ME DÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!! AAAAAAAAAAAAAAA!!!! ― Comecei a esgoelar.
Eu comecei a pular para tentar pegar os papéis, mas ele era mais alto que eu. Daí a raiva tomou conta do meu corpo e comecei a bater nele, dando vários soquinhos em seu peito.
― SAI, LUCAS!
Não sei de onde a mão dele veio, só sei que, no próximo segundo, eu estava no chão e minha bochecha doía muito.
― AAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!! ― Gritei novamente.
― Cala essa boca, Lucas, ou você vai apanhar! ― Ele gritou autoritariamente.
Eu me levantei do chão e fui correndo em direção a ele, para tentar pegar os papéis mais uma vez. Ele me recebeu com outro tapa; mas, dessa vez, eu não caí no chão, só perdi o equilíbrio.
― LUCIANO, PARA! ― Minha mãe gritou. ― PARA DE BATER NELE! ELE É SÓ UMA CRIANÇA!
― UMA CRIANÇA MUITO MALCRIADA, POR SINAL! ― Ele gritou revoltado. ― ISSO É FALTA DE CORO!
Nessa hora, meu pai jogou os papéis no chão, levou sua mão até sua cintura e desafivelou sua cinta. Eu, já sabendo o que ia acontecer, me virei e tentei fugir, mas senti uma mão me agarrar pelo meu antebraço.
― Vai fugir é o caralho, moleque. ― Ele disse sério. ― Agora você vai levar.
Ele me segurou com muita força e foi me derrubando no chão. Como ele era muito mais forte que eu, não consegui lutar. Minha mãe tentou se aproximar dele; porém, ele a empurrou para trás com muita força.
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Ele me derrubou, eu caí no chão de barriga para baixo, ele subiu em cima de mim e me segurou com força. Daí senti uma chibatada muito forte nas costas. Em um primeiro momento, senti uma dor aguda insuportável. No próximo segundo, senti minhas costas queimarem e arderem.
― AAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!! ― Foi tudo que consegui gritar.
Eu tentei me soltar dele, para fugir, mas ele ergueu o braço e me concedeu outra chibatada nas costas.
― AAAAAAAAAAAAAAAA!!! ― Essa tinha sido ainda mais forte.
Comecei a me contorcer de dor e, inutilmente, levei minhas mãos até minhas costas, para tentar amenizar a dor. Nessa hora, comecei a chorar… mais de desespero e dor do que de tristeza.
E ele me deu outras três chibatadas nas costas antes que eu conseguisse me soltar. Quando escapei, não vi mais nada, só corri. Corri como se minha vida dependesse disso e, de fato, dependia. Assim que me levantei do chão, senti minhas costas arderem ainda mais com o esforço extra. Caí de joelhos, mas a adrenalina que corria em minhas veias me anestesiou e permitiu que eu me levantasse novamente. E, aí sim, eu corri.
― AAAAAAAAAAAA!!! ― Gritei de dor.
― VOLTA AQUI! ― Meu pai gritou.
Eu, que estava na sala, corri até a cozinha e comecei a abrir todos os armários. Daí eu comecei a jogar tudo que tinha lá dentro deles no chão… panelas, potes, talheres… fui jogando tudo no chão e gritando de raiva.
― AAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
Os metais, conforme iam colidindo contra o chão, iam inundando a casa com os barulhos mais insuportavelmente irritantes possíveis. Duque até apareceu na cozinha, para ver o que estava acontecendo, mas tratou de sair logo, assim que seus ouvidos começaram a doer de tanto estímulos sonoros que estavam recebendo.
Meu pai apareceu na cozinha, com a cinta na mão, daí eu saí correndo novamente. Passei pela outra porta e voltei à sala. Fui até o sofá e o virei de cabeça para baixo usando minhas duas mãos. Minha mãe estava desesperada tentando impedir que meu pai me batesse de novo, e eu… bem… eu estava colocando tudo para baixo.
Foi quando ouvimos o portão se abrir e o seu Humberto apareceu na sala.
― Que porra tá acontecendo aqui? ― Ele perguntou.
― TIOOOOO! ― Eu gritei e corri para seus braços.
Ele me abraçou e eu comecei a chorar muito. Daí meu pai apareceu na sala.
― Seu Humberto, estamos resolvendo um problema pessoal aqui, se o senhor nos dá licença!
― ELE QUER ME BATER, TIO! ― Eu gritei.
― Deus do céu! ― Ele disse. ― Calma, calma! Vamos tentar resolver isso com calma?
― Não se intrometa! ― Meu pai disse se aproximando da gente. ― Vem cá, Lucas!
Daí ele me segurou pelo braço e tentou me puxar. Na mesma hora, eu abracei seu Humberto mais forte, para que ele não me deixasse ser levado para o abate. Seu Humberto me defendeu e retirou a mão do meu pai do meu braço. Meu pai perdeu a paciência e partiu pra cima do pobre seu Humberto…
O primeiro soco fez com que ele me soltasse e andasse uns três metros para trás. Eu, que agora não estava mais sobre a mira do meu pai, fugi e corri para os braços da minha mãe, que me recebeu num abraço carinhoso e confortável. Enquanto isso, meu pai e seu Humberto saíram de casa aos trancos e barrancos e foram parar no meio da rua.
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― VEM BATER EM ALGUÉM DO SEU TAMANHO! SEU COVARDE! ― Gritava seu Humberto lá fora.
― FILHO DA PUTA! ― Meu pai xingava.
Eu e minha mãe saímos para tentar impedir a briga e, quando chegamos, já tinham vários vizinhos lá fora tentando apartá-los. Acho que a barulheira que eu havia feito minutos atrás tinha assustado todo mundo. Era uma gritaria que só vendo. Daí ouvimos uma viatura da polícia chegando, algum dos vizinho devia ter chamado. Quando minha mãe viu a viatura virando a esquina, ela sussurrou no meu ouvido:
― Lucas, por tudo que é mais sagrado, filho, não diga a ninguém que seu pai te bateu… isso pode fazer ele ir preso!
Na mesma hora, eu me vi em um dilema. Contar ou não contar?
Meu pai e seu Humberto já tinham sido separados e agora estavam trocando xingamentos aos gritos.
― DEIXA O MENINO EM PAZ, VAI BATER EM ALGUÉM DO SEU TAMANHO! ― Gritou seu Humberto.
― VAI CUIDAR DA SUA VIDA, SEU VELHO INTROMETIDO! ― Meu pai tentou revidar.
― HOMEM DE VERDADE NÃO BATE EM CRIANÇAS! ― Seu Humberto atacou.
― VAI CUIDAR DA SUA PRÓPRIA FAMÍLIA! AH, É! QUASE ME ESQUECI! MORREU TODO MUNDO! ― Meu pai gritou sem um pingo de sensibilidade.
― PELO MENOS EU TIVE UMA! ― Ele revidou.
Três policiais fardados desceram da viatura e tentaram acalmar todo mundo. Depois de alguns minutos, eles começaram a fazer perguntas para os dois, a fim de entender o que estava se passando ali. Eles também começaram a fazer perguntas para as pessoas que ali assistiam curiosas. Eu ainda estava em choque e com dor nas costas, mas estava abraçando minha mãe. Eu não queria ouvir mais nada, só queria que aquilo acabasse logo.
Pelo que dava para ouvir, meu pai e seu Humberto contavam versões diferentes do ocorrido para a polícia, que não sabia em quem acreditar. Daí vieram falar com minha mãe.
― Senhora? A senhora pode nos esclarecer o que aconteceu aqui? ― Eles perguntaram.
― Ah, senhores, foi apenas um desentendimento familiar… não sei porque chamaram vocês… sinceramente, não havia necessidade. Queria pedir desculpas pelo grande mal-entendido… os dois só estavam estressados… só isso… daí eles se desentenderam. O importante é que agora eles já se acalmaram.
― Hum… entendi… e o garoto, está bem? ― Eles perguntaram.
― Lucas. ― Minha mãe me chamou.
Eu fiz que sim com a cabeça.
― Está machucado? ― O policial perguntou pra mim.
Eu fiz que não com a cabeça.
― Ele te bateu?
Eu fiz que não com a cabeça novamente.
― Certo…
Daí meu pai e seu Humberto chegaram até nós.
― O senhor vai prestar queixa? ― O policial perguntou para seu Humberto.
― Não senhor. ― Ele respondeu enquanto limpava o sangue do nariz com a manga da camiseta.
― Bem, então vamos indo… se por algum acaso, acontecer mais alguma coisa, não hesite em nos chamar, certo, senhora?
― Tudo bem, obrigada. ― Minha mãe respondeu.
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Quando os policiais estavam indo embora, um virou para o outro e comentou algo baixinho… não deu para ouvir, mas consegui entender boa parte com leitura labial.
― Nossa… que baixaria, hein? Esse povão da zona sul… deus me livre.
― É… bom, o garoto ficou quieto… tava assustado, tadinho… se ele apanhar de novo a gente vem prender esse filho da puta.
― Com certeza.
Os vizinhos estavam todos olhando pra gente. Daí eu, minha mãe e meu pai, voltamos para dentro de casa. Quando seu Humberto foi entrar, meu pai o parou e disse:
― Cai fora daqui ou eu chamo a polícia de novo.
