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O menino dos olhos verdes 37 & 38

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Episódio 37 ― Prova de Amor | Episódio 38 ― Reconciliação

Droga! O que eu tinha na cabeça? Matheus? Droga! Não sei o que tinha dado em mim… eu tinha sido levado pelo impulso… isso não era bom… o que eu precisava mesmo era conversar com alguém urgentemente…
Primeiramente pensei em seu Humberto, mas não poderia falar sobre Matheus com ele… simplesmente não tinha como… era constrangedor demais… o que ele pensaria de mim? E a vendinha dele também estava fechada, visto que era domingo, e eu não ia incomodá-lo em casa. A segunda pessoa que veio na minha mente foi o Rafa… mas eu jamais faria isso… como eu diria para ele que eu enfiei a língua na boca de outro moleque sem querer alguns minutos atrás? Não tinha como! Sabe deus que consequências isso teria… nosso relacionamento já não estava lá grandes coisas…
E, mesmo que ele me perdoasse, eu tenho certeza que ele esfregaria isso na minha cara assim que tivesse chances… o Rafa era assim… ele engolia muitas coisas, mas sempre vomitava em mim na primeira oportunidade que tinha. E eu não lhe daria outro motivo para brigar comigo. Não, não.
A terceira pessoa em quem eu pensei pedir socorro foi o Arthur… mas não, obrigado… seria a coisa mais bizarra do mundo! Eu desabafando para ele e ele me olhando sem saber o que fazer… imaginei ele todo sem jeito me olhando estranho.
Cheguei até cogitar a hipóteses de ligar para o Igor, mas eu não precisava de conselhos de um homofóbico… e, por fim, me veio a pessoa ideal em mente. Sem pensar duas vezes, peguei meu celular e apertei em ligar.
― Alô? Oi… estou bem… e você? Hum… entendi… tá em casa agora? Tá ocupado? É que eu queria conversar com alguém… sim… aquela em frente à sua casa? Sei… pode ser… tá… tô descendo pra lá agora… tá… até daqui a pouco.
E, depois de descer toda a rua 2 e subir pela avenida 7 durante quinze minutos, avistei a pracinha que tínhamos combinado de nos encontrar. Miguel já estava sentado num banquinho embaixo da maior árvore do local, segurando, em uma de suas mãos, uma latinha de guaraná. Assim que ele me viu, esboçou um sorriso e abanou a mão. Eu corri de encontro com ele.
― Nossa, meu deus, Lu… parece que um caminhão passou em cima de você… ― Ele me saudou e eu ri.
Miguel, de longe, embora não parecesse, era o mais sensível, maduro e extrovertido entre nós quatro (Eu, Rafa, Igor e ele). Ele, além de ser o mais velho, também era o mais sensato e o que tinha mais juízo. Ele também tinha um senso de humor bem peculiar… ele era o tipo de pessoa que conseguia te dar broncas brincando… como acabara de fazer.
Miguel tinha treze anos, tinha a pele morena clara e os olhos e os cabelos negros. O cabelo dele não era liso, era meio enrolado. Como eu já havia dito, ele não era um loirinho de olhos azuis como o Rafa e o Igor, mas ele não era feio… só que também não era bonito… ele era um menino normal. Com seus defeitos e com suas qualidades. Um menino com um rosto mediano e com um corpo mediano.
― Aqui, trouxe pra você! ― Ele disse e me entregou uma latinha de guaraná.
Limpei o suor da testa e abri a latinha. Estava muito calor… por ser quase uma da tarde, o sol não estava de brincadeira. Dei uma golada no refrigerante e senti minha garganta arder com o gás.
― Obrigado, Mi… ― Agradeci enquanto me sentava no banco ao lado dele.
― E aí… como vai, Lu? Tudo bem com você?
― Pareço bem? Tô na bad… ― Disse rindo.
― Imagino… ― Ele compreendeu.
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― E você? Tá bem? ― Perguntei.
― Ah… só um pouco irritado com a minha irmã…
― O que ela fez agora? ― Perguntei.
― Você acredita que ela queimou meu secador?
― Você tem um secador? ― Perguntei rindo.
― O que? Tenho que cuidar da cabeleira!
― Veadinho! ― Eu disse zombando dele, ele riu também. ― Por falar em irmã… Mi, você acredita que minha mãe tá grávida…?
― Eita! ― Ele disse surpreso. ― Jura?
― Aham…
― Menino ou menina? Vocês já sabem? ― Ele perguntou curioso.