Seu Humberto hesitou, mas meu pai logo disse:
― Não vou bater no garoto, se é com isso que você está preocupado.
Seu Humberto me olhou e disse:
― Lucas, meu filho, você tem meu número. Qualquer coisa é só me gritar.
― Cai fora! ― Meu pai disse fechando o portão na cara do seu Humberto. ― Que cara mais intrometido! ― Ele reclamou.
Fomos para dentro, e meu pai foi direto para seu quarto. Enxuguei meu nariz e, sem saber muito o que fazer, fui para cozinha, para arrumar a bagunça que eu tinha provocado minutos mais cedo. Minha mãe foi lá para o quarto, para conversar com meu pai. Foi quando eu ouvi um grito:
― PRA MIM, CHEGA! AQUI EU NÃO FICO MAIS!
― NÃOOOO! NÃOOOO!
Parei tudo que estava fazendo e corri até meu quarto, vai que meu pai tentasse bater na minha mãe. Isso não poderia acontecer de jeito nenhum, por causa do bebê. Quando cheguei, me deparei com a cena do meu pai jogando um monte de roupas dentro de uma mala.
― Pra mim chega! Já não basta ter que alimentar você e esse veadinho, agora tenho que aturar um velho intrometido entrando dentro da minha casa e me dizendo o que fazer? Não, é demais pra mim!
― Luciano! E o bebê? ― Minha mãe disse desesperada enquanto tentava convencê-lo a ficar.
― Você precisa de mim pra quê? Hein, Ana Maria? Cuidar dele você sabe que eu não vou! Dar comida, trocar fralda, isso daí é contigo! Agora, se quiser dinheiro, eu te dou! Mas quem disse que eu preciso estar morando aqui nessa casa, pra colocar dinheiro aqui dentro? Foda-se! Eu pago pensão! Pago mesmo! Quer dinheiro? Toma! ― Ele disse tirando um monte de moedas do bolso e jogando no chão. ― Mas aqui eu não fico! Ele já me deu muita dor de cabeça. ― Ele disse e apontou para mim.
― LUCIANO! PELO AMOR DE DEUS! VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO COM A GENTE! VAMOS FICAR SOZINHOS!
― Isso também é culpa sua, Ana! Não foi você quem quis ficar do lado do moleque? HEIN? Não foi você quem disse que só seria uma fase??? Que logo, logo passaria? Então! Essa porra não passou e nem vai passar! O melhor a se fazer é acabar com isso de uma vez por todas! Chega! Se quiser criar essa peste de forma errada, pois que crie sozinha! Pra mim, deu, chega! Vou é dar o fora daqui!
― NÃOOOO! ― Minha mãe disse chorando.
― Foda-se! Foda-se, Foda-se! ― Me pai gritou enquanto arrumava sua mala.
Eu estava perplexo com a cena que estava presenciando. Era demais pra mim… eu estava assistindo em primeira mão o divórcio de meus pais. Eu não queria que fosse assim, mas confesso que estava muito aliviado por isso estar acontecendo. Eu sabia que só viriam
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complicações disso… sejam complicações legais ou financeiras… porém, pelo menos, eu e minha mãe poderíamos passar por essas complicações sem ele para nos importunar.
― CHEGA! CHEGA! PRA MIM, CHEGA! ― Ele ficava repetindo.
Quando ele veio em direção a porta do quarto, eu, morrendo de medo de apanhar de novo, saí correndo para meu quarto. Entrei, tranquei a porta e corri para minha cama. Tampei os meus ouvidos com o travesseiro para tentar não ouvir mais nenhuma palavra.
― CHEGA! CHEGA! PRA MIM CHEGA! ― Pude ouvir gritos abafados.
Depois de mais dez minutos, ouvi o barulho do nosso carro saindo pela garagem e o silêncio pareceu ter se instaurado no restante da casa. Saí do meu quarto e fui até a sala, onde minha mãe estava chorando.
― Mãe? ― Eu a chamei.
Ela me olhou com os olhos muito vermelhos e disse:
― É TUDO CULPA SUA!
Nessa hora, eu fiquei muito assustado e fui correndo para o meu quarto.
Eu estava assustado. E estava com medo. Muito medo. Meu pai tinha ido embora, de fato, mas não tinha como saber se ele voltaria ou não, ou para onde ele teria ido. E não tinha como saber o que seria de nós a partir de agora…
Se eu tinha medo de que ele voltasse? Claro que sim! Assim como também tinha medo de que ele não voltasse!
Eu tinha medo de que ele voltasse com aquela ideia de que poderia consertar nossa família usando da violência… querendo me consertar na base dos tapas… até a imagem dele aparecendo aqui em casa com uma arma eu tinha medo… seria tão fácil para ele, passar por cima da gente…
E se ele não voltasse, então? Sem o salário dele em casa, deixaríamos de ser pobres para sermos pobres com força. Agora, definitivamente, eu teria que arrumar um emprego. Não havia escapatória. Estávamos, de fato, fodidos.
E minha mãe? Que ora estava do meu lado e ora estava contra mim? Que história foi essa de que ela quis ficar do meu lado? Será que isso foi só àquela hora ou será que sempre foi assim? Minha mãe nunca disse abertamente o que achava sobre o fato de eu gostar de meninos… talvez ela estivesse okay com isso, e só não falou nada por medo dele… mas agora seria diferente…
E que história era essa de que tudo isso era culpa minha? Quer dizer… em parte era… quer dizer… tá… foda-se… quem estou tentando enganar? Isso tudo era culpa minha! Se nada daquilo tivesse acontecido… com o Rafa… com o Hermes… talvez eu ainda tivesse uma família estruturada… quem sabe até feliz. Talvez ainda formássemos uma família de verdade… talvez fosse eu o verdadeiro culpado por colocar um ponto final na família da casinha da rua 2. Talvez fosse eu quem devesse ir embora.
Peguei minha mochila da escola e esvaziei-a. Abri meu guarda-roupa, peguei algumas peças de roupa e joguei tudo dentro da minha mochila. Fui até minha cama, me agachei e enfiei a mão em baixo dela até alcançar meu potinho de economias. Peguei todo dinheiro que tinha lá dentro e joguei na minha mochila. Vesti uma calça jeans e um casaco de frio e, discretamente, fui até a cozinha.
No caminho, dei uma espiadinha na sala e minha mãe continuava lá chorando. Na cozinha, peguei duas garrafinhas de água e joguei dentro da minha mochila. Voltei para meu quarto e fiz um cafuné na cabeça do Duque.
― Desculpa amigão… vou sentir muito sua falta.
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Foda-se. Aqui em casa eu não fico mais. Vou fugir. Tenho roupa, dinheiro e água. Vou para onde o mundo quiser me levar. Quer dizer… em minha defesa, na hora parecia ser uma boa ideia…
Pulei a janela do meu quarto e caminhei silenciosamente pelo corredor externo até chegar no portão de casa. Me agachei para que minha mãe não me visse pela janela da sala e joguei minha mochila muro acima. Daí pulei o muro, para não fazer barulho abrindo o portão.
Estava uma noite fria e silenciosa. Os vizinhos já não estavam mais na rua. Não tinha ninguém para me ver e me dedurar. Eu poderia fugir sem problemas… e foi o que eu fiz. Escolhi um lado da rua e segui… segui em linha reta, a pé, por muito tempo… segui durante mais ou menos uma hora, até sentir minhas pernas ficando cansadas.
Deviam ser umas onze e meia da noite e todos os estabelecimentos comerciais já tinham fechado as portas, por ser uma segunda-feira. Não tinha nenhum movimento na rua. O que eu tinha que fazer agora era procurar algum lugar para dormir, pois minhas vistas já estavam ficando cansadas.
Eu não conhecia mais a vizinhança… era um bairro estranho e desconhecido para mim. Eu estava em uma rua deserta, mas podia ouvir algumas vozes e sons vindo da rua perpendicular a esta. Continuei caminhando até chegar na esquina. Lá, olhei para o lado e pude contemplar uma rua com algum pouco movimento. Tinham algumas pessoas ali… parecia que tinha um barzinho ou algo do tipo… resolvi passar lá em frente, para ver o que estava acontecendo.
Na verdade, eu estava era com medo… a rua se mostrara muito mais assustadora do que eu imaginara. Parecia que eu estava em um filme de terror. Se eu já estava arrependido de ter fugido? Claro, com certeza! Me arrependi quarenta minutos depois de ter começado a caminhar… só não sei porque eu não dei meia volta e voltei. E agora, morrendo de medo de ficar sozinho na rua, eu estava procurando qualquer lugar movimentado. Pessoas me deixavam mais tranquilo… eu me sentia mais seguro perto delas… nem que se eu tivesse que dormir com barulho… era melhor do que ficar imerso no mais profundo silêncio da noite.
Quando virei a esquina e andei alguns metros, passei em frente a um beco escuro. Tinham algumas mulheres ali que, pela aparência, pareciam ser prostitutas. Quando eu as vi, tomei um puta susto. Uma delas riu do meu susto e disse:
― Ei, garotinho… tá com medo de que? A gente não morde!
Me veio uma memória horrível quando ela disse isso. Me lembrei daquele dia, no puteiro… me lembrei daquele cheiro horrível de whisky e cigarro, daquele corredor vermelho que parecia a entrada para o inferno, daquelas garotas com maquiagens de bruxas, de toda pressão por parte do meu pai, de Carlão e de Douglas. Me senti muito mal. Meu coração se acelerou por causa do susto, do medo e das más lembranças.
Apertei o passo para sair daquela parte da rua o mais rápido possível. Depois de caminhar mais vinte metros, eu passei em frente a um bar, claro que passei pelo outro lado da rua.
Tinham alguns caras ali fumando e bebendo na porta. Daí ouvi um assovio.
― Ei! Garotinho!
Eu tentei não olhar, mas vai que fosse algum conhecido. Assim que olhei, tinham três caras me encarando do outro lado da rua. Daí um deles gritou para mim.
― Quanto cobra pra dar um trato aqui? ― E ele colocou a mão no saco.
Os outros homens que estavam ali começaram a rir de mim. Nessa hora, meu coração ficou ainda mais acelerado e eu saí correndo.
― Ei! Volta aqui! ― Um deles gritou.
Fiquei com medo de estar sendo seguido, pois comecei a sentir essa sensação. Mas, quando olhei para trás, não vinha ninguém… eles tinham ficado para trás bebendo.
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Saí daquela rua o mais rápido possível e virei a esquina. Sozinho de novo, joguei minha mochila no chão e me sentei para descansar e recuperar o fôlego, pois tinha corrido uma tantada boa. O que eu estava fazendo da vida? O que eu estava pensando?
Daí comecei a chorar. Não tinha mais pra onde ir… minha mãe não me queria em casa! Meu pai tinha me abandonado… só me restava uma pessoa a quem pedir socorro… peguei meu celular e comecei a procurar o Rafael nos contatos. Foi aí que um carro parou na minha frente e abaixou o vidro. Na mesma hora eu pensei que seria assaltado, ainda mais por eu estar segurando um celular nas mãos sozinho no meio da noite. Meu coração disparou infinito quando ouvi o cara me chamar.
― Ei! Rapaz! ― Ele disse para mim.
Olhei dentro do carro e tinham dois caras. Um dirigindo e outro no banco do carona.
― O que tá fazendo aí sozinho? ― Um deles me perguntou. ― Precisa de ajuda?
― Não… só não tenho para onde ir… ― Respondi.
Mas me arrependi logo em seguida… nessas horas era bom mentir e responder que meus pais estavam a caminho… vai que eles fossem algum tipo de estupradores.
― Qual seu nome? ― O cara perguntou.
― Lucas… ― respondi.
― Oi, Lucas… eu sou o Flávio e esse daqui é o Rodrigo… o que você está fazendo a essa hora da noite na rua, filho? Aqui é um bairro perigoso…
― Estou bem… ― Respondi.
― Bem? Eu que estou bem! Você tá aí sozinho correndo um risco desgraçado! Quantos anos você tem?
― Doze.
― Onde você mora?
― Pra lá… ― respondi apontando.
― E por que tá na rua?
― Fugi de casa…
― Meu deus, Lucas… é muito perigoso aqui fora… você não pode ficar aqui… ― Ele disse preocupado.
― Eu sei me cuidar… ― disse na defensiva.
― Olha só… eu sei que vai parecer um tanto quanto inapropriado… mas se você precisar de um lugar para passar a noite, eu tenho um quarto lá em casa… é um quarto de visitas… eu moro com a minha noiva, a Eliza… daí se você quiser passar a noite lá, só para não dormir aqui fora, no sereno… daí amanhã de manhã você pode ir para onde quiser… não é, Rodrigo?
― É, lá tem uma cama de casal, cobertor, vídeo game, chuveiro de água quente! Você pode até tomar um banho, se quiser… tem comida também… você tá com fome?
Eu, sem saber como recusar a proposta, disse:
― É… na verdade eu já estava voltando para casa… quer saber? Fugir foi uma péssima ideia… então… obrigado, mas eu já vou indo.
― Espera! Você vai voltar a pé? ― Rodrigo, que estava no volante, perguntou.
― Sim, não é muito longe…
― Olha, Lucas, podemos te dar uma carona, se quiser… ― Ele ofereceu.
― Ah, obrigado, mas não quero ser um incomodo para vocês. ― Respondi educadamente.
― Não será… juro! ― Flávio respondeu.
― É melhor eu ligar pra minha mãe… ― Eu disse. ― Eu falo pra ela vir me pegar, pra eu não precisar ir sozinho a pé…
― ―
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― Espera! ― Um deles disse. ― Você tá com fome? Tem um MacDonalds aqui perto… você quer ir lá comer um lanche? Depois a gente te leva pra casa!
― Não, obrigado, não estou com fome…
― Lucas, para de bancar o menino educado, você não vai incomodar a gente, entra logo no carro! Pagamos o seu lanche, não precisa se preocupar…
― Olha, eu agradeço muito a gentileza, mas vou ligar para minha mãe.
― Quer usar o meu telefone? ― Ele perguntou. ― Entra aí que eu te empresto.
― Não, eu tenho o meu… ― Eu disse já irritado com a insistência dele para que eu entrasse no carro.
― Tá… tá certo… você quem sabe… não vou insistir… se quiser continuar aí na rua passando frio, enquanto poderia estar comendo um MacDonalds quentinho… você quem sabe… a rua é muito perigosa… cuidado viu… se eu fosse você, ficava esperto…
― Tá… valeu. ― Agradeci.
Então o rapaz botou o carro em primeira e saiu. Fiquei aliviado quando eles foram embora. Segui o conselho que havia recebido de seu Humberto um dia: “Nunca entre em carros de estranhos. ” E assim eu fiz.
Voltei a me sentar na calçada e peguei meu celular. Sem saber o que fazer, sem saber o que pensar, apenas achei a carinha do Rafa nos meus contatos e apertei em ligar.
― Alô? ― Uma vozinha sonolenta e meiga atendeu. ― Lu?
― Rafa… ― eu disse com voz de choro. ― Preciso de você…
O farol de xênon do Toyota sedan prateado iluminou a rua deserta em que eu me encontrava. Rezei para que fosse o carro dos pais do Rafa, pois já faziam quase vinte minutos que eu havia ligado para ele.
O carro se aproximou, parou e dele, desceram três figurinhas: O Rafa, seu pai e seu irmão. Nunca fiquei tão aliviado em vê-los… eu sabia que estava seguro… eu sabia que estava em casa.
Me levantei do chão sujo da rua e fui correndo em direção ao gatinho. Era a primeira vez que eu via seu pai depois do ocorrido na escola.
― Lucas, deus do céu! ― Ele disse preocupado. ― Sua mãe sabe que você está aqui?
Pulei nos braços do Rafa no abraço mais carente que eu já tinha dado em alguém.
― Não… ― Eu disse triste. ― Fugi de casa.
― Meu deus! ― Ele disse. ― Me dá o número dela, Lucas, agora! ― Ele pediu preocupado.
Eu abracei o Rafa com todas as minhas forças. Eu só tinha falado para ele no telefone que havia fugido de casa… os outros cinco minutos de ligação foram só para eu tentar explicar aonde estava.
Assim que soltei ele, peguei meu celular, procurei o número de casa nos contatos, apertei em ligar e entreguei o celular para o seu Danilo.
― O senhor pode falar? ― Pedi gentilmente.
― Sim… me dê aqui! ― Ele disse tomando o celular da minha mão.
Voltei a abraçar o gatinho, que perguntou no meu ouvido:
― Você está bem?
― Sim… ― Respondi sem graça.
― Eu te avisei àquela hora, não te avisei? Eu devia ter descido com você…
― Eles queriam me transferir, Fefél… eu não podia deixar…
― ―
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― Nem eu… ― ele disse.
Continuamos nos abraçando enquanto seu pai falava no telefone com minha mãe.
― Sim, achamos o Lucas… sim, ele disse que fugiu… sim… entendo… sim… concordo… o que eu acho? Olha… sinceramente? Eu acho melhor ele ir lá pra casa agora… a senhora não precisa se estressar com nada… não… não senhora… de maneira alguma… vai ser bom para ele e para a senhora… certo… não… não precisa se preocupar… sim… se ele der trabalho, eu o levo pra aí… sim… entendo… ele pode pegar do Rafael, não tem problema… não senhora… tá certo… tudo bem… okay… uma boa noite pra senhora também… eu é que peço desculpas… nada… tchau!
Olhei para seu Danilo e ele me olhou.
― Tudo bem você dormir lá em casa, filho? ― Ele perguntou.
Eu fiz que sim com a cabeça, era o que eu mais queria.
Nós quatro entramos no carro, agora eu já estava muito mais tranquilo e aliviado. Seu Danilo foi dirigindo, Gabriel no carona e eu e o Rafa nos bancos traseiros.
Rafa estava vestindo um pijaminha roxo claro com várias meias-luas amarelinhas. Ele estava com carinha de quem tinha acabado de acordar… tadinho… devo ter matado o coitado de susto com minhas ideias de retardado.