― Não… eles ficaram sabendo quinta. No dia que…
― Vish… tenso… ― Ele disse fazendo um gesto engraçado com a boca.
― Pois é… ― Concordei.
― Pois é… ― Ele concordou.
Ficamos em silêncio por uns trintas segundinhos. Ele estava esperando eu começar a falar. E eu estava pensando por onde começar.
― Como está a escola? ― Comecei perguntando. ― O que aconteceu depois que eu e o Rafa fomos embora? Quinta-feira.
― Olha… muita coisa aconteceu. Não sei nem por onde começar… bem… eu e o Igor estávamos na sala quando espalharam suas fotos. Mas, antes do sinal tocar, já podíamos ouvir muita conversa lá fora… todo mundo da sala percebeu que tinha algo de errado… todo mundo percebeu que estava acontecendo alguma coisa lá fora. Aí a nossa sala ficou eufórica e a professora não conseguiu terminar a aula. Daí o sinal tocou e todo mundo foi lá ver o que estava acontecendo… eu e o Igor saímos juntos da sala, né… aí quando vimos as fotos de vocês, tratamos logo de começar a recolher todas que conseguíamos…
― Ah… não tive oportunidade de agradecê-lo por isso, Miguel… obrigado, viu…
― Que isso, Lu… não tem de que… eu sei que você faria o mesmo por mim! Enfim… daí o teu amigo doido apareceu… o Arthur… ele disse que a gente devia ir atrás de quem estava espalhando as fotos.
― E vocês foram? ― Perguntei.
― Fomos. Seguimos o rastro e achamos o cara que tava com as fotos.
― Quem era?
― Era o Caio. Aquele amigo do Hermes, sabe?
― Sim… eu sei quem é… eu já imaginava que era ele…
― Então… era ele que estava espalhando as suas fotos… eu, o Igor e o Arthur fomos atrás dele, mas ele manda bem no Parkour… conseguiu escapar…
― E vocês pretendiam fazer o que, se pegassem ele?
― Dar uns bons tapas, ué!
― Cara… você precisava de ver a surra que o Hermes levou do irmão do Rafa…
― Hahaha… eu vi! Tá até no YouTube.
― Sério?
― Aham… mano… geral da escola tem esse vídeo! Só se fala disso… mas é sério… deu dó, na moral…
― Dó? Você precisava ter visto o que ele fez comigo e com o Rafa.
― E o que ele fez, afinal? O Rafa não quis falar… ele ficou muito chato, depois, sabe? Ele tá um saco.
― Calma, deixa eu explicar o que eles fizeram primeiro, depois discutimos sobre o Rafa…
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― Tá… diz aí…
― Tipo… cara… o Hermes encontrou eu e o Rafa no corredor e começou a fazer graça… zoando com a nossa cara… sabe? Aí, quando eu peguei no braço do Rafa para ir embora, ele gritou e mostrou a nossa foto… cara… meu deus… eu quase caí no chão, nessa hora…
― Mas o que ele queria? ― Miguel perguntou.
― Cara… sei lá… foi muito gratuito… ele não ganhou nada com isso… só um passe livre para o hospital. Aí ele levou eu e o Rafa pro canto da escola e começou a obrigar a gente a fazer coisas… na hora eu pensei que ele ia querer estuprar a gente, ou fazer a gente chupar o pau dele, sei lá… mas graças aos céus ele não queria nada disso…
― Se ele tivesse feito, era só você ter arrancado o peru dele com os dentes! Hahahaha!
― Hahahaha! Né? Mas ele só ficou obrigando eu e o Rafa a fazermos coisas… tipo… ficar falando que a gente era veadinho… ficar falando que eu era a princesa dele… esse tipo de coisa…
― Poxa, Lu… que chato… sinto muito…
― É… e não foi só isso… depois ele pegou um cabo de vassoura e fez eu chupar, e ele fez o Rafa beber leite estragado…
― Eca cara… que nojo…
― E aí o Hermes perdeu a cabeça e mijou no Rafa…
― É… acho que isso todo mundo percebeu…
― Ele teve o que mereceu.
― Só não teve pouco.
― Ainda acho que ele poderia ter sofrido mais, mas… tá bom já…
― Hahaha… credo, Lu.
― Pois é… e anteontem? Quando eu e o Rafa fomos chamados na diretoria… o que aconteceu?
― Cara, na real mesmo? Quando vocês dois saíram a sala falou até… mas depois de dez minutos a aula voltou ao normal e ninguém nem falou mais nada… ― Era o que eu mais queria ouvir.