Durante o caminho até a casa do Rafa, eu fui explicando para eles tudo o que tinha acontecido… expliquei sobre a transferência, sobre o barraco lá em casa e, finalmente, sobre a separação dos meus pais. Disse que minha mãe estava brava comigo e que eu resolvi fugir de casa… levei um fumo de quinze minutos do seu Danilo dizendo como isso era errado e como tinha sido perigoso sair na rua a esse horário. Ouvi tudo atentamente até chegarmos na casa de dois andares deles.
Lá, fui recebido aos beijos preocupados de Dona Olívia. Ela estava vestindo um roupão de seda cor de vinho e pantufas. Disse que tinha ficado muito preocupada comigo. Ela queria saber de tudo que tinha acontecido, mas seu Danilo a cortou na hora. Disse que era melhor que eu fosse tomar banho e descansar, pois, amanhã tinha aula, e que ele mesmo explicava para ela tudo o que tinha acontecido. Concordamos com isso e eu subi com o Rafa para o andar de cima, onde ficava seu quarto e o de Gabriel.
― Você tem pijama? ― Rafa me perguntou.
Eu tinha pegado várias trocas de roupas, porém, havia me esquecido dos pijamas.
― Não…
― Quer um emprestado?
― Pode ser…
Ele me levou até seu guarda-roupa e o abriu. Pegou um pijaminha branco e me entregou.
― Você pode usar meu banheiro… pode ir indo lá que eu vou pegar uma toalha pra você e vou arrumando seu colchão…
― Tá, obrigado, Rafa… ― Eu disse e fui para o banheiro.
Me despi e pulei em baixo do chuveiro. A água quente foi revigorante. Só quando o vapor começou a subir que eu percebi o quão cansado eu estava… tinha andando quilômetros no sereno da noite… eu só tinha certeza de uma coisa: Nunca mais fugiria de casa. Foi a coisa mais estúpida que eu já fizera.
Enquanto estava tomando banho, o Rafa entrou no banheiro e botou uma toalha na pia para mim, mas saiu sem dizer uma palavra sequer. Será que ele estava chateado comigo?
Terminei de tomar meu banho, me enxuguei, me vesti e saí do banheiro. A porta do quarto estava fechada e o Rafa estava sentado em sua cama, pensando. Já tinha um colchão montado no chão para mim.
― ―
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Eu fui até ele e me sentei ao seu lado, passando meu braço no seu.
― Oi… ― eu disse.
― Oi… ― ele respondeu.
― Tá chateado comigo? ― Perguntei.
― Não! Por que? ― Ele perguntou.
― Nada… você tá quieto…
― Ah, só tô com sono…
― Desculpa por ligar no meio da noite…
― Não tem problema, Lucas… você fez bem em ligar… devia ter ligado mais cedo…
― Eu não devia era ter fugido…
― É… isso é verdade…
― Desculpa por ser tão idiota… ― eu disse.
― Tá tudo bem… só fiquei preocupado mesmo…
― Foi mal…
― De boa…
Daí a porta do quarto se abriu e seu Danilo apareceu com dois copos de leite na mão.
― Aqui, garotos, tomem tudo, sem reclamar.
Um copo de leite era o que eu mais queria no momento. Peguei o copo morno e tomei tudo de uma vez. Quando terminei, Rafa estava no segundo gole, daí ele começou a rir.
― O que foi? ― Perguntei.
― Você ficou com um bigodinho de leite. ― Ele disse rindo graciosamente.
Seu Danilo nos olhou e disse:
― Rafa, eu e sua mãe já vamos nos deitar… Lucas, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, é só chamar, tá bom?
― Tá sim, obrigado. ― Eu disse.
― Vou deixar vocês sozinhos… boa noite! Vocês vão na aula amanhã? ― Ele perguntou.
― Vamos sim! ― Rafa disse.
― Tá… então, boa noite… escovem os dentes!
E ele saiu e fechou a porta. Depois que o Rafa terminou seu leite, ele pegou nossos copos e os colocou na escrivaninha e depois voltou a se sentar na cama comigo.
― Sinto muito pela separação de seus pais… ― ele disse.
― Ah, pra falar a verdade acho que foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos dias… ― eu disse brincando.
― Nossa, fala isso não, menino! ― Ele me repreendeu.
― É sério… acho que minha mãe não liga se nós dois estamos juntos… o problema era com ele…
― Então podemos voltar a namorar? ― Ele perguntou animado.
― Vou ver com ela… mas vou arrumar um emprego primeiro… ― eu disse.
― Se quiser, eu trabalho com você… ― ele se ofereceu.
― Nem pense nisso, Rafa! ― Eu o repreendi. ― Não vou fazer você passar por isso por mim!
― Não! Tô falando sério! Eu não seria mais tão vagabundo, ganharia meu próprio dinheiro, poderia gastar com o que quisesse, me tornaria mais independente e além de tudo a gente ainda poderia passar mais tempo juntos!
― É, mas você vai perder todas as suas tardes livres trabalhando em algum lugar chato!
― Não necessariamente! Tenho uma ótima ideia, confia em mim?
― Confio…
― Então amanhã te falo, porque agora estou exausto e só quero dormir…
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― Tá, também tô cansado.
Daí o Rafa se aproximou de mim e nós começamos a nos beijar… até a porta se abrir.
― OPA! FOI MAL! ― Gabriel gritou. ― FOI MAL! DEVIA TER BATIDO!
― Cala e boca e entra logo! ― Rafa disse rindo.
― Ah, não é nada… ― disse Gabriel. ― Só queria ver como o Lucas estava…
― Oi, Gabriel, estou bem… ― eu disse gentilmente.
― É… estou vendo… tá… boa noite… podem voltar para… ah… seja lá o que for isso…
Rafa pegou uma bola que estava no chão de seu quarto e jogou em direção a porta, mas Gabriel conseguiu fechar a porta antes de ser atingido.
― BOA NOITE! ― Eu gritei para que ele me ouvisse.
― Onde estávamos? ― Disse Rafa fazendo biquinho.
― Indo dormir! ― Eu disse me levantando e indo em direção ao banheiro. ― Vem escovar os dentes! ― Eu o chamei.
― Ah… deu preguiça… vou escovar não… ― Ele disse.
― Vem logo, Rafa! ― Eu o chamei.
― Nãooo! Quero dormir com seu gostinho na minha boca.
― Ah, vai tomar no cú! ― Eu xinguei rindo. ― Que coisa mais homossexual de se falar!
Ele riu também. Daí eu escovei os dentes e voltei para meu colchão, para dormir. Ele apagou a luz e o silêncio reinou no quarto.
Demorei um pouquinho para dormir… parte da culpa por estar com a cabeça cheia de pensamentos e parte da culpa pelo ronco do gatinho, que apagara quase que instantaneamente.
Bem, para falar a verdade, eu só estava com medo de uma coisa… que você sabe qual é… ter aquele sonho de novo e… acordar molhado de novo… rezei para que isso não acontecesse… seria a coisa mais embaraçosa de todas… fazer xixi na cama na casa do meu namorado…
Enfim… viajei nos meus pensamentos até adormecer de vez.
― ―
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| Episódio 40 ― Mãos Dadas
Com medo? Eu estava. Preocupação? De sobra. Minha cabeça estava a mil. Parecia que o universo tinha conspirado contra mim. Eu ainda não conseguia acreditar que eram possíveis tantas coisas ruins acontecerem de uma vez na vida de uma única pessoa. A primeira parte da noite foi horrível. Senti uma sensação estranha de estar sendo perseguido diversas vezes durante o sono. Até que eu acordei assustado no escuro da noite. Ainda era madrugada.
A primeira coisa que eu fiz foi enfiar a minha mão no meu pijama e sentir minha cueca. Estava seca. Fiquei aliviado com isso, mas a noite não tinha terminado. Eu não tinha tido um pesadelo, nem um sonho, mas o sono foi horrível. Quando acordei, lembrei vagamente de tudo que tinha acontecido essa noite. Meu pai brigando, indo embora, eu fugindo de casa, etc. Me deu um nó na barriga.
Olhei para o teto e estava tudo escuro… foi o que bastou para que o medo tomasse conta de mim. Nessa hora, eu fiquei com muito medo… não sei nem do quê… acho que eu estava com medo de que as sombras das paredes ganhassem vida. Meu coração começou a se acelerar e eu procurei desesperadamente uma fonte de luz. Liguei a tela do meu celular e senti meus olhos se queimarem com o brilho insuportável da tela de LED, mas pelo menos fiquei mais calmo.
― Rafa… ― Eu chamei, mas ninguém respondeu. ― Rafa! ― Chamei um pouquinho mais alto.
― Oi… ― Respondeu uma vozinha sonolenta vinda da cama.
― Gatinho… tá acordado? ― Perguntei já sabendo a resposta para essa pergunta.
― Oi… tô… o que foi? ― Ele disse.
― Deita aqui comigo? ― Pedi. Eu estava no colchão.
― Deito… por que? O que foi? ― Ele perguntou enquanto se levantava.
― Nada não. ― Respondi.
Ele, sem enxergar nada, deu um ou dois tropeções até alcançar meu colchão. Daí ele se agachou, levantou as cobertas que me cobriam e se enfiou embaixo dos lençóis junto comigo.
― Oi… ― eu disse tímido.
― Oi… ― ele respondeu. ― O que foi?
― Nada… você tá com sono? ― Perguntei.
― Um pouquinho… e você?
― Não muito…
― Tá com medo? ― Ele perguntou solidariamente.
― Não… ― respondi. ― Não é isso. ― Na verdade era sim.
― Quer que acenda um abajur? ― Ele perguntou.
― Não! Não precisa… só de você estar aqui, já ajuda…
― Tá… ― ele disse com soninho e botou um braço em cima de mim.
Eu coloquei a mão em seu peito. Ele estava quente… muito quente… parecia febril. Daí eu cheguei mais perto dele.
― Você não tem medo de dormir sozinho nesse quarto? ― Perguntei. ― É tão escuro.
― Às vezes… ― ele respondeu. ― Só quando eu assisto alguma coisa de terror… e, quando eu fico com medo, eu tento pensar em coisas que eu gosto… na escola, por exemplo, ou em um dia que eu gostei, ou até mesmo em você.
Nessa hora, eu fiquei morrendo de vergonha.
― Ai… fala isso não que eu fico com vergonha! ― Eu disse fazendo voz fofa.
― É verdade… ― ele disse. ― Você não sabe como você me ajuda a pegar no sono…
― Ai, gatinho… ― eu disse apaixonado.
― ―
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― É sim… ai é só pensar em você, uma ou duas punhetinhas, um beijo e até logo…
Nessa hora, eu comecei a rir. Olha as coisas que ele falava! Tinha acabado com o clima de vez. Ele era uma criança com um senso de humor extremamente pervertido… só podia ser o gatinho mesmo…
― Seu safadinho! ― Eu disse brincando.
― É… mas agora vamos dormir, né? Que eu tô morrendo de sono… ― Ele disse rindo.
― Tá… seu babaca.
Agora que eu estava abraçado com ele, não tinha mais medo nenhum. Tudo parecia tão calmo, tranquilo e sereno. E, logo que o medo deixou de ser uma das minhas preocupações, percebi o quão cansado estava… daí peguei no sono quase que instantaneamente.
Apaguei e não vi mais nada… e foi um dos melhores sonos que eu já tive. Dormi feliz e despreocupado. Não tenho certeza, mas acho até que sonhei que estava abraçando o Rafa. Estava abraçando ele nos meus sonhos e na vida real. Estava na companhia da pessoa que eu mais gostava no mundo.
― Rafael! Lucas! Levantem essas bundas preguiçosas de vocês e se aprontem. Já são seis e vinte.
Meus olhos até doeram quando Gabriel acendeu a luz de uma vez. Olhei para ele e ele estava vestindo uma roupa atlética. Camiseta cavada, shortinho curto e um tênis de corrida. Provavelmente ele estaria saindo para correr, visto que estava de folga essa semana. Haja disposição para sair para correr uma hora dessas.
― Apaga isso, mano! ― Rafa reclamou sonolento.
― Não, vocês têm que acordar! ― Ele disse enquanto saia deixando a porta aberta.
Eu estava deitado de conchinha com o Rafa no colchão. Acordei com uma puta ereção… mas também! A bundinha fofa e macia dele estava encostando em mim! Apertei sua barriguinha, dei uma encoxada nele e uma fungada no pescoço.
― Bom dia! ― Eu disse animado.
― Argh… ― Ele gemeu alguma coisa que eu não pude entender.
Enfiei a mão dentro do meu pijama para sentir minha cueca. Estava molhada… mas não era de xixi… aff… agora que eu estava me lembrando… acho que eu tinha sonhado que tinha gozado… mas parece que não tinha sido um sonho, no final das contas…
O Rafa se levantou e ficou sentado no colchão, olhando para o vazio. Ele estava com muita cara de sono. Não pude deixar de olhar para o seu corpo. Ele estava usando um shortinho de pijama curtíssimo que deixava suas coxas de fora. E notei que ele estava duro também… por causa do voluminho que se formara no seu shortinho.
― Ah… por que a escola é tão cedo? ― Ele reclamou para si mesmo.
― Pois é… ― eu disse.
Eu também não queria ir para a escola, mas não era porque ainda era cedo demais. Para ser sincero, eu estava odiando a nova escola… tirando o Rafa e meus outros amigos, eu odiava todo mundo lá. Eu sempre tinha a impressão de que todo mundo falava sobre mim… eu devia ser um ótimo assunto… o garoto novato, pobre, nerdzinho e ainda por cima veadinho. Perfeito para se julgar. Eu sempre tentava ignorar as pessoas e suas opiniões, mas todo mundo sabe como isso é difícil. Não ouvimos só com os ouvidos… também vemos com os olhos… nas atitudes que as pessoas têm para conosco.
Depois que já estávamos trocados e com os dentes escovados, descemos para tomar café.
― Bom dia, meninos! ― Dona Olívia disse terminando de fazer café.
― Oi… ― Rafa a cumprimentou com sono.
― ―
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― Bom dia! ― Eu disse mais animado um pouco.
― Dormiram bem? ― Ela perguntou.
― Aham. ― Respondi.
― Lucas, meu filho, hoje depois da aula você quer ir para casa? ― Dona Olívia perguntou. ― Podemos te deixar lá quando sairmos da escola.
― Tá… ― eu concordei. ― Pode ser.
No café, ninguém falou muita coisa. Estava todo mundo entretido comendo. Depois que terminamos, o pai de Rafa fez questão de nos levar até a escola.
O problema é que o Rafa sempre chegava muito tarde, minutos antes da aula começar. Mais especificamente no horário de pico da escola… quando todo mundo já estava lá para nos ver chegando juntos. Totalmente embaraçoso.
― Tchau meninos, boa aula, até daqui a pouco! ― Seu Danilo disse enquanto eu e Rafa descíamos do carro.
Quando chegamos no portão da escola, eu congelei. Daí Rafa me olhou e disse:
― O que foi?
― Nada… ― Respondi balançando a cabeça.
― Então vem…
Olhei para meus pés e eles se recusavam a sair do lugar.
― Não me diga que… ― ele começou dizendo.
Olhei para ele, para ver o que ele ia dizer.
― Não me diga que você tá com vergonha de andar junto comigo agora!
― Não! ― Exclamei. ― Claro que não!
― Então qual o problema? ― Ele perguntou, mas não respondi. ― Lu, qual o problema de andar comigo? Todo mundo já sabe!
― Não tô com vergonha de andar com você!
― Então vem! ― Ele chamou.
Daí nós dois fomos andando até o sexto ano juntos. Chegando lá, pude perceber que os cochichos na sala aumentaram, pois eu entrei junto com o Rafa. Corri para o meu lugar, para ser esquecido logo. Rafa veio logo atrás.
― Oi gente! ― Miguel disse.
― Oi Mi. ― Eu o cumprimentei.
― Eae… ― Rafa disse.
Procurei o Igor na sala e ele estava sentado atrás da Sarah… sua nova namorada. Olhei para eles conversando como um casal normal e senti um pingo de inveja. Por que eu e o Rafa não poderíamos ser ignorados como eles dois? Ninguém falava nada sobre o Igor e a Sarah. Só falavam que eles formavam um lindo casal… e que eles tinham sido feitos um para o outro.
A aula começou e eu pude me distrair um pouco… afinal, nada como uma aula de matemática para ocupar a cabeça. Quando foi a hora do intervalo, todo mundo da sala foi saindo, e eu fiquei bem quietinho no meu lugar.
― Não vai sair? ― Rafa me perguntou.
Miguel olhou para ele e disse:
― Eu e o Lu vamos ficar aqui.
Agradeci por Miguel ter me apoiado, mas Rafa ignorou e pediu:
― Vamos lá na cantina comigo, Lu?
― Ah não, Rafa… acho que vou ficar por aqui. ― Reclamei.
― Vamos lá comigo, Lu! Por favor! Por favor! ― Ele insistiu.
Eu olhei para Miguel, para pedir ajuda.
― O Lucas não quer sair, Rafa. Deixa ele.
― ―
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― Aff… vem logo! ― Rafa disse pegando no meu braço.
― Não, Rafa!
― Vem! ― Ele insistiu. ― Só até a cantina! Depois a gente vem comer aqui na sala! ― Ele tentou me convencer.
― As pessoas estão falando de mim! Estão falando de nós! ― Reclamei.
― Ninguém tá falando de você, seu bobo! ― Rafa disse. ― E se tiverem também, foda-se! Estamos namorando, não estamos? Tem mais é que falar mesmo, não é?
― Sim, mas… não! Não! Não, eu quis dizer!
― Tá vendo! Você quer que as pessoas falem! Seu egocêntrico!
― Eu disse sim, que a gente está namorando! E não, que elas não têm que falar sobre isso.
― Eu sei, seu idiota! Vem, então! ― Ele insistiu mais uma vez. ― Se tiver ruim, a gente volta! ― Ele disse. ― O Miguel vai também! Aí ninguém vai falar que estamos de rolo na escola! O máximo que pode acontecer é começarem a falar que o Miguel também é veado, por andar com a gente! ― Rafa disse brincando.
― Eiiii! ― Miguel reclamou.
― Tá… foda-se. ― Eu disse.
Nessa hora, nós três saímos da sala em direção à cantina. Para minha surpresa, Rafa, que estava do meu lado, segurou minha mão.
― Não, gatinho! ― Eu disse baixinho só para ele ouvir. ― Me solta! ― Eu disse tentando desgrudar sua mão da minha.
― Não! Vamos andar de mãos dadas! Vai ser legal! Quer ver?
― Não! ― Reclamei baixinho. ― Tá todo mundo olhando.
― Para de ser bobo! Não tem ninguém olhando!
Tá, tudo bem, não tinha ninguém olhando, mas poderiam olhar! Assim que começamos a andar de mãos dadas pela escola, senti minha face ficando vermelha. Eu estava morrendo de vergonha. E, cada hora que eu via algum conhecido, eu ficava com mais vergonha ainda. Fomos andando até a cantina assim.
Chegando lá, algumas garotas vieram correndo falar com o Rafa:
― Oiiii! Rafa! ― Uma disse. ― Oi Lucas!
― Oi… ― eu disse sem ter a menor ideia do nome dela.
― Oi, Aninha! ― Rafa a cumprimentou com um beijo na bochecha.
E, do nada, começaram a brotar garotas vindo falar com a gente. Todas me conheciam, mas eu não conhecia nenhuma delas… apenas de vista, talvez… mas os nomes, eu não fazia a menor ideia. E, para minha surpresa, não só garotas vieram falar com a gente, mas alguns garotos também.
Não sei quando isso tinha acontecido, mas acho que agora erámos os dois garotos mais populares da escola.
― Lu, vou comprar um lanche, você quer algo? ― Rafa perguntou.
― Não… tô de boa… ― respondi.
E aí o Rafa foi para a fila da cantina, me largando sozinho numa roda de crianças que se tinha formado em volta da gente.
― Lucas, onde você mora mesmo? ― Uma garota me perguntou e todas as outras ficaram me olhando, esperando uma resposta.
― Ah… eu? Eu moro na rua 2. ― Respondi inocentemente.
Mas todo mundo ficou me olhando com cara de vento. É claro que ninguém sabia onde ficava a rua 2! Lucas, seu idiota!
― Perto do parque industrial… ― eu disse.
― ―
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― Ahhhh! Entendi… ― a garota disse.
― Lucas, você ainda tá no futebol? ― Um garoto me perguntou.
― Tô…
― Quer bolacha, Lucas? ― Ofereceu um outro menino.
― Você joga como o que? ― Perguntou aquele outro.
― Ataque… e aceito sim… ― respondi pegando uma bolacha.
― Maneiro! ― Ele disse.
― Lucas, você já conhecia o Rafa antes de estudar aqui? ― Uma menina perguntou.
― Não… por que? ― Eu disse.
― Ah, não… é que parece que vocês já se conheciam antes daqui…
― Lucas, é verdade que você vai participar das olimpíadas internas? ― Um garoto me perguntou.
― Aham! ― Eu disse empolgado.
― Nossa! Eu também! Você é de matemática?
― Sim! E você?
― Sou de matemática também! Só que vou representar o quinto ano! ― Ele disse.
― Nossa! O Lucas nem tem cara de nerd! ― Uma garota falou.
Não sei se ficava feliz ou triste com esse comentário.
― Lucas, é verdade que o Hermes tá internado?
― Ah… ― eu disse meio chateado por terem tocado nesse nome. ― É o que eu ouvi dizer.
― Nossa, ele era um chato! Um pau no cú! ― Um garoto falou.
― Sim! Nossa, e aquela namorada dele, a Rebeca! ― Uma garota falou. ― Fiquei sabendo que ela tava dando para o Vitor! ― Daí a galera começou a rir.
Nossa… o que estava acontecendo? Eu não estava acreditando nisso… será que era por isso que o Rafa queria me trazer até aqui a todo custo? Ele já sabia o que tinha acontecido! Tínhamos nos tornado as duas pessoas mais interessante da escola! Nessa hora, eu olhei para ele e ele estava na fila da cantina rodeado de crianças. Ele também olhou na minha direção e nossos olhos se cruzaram. Nessa hora, ele sorriu timidamente e fez o sinal de joia com o polegar. Eu fiz que sim com a cabeça e sorri. Daí voltei minha atenção para a roda de conversa.
As crianças se mostraram muito curiosas. Fizeram inúmeras perguntas sobre mim. Elas passaram a conhecer muito mais sobre o Lucas e eu passei a conhecer muito mais sobre elas. Depois de mais três minutos ali na rodinha, olhei para o Rafa. Ele já tinha comprado seu lanche, mas estava conversando com outras pessoas ali. Eu gostei de receber toda essa atenção, porém eu trocaria tudo por um tempinho a sós com o gatinho.
Como seria impossível ter um pouco de privacidade com toda essa atenção, resolvi deixar a rodinha. Eu disse para o pessoal que ia ao banheiro, mas ao invés disso, fui até a quadra.
Subi a arquibancada sozinho e observei lá de cima os meninos do terceiro ano jogando bola. Eu estava distraído. Tão distraído que não o vi chegando.
― Senhor Olhos Populares Verdes!
Quando me dei conta, Arthur estava se sentando do meu lado.
― Oi, Arthur…
― Oi, Olhos Verdes… como você tá? ― Ele perguntou.
Eu fiz que sim com a cabeça.
― Certo… ― ele disse.
Daí ficamos em silêncio por um momento. Voltei a me concentrar nos garotos jogando bola na quadra.
― Então… ― ele disse.
― ―
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― O que foi?
― Tenho uma notícia que não vai agradá-lo muito.
― O que foi? ― Perguntei preocupado.
― Mas antes me diga como fez para virar amigo da Giovanna.
― É o que? Amigo de quem?
― Da Giovanna!
― Quem é Giovanna? ― Perguntei.
― A garota que estava conversando com você agora pouco!
― Qual delas? ― Perguntei sem entender nada.
― A de cabelos castanhos? Olhos dourados quase verde? Ela não só é a menina mais inteligente da minha sala como também é a mais bonita da escola? Nada? Aquela bonitinha?
― Arthur… ― eu fiz cara de negação pra ele, lembrando-o que eu não achava as meninas bonitas.
― Aff, a de blusa vermelha?
― Ah… porque você não disse logo! ― Eu reclamei. ― Eu sei quem que é sim… só não sabia que ela se chamava Giovanna…
― Pois é…
― Ah… ela que veio falar comigo… por que? Tá gostando dela?
― Eu? ― Ele disse sem graça. ― Eu não!
― Sei… ― eu disse sendo irônico. ― O que tem ela então?
― Ah… é que ela é a garota mais popular do colégio… só não entendi porque ela foi falar com você!
― Eiiiii! ― Eu reclamei.
― O que foi?
― Tá dizendo que eu não sou popular? ― Disse brincando.
― Não, Olhos Verdes, você não é popular… o cabeça de melão talvez… mas você? Você não.
― As garotas vieram falar comigo! ― Eu disse tentando me defender.
― É porque você é gay, seu idiota! Elas sabem que você não vai cantá-las, por isso te acham fofo!
― Seu cú! ― Eu disse. ― E aquele monte de garotos que vieram falar comigo? Tá dizendo que eles queriam ser cantados por mim, então? Que todos eles são veados também?
― Não, seu retardado! Eles tão em cima de você porque você acabou de virar o maior cupido da escola.
― Cu o que? ― Eu perguntei sem entender nada.
― Cupido! Seu cabeça de melão dois ponto zero! Cupido! Você acabou de ganhar o poder de chegar em qualquer menina e ela se abrir completamente pra você, pois agora elas sabem que você não vai dar em cima delas! Imagine o tanto de segredos que elas podem te contar! Elas podem te contar todos os garotos de quem elas gostam, porque você não vai julgá-las! E você vai poder conversar abertamente com qualquer garota… ou seja, quando algum menino quiser que você arrume uma garota para ele, ele vai procurar você!
― Que horror! ― Eu disse abismado.
― Horror por que? Isso é a melhor coisa que poderia acontecer! Você vai saber de tudo! Você vai ter acesso a todas as fofocas que só as garotas sabem! Coisa que eu nunca consegui fazer!
― Isso é o fim do mundo! Como eu vou saber agora se alguém quer ser meu amigo de verdade ou se só quer me usar para conseguir uma boca pra enfiar a língua?
― É aí que tá, Olhos Verdes! Ninguém vai te usar! Você é que vai usar as pessoas!
― ―
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― Você tá doido, isso sim, Arthur!
― Quando foi a última vez que errei?
Foi aí que eu me lembrei de que o Arthur nunca tinha errado.
― Você tá doido, Arthur, isso sim!
― Bom, tire suas próprias conclusões. E faça-me o favor de me deixar por dentro de tudo que está acontecendo no universo das meninas. Pode ser?
― Que seja. ― Eu disse rindo.
Voltei minha atenção para os garotos do terceiro ano, que agora estavam retirando a camiseta por causa do calor e do suor.
A poucos metros daqui, também sentado na arquibancada da quadra, estava um garoto. Ele estava sozinho e segurava um livro nas mãos. Até aí tudo bem, mas flagrei o garoto dando algumas olhadinhas para nós periodicamente. Eu já o tinha visto algumas vezes pelos corredores da escola, porém nunca tinha conversado com ele. Para falar a verdade, não sabia nem o seu nome.
― Hein, Olhos Verdes?
― O que? ― Me peguei distraído quando Arthur fez uma pergunta.
― Perguntei se você quer… ― Arthur disse me oferendo bolacha.
― Ah… obrigado. ― Eu disse enquanto retirava uma bolacha do pacote.
Fiquei encarando o garoto enquanto ele lia seu livro. Daí ele virou a cabeça e deu uma olhadinha em minha direção. Quando ele percebeu que eu estava olhando, ele tratou logo de desviar o olhar e se concentrar no livro.
― O que é que você tinha para me falar, Arthur? ― Eu perguntei.
― Ah sim… tenho uma péssima notícia… ― ele disse.
Nessa hora, o garoto guardou seu livro na mochila e veio em nossa direção.
― Ah, pera… tá vindo alguém… depois eu te falo. ― Arthur disse e ficou em silêncio.
O garoto se aproximou da gente e soltou um sorrisinho enquanto subia alguns degraus da arquibancada.
― Oi, Arthur… ― ele disse.
― Oi… ― Arthur respondeu com cara de confuso.
― Oi, amigo do Arthur… ― ele disse para mim.
― Oi… ― eu respondi.
― Erm… Arthur… ― ele disse sem graça. ― Você terminou o desafio de matemática que a professora passou pra gente?
― Claro que sim! ― Arthur disse com um pouco de arrogância.
― Ah… poderia me mostrar como você fez, depois? ― Ele pediu gentilmente.
― Cara… você tem que testar todos aqueles casos… aí todos vão te levar para um absurdo, exceto o correto. Só isso, não tem segredo nenhum.
― Ah… entendi… ― ele disse sem graça.
Daí o Arthur ficou olhando pra cara do garoto esperando ele falar mais alguma coisa. O garoto ficou muito sem graça e disse:
― Ah… então tá… valeu, Arthur…
― Nada… ― Arthur disse.
― Tá… erm… tá, de qualquer modo, prazer te conhecer… ― Ele disse e estendeu a mão.
Eu peguei em sua mão e disse:
― Lucas.
― Ah… e eu sou o Maurício… mas a galera me chama de Maumau.
― Oi, Maumau… ― eu disse. ― O prazer é meu.
― Tá… bom… eu vou indo que daqui a pouco vai bater o sinal…
― ―
345
― Tá… ― Eu disse.
― Tá, até mais. ― Arthur disse.
E o garoto virou as costas e foi embora.
― Legal seu amigo… ― eu disse sem saber o que falar.
― Ele não é meu amigo. ― Arthur disse.
― Como assim? ― Perguntei.
― Ele é da minha sala, mas quase nunca nos falamos… ele veio aqui por causa de você.
― O que!? ― Eu disse surpreso.
― Cara, estava na cara… ele provavelmente está a fim de alguma garota e vai pedir a sua ajuda para consegui-la…
― Nossa… não tinha pensado nisso… mas agora que você falou, faz todo sentido.
― Pois é… acostume-se, você é o novo cupido da escola.
― Ah… ― eu suspirei.
Depois disso, voltamos para a sala e eu estava renovado. Tinha sido um dos melhores dias da escola. Tudo porque eu venci meu medo e saí da sala. Obrigado, Rafa. Depois disso, meu rendimento aumentou de uma forma absurda na aula. Voltei a responder pergunta dos professores, voltei a conversar com as pessoas, voltei a ser eu… pelo menos em grande parte.
No final da aula, quando saímos da sala, Rafa pegou na minha mão novamente. Dessa vez eu não fiquei com vergonha… não estava mais com medo. Eu estava andando de mãos dadas com a pessoa que eu mais gostava no mundo… estava andando de mãos dadas com o gatinho. E não tinha nada de errado nisso. Nossos dedos se entrelaçaram demonstrando todo nosso amorzinho.
Assim que saí, fui falar com a diretora. Precisava esclarecer que eu não ia sair da Aliança. Devo ter dito umas quatro vezes que eu não ia sair da Aliança e mais umas oito que eu não ia sair da Aliança. Sim, fui bem redundante quando disse que não ia sair da Aliança.
― Como foi na escola, garotos? ― O pai do Rafa perguntou já no carro.
― Foi legal… ― Rafa disse. ― Aquela Ana filha do George veio falar comigo. Lembra quando o irmão dela ia brincar lá em casa, pai?
― Ah… lembro sim… nossa… aquele menino deve estar enorme também, não é?
Eu tinha me esquecido de como o Rafa era aberto com os pais… ele chegava da escola e contava tudo que tinha acontecido… chegava até ser um pouco estranho e constrangedor… eu não fazia ideia o que eles tinham feito com o filho para conseguirem ter uma relação tão boa e aberta… o dia que eu contasse tudo isso pra minha mãe… não sei nem o que seria de mim.
― Lucas, você já quer voltar pra sua casa? ― Seu Danilo perguntou.
― É… ― eu disse rindo. ― Querer eu não quero não… mas, né…
― Ah, Lucas… não fala isso, filho… você tem que ir lá se resolver com sua mãe!
― Eu sei, seu Danilo… só estou brincando… ― eu disse envergonhado.
― Faz o seguinte… se você quiser, vai pra casa, conversa com sua mãe, almoça com ela, resolva todos os seus problemas e depois do almoço eu vou lá te pegar pra você ir lá pra casa… aí você e o Rafa podem passar a tarde juntos… o que acha?
― Nossa, eu ia adorar! ― Eu disse animado com a notícia.
― Então pronto, pode ser? Mas você tem que se acertar com sua mãe!
― Tá, pode ser sim, obrigado, seu Danilo.
― Tá, então lá para as duas horas, eu vou te buscar! Pode ser, Rafa? Você também vem buscar ele? ― Ele perguntou.
― Sim! ― Ele disse rindo.
― Obrigado! ― Eu disse e agradeci mais umas quinze vezes.
― ―
346
Chegando na porta de casa, me despedi do Rafa e do seu pai e depois entrei. Fui recebido em casa pela minha mãe aos prantos.
― Lucas! Lucas? É você? ― Ela gritou.
― Sim, sou eu, mãe… ― eu disse envergonhado por ter fugido de casa.
― Lucas, pelo amor de deus! Nunca mais faça isso! Você quase me matou do coração, ontem! ― Ela disse e veio me abraçar.
― Desculpa, mãe… é que…
― Não! Não precisa nem se justificar… eu sei… eu sei que eu errei… eu sei que foi culpa minha…
― Não! ― Eu disse. ― Não fala isso… foi culpa dele…
― Não fala isso, Lucas… eu tentei ligar pra ele hoje…
Nessa hora, me senti ficando sem chão.
― Por que você fez isso? ― Perguntei indignado.
― Lucas! Precisamos dele! Não temos condições de vivermos sozinhos! Ainda tem o bebê!
― Eu já disse que vou arrumar um emprego! ― Eu disse revoltado. ― E ele terá que pagar pensão, de qualquer jeito!
― Ele nunca vai pagar pensão pra gente, filho… não conhece seu pai?
― Isso não é problema nosso! ― Reclamei. ― Isso ele que resolva com a justiça. Se não pagar, vai preso.
― Lucas! É seu pai!
― Ele não é meu pai! ― Gritei. ― Não tenho pai! Não preciso! Não tenho pai e não é porque ele foi embora! Eu nunca tive!
― Eu liguei pra ele… ― ela disse.
― E? ― Perguntei.
― Não atendeu…
― E nem vai. Você discou o número errado. O número certo é um nove zero.
― Lucas!
― Se ele não pagar pensão eu mesmo ligo. Precisamos do dinheiro, como você mesmo disse!
― Lucas… ― ela disse triste.
― O que foi? Vai me dizer que ainda o ama? ― Eu perguntei.
Ela ficou em silêncio e olhou para baixo.
― Meu deus, mãe! Depois de tudo? Ele quase te agrediu! Você está carregando um bebê! Se não for fazer por mim, faça pelo bebê! Não precisamos do papai. Nos damos bem sozinhos. Sempre nos demos. Só precisamos administrar os gastos… já não estamos pagando escola, isso já nos permite economizar muito! Quando eu começar a trabalhar, você vai ver como ele não faz falta. Como você pode amá-lo depois de tudo isso?
Ela ficou em silêncio e olhou para baixo, envergonhada.
― Ele me bateu, mãe. Me bateu porque eu… ― Nessa hora eu tive que me segurar para não chorar, mas meus olhos ficaram molhados. ― Porque eu gosto de meninos… como você pode amar uma pessoa assim?
― Eu me pergunto isso todos os dias… ― ela disse e começou a chorar.
Merda… tinha estragado tudo. Nessa hora, eu pensei o que o Rafa faria… ele provavelmente daria um abraço em seus pais… e foi justamente o que eu fiz. Eu me aproximei da minha mãe e ofereci um abraço. Ela me abraçou e ficamos juntos por uns dois minutos. Até ela se acalmar.
― Não foge mais não, Lucas… por favor… ― Ela disse.
― ―
347
― Não fujo. Nunca mais. ― Eu disse. ― Mas tem que me prometer que não vai mais deixa-lo mandar nas nossas vidas.
― Ele não vai, eu prometo. ― Ela disse.
E, depois desse nosso abraço, fomos almoçar.
― Será que será menino ou menina? ― Eu perguntei.
― Não sei… só dá pra saber depois de três meses… você quer ter o que? Um irmãozinho ou uma irmãzinha?
― Tomara que seja menino… ― eu disse sendo sincero.
― Ah… eu também prefiro menino… ― ela disse e sorriu.
― Dá pra saber quanto tempo já faz? ― Perguntei.
― De acordo com o médico, mais ou menos dois meses.
― Entendi… ― Eu disse enquanto me servia um segundo prato de comida.
― Você quer escolher o nome? ― Ela perguntou.
― Posso? ― Eu perguntei lisonjeado.
― Claro…
― Tá… vou pensar em alguma coisa. ― Eu disse.
E assim continuamos nosso almoço em família. Eu, minha mãe e o nosso futuro bebê

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14 Comentários

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  • Responder MAX ID:89cszz0m9k

    UMA DAS MELHORES HISTORIAS JA LI

    • Marcelo ID:8d5hue520i

      Melhor que a Netflix!!

      Parabéns!!

  • Responder greenbox amigobc ID:dloya5u42

    caros leitores estamos na metade da historia agradeço a todos por ler a serie O menino dos olhos verdes uma abraço ao tesão gay, keno, Rlu, tommen, legolas,seila, olhos castanhos,e a tantos outros que eu não lembro agora

    • Seila ID:e243s2gzk

      Um abraço para você também amigo. poderíamos conversar qualquer hora dessa, eu estou disponível a qualquer horário para conversar no aplicativo Wickr me, o meu nome lá é raikoua1

    • Marcelo ID:8d5hue520i

      Caracas!!
      Melhor que Netflix!! Parabéns!!

  • Responder tesão gay ID:3ij0y0lim9a

    ainda estou preocupado com o fato do lucas não ter resistido ao matheus, isso ainda vai dar problema.

  • Responder tesão gay ID:3ij0y0lim9a

    amei esse capitulo, tudo esta se resolvendo, por favor escritor, não nos abondone, senão vou ficar com isso na cabeça pro resto da minha vida.

  • Responder Keno ID:1dawlywqrc

    Que capítulo mais show ame isso, ainda mais que passei o dia de ontem esperando espero que o rafa não o fique chateado ou bravo com o Lucas e que ele entre nas olimpíadas e que consiga ganhar estou ansioso para o próximo capítulo espero que chegue logo se não irei começar td de novo obrigado só tenho que agradecer um abraço estarei esperando pelosó próximos capítulos

  • Responder Rluv ID:7xbyrj5vv1

    Aaaa que capítulo bom!!!! Ansioso pelos próximos!!

  • Responder Tommen ID:vpdk7chl

    Muito bom, ansioso pelos próximos!! A felicidade voltando pro nosso safadinho. Espero que ele pare de trair o Rafa

  • Responder Legolas ID:bf9sybyb0j

    queria tanto ver o trisal do arthur, lucas e o rafa kkk, muito bom.

    • Rluv ID:7xbyrj5vv1

      Cara eu também!!!! Torcendo para que aconteça logo!!

  • Responder Seila ID:e243s2gzk

    É meus amigos… Chegamos na metade dessa maravilhosa história, mas ainda tem muita coisa para rolar. Estou ancioso para continuar lendo, por favor não demore para postar a continuação

    • Olhos castanhos ID:81rf8ywp8l

      Nem me fale que isso um dia pode acabar 😭😭😭😭😭😭