― Aaaaaaa… putz… não sabe como é bom ouvir isso, Mi… ― Eu disse aliviado.
― Hahaha… e o que a diretora queria com vocês?
― Ah, cara… foi horrível… ela chamou meus pais… meus pais não estavam sabendo de nada…
― Espera! Você não tinha contado? ― Ele perguntou abismado.
― Não…
― Eitaaaa… que merda, Lu!
― Eu sei, sou um jumento… aí meu pai ficou furioso, brigou com o pai do Rafa, xingou até… daí ele me levou pra cortar o cabelo, me bateu, jogou aquele ursão que o Rafa me deu fora… agora tá um inferno lá em casa…
― Putz… ― Miguel disse sem saber o que responder.
― E pra piorar, meu pai queria me mudar de escola…
― Não!
― Não! Calma! Relaxa! Ele não me mudou até agora e, pra falar a verdade, nem acho que ele vá mudar… só vai dar mais dor de cabeça pra ele…
― Ah…
― Eu realmente acredito que ele não vai fazer isso… e, se ele fizer, eu apronto um barraco lá em casa…
― Posso ver sua careca? ― Ele disse quebrando o clima de desabafo.
― AFF! ― Eu reclamei emburrado. ― Por que todo mundo insiste nisso?
― Vai! Rapidinho! Tira o boné!
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― Não quero.
― Ah… qual é… deixa eu ver!
― Aff… foda-se. ― Eu disse e tirei o boné.
Miguel começou a rir.
― Idiota. ― Eu disse e botei o boné novamente.
― Hahaha… qual é Lu! Sabe quem você tá parecendo?
― Não se atreva.
― O Antônio.
― Cala boca, Miguel!
― Hahaha…
― Mas então…
― Hahaha… ― Ele continuou rindo. ― Diz aí…
― Rafa.
― Ah, sim… Rafa… mano… o Rafa tá um porre, isso sim… ― Ele começou dizendo.
― Por que? ― Perguntei.
― Ah… primeiro que sexta-feira, depois que vocês foram pra diretoria, ele voltou na sala, né… ele apareceu na porta e me chamou. Eu fui lá ver o que ele queria e ele tava com os olhos parecendo dois pimentões.
― Jura? ― Eu disse e fiquei mal. Não sabia que o Rafa tinha chorado depois que eu fui embora, na sexta.
― Sim… eu tentei conversar, mas ele foi extremamente grosso. Só pediu que eu pegasse a mochila dele na sala, porque ele tava com cara de choro e não queria que ninguém visse ele assim… claro que ele não disse isso.
― Tadinho… ― eu disse com o coração na mão.
― Aí eu peguei a mochila dele e a sua e entreguei para ele. Aí ele me deu um tchau murcho e foi embora. Até aí tudo bem… eu sei que ele tava nervoso e tal… mas depois, eu enviei um monte de mensagens pra ele e ele não me respondeu. Aí eu liguei pra ele e ele foi super grosso e disse que não queria falar com ninguém e tal… e desligou na minha cara… mandei mais mensagens e ele não respondeu.
― Ele só precisa de um tempo, como eu. ― Eu tentei consolar Miguel.
― Tá de boa… eu nem tô chateado… eu entendo e perdoo ele, sei o que vocês estão passando e consigo imaginar o quão horrível seja.
― É… tipo isso.
― Pois é…
Ficamos uns trinta segundos em silêncio pensando, daí eu disse:
― Não sei o que será de nós agora, Mi…
― Como assim?
― Ah, sei lá… não sei se tô com muito saco pra namorar e tal…
― Por que não estaria?
― Ah… é complicado, tipo… eu e o Rafa nos desentendemos ontem… ele apareceu lá em casa… cara… ele é um idiota! Sabe deus o que meu pai faria se o pegasse lá ontem…
― Às vezes ele não se importa em tomar uns tapas na cara por você, Lu.
― Mas e eu? O que meu pai faria comigo se o pegasse lá? Eu ia tomar uma surra das boas! Será que ele não se preocupa com isso?
― Ah, você é outro idiota! Claro que ele se preocupa! Ele só não tinha pensado nisso! Só porque o Rafa é um cabeça de melão não significa que ele não se importe!
― Eu sei… eu sei… mas tipo… eu não sei se tô com saco pra namorar… tudo parece tão diferente agora… antes era tão mais legal, namorar escondido… agora eu sinto que todo mundo
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olha pra mim diferente… eu fico achando que as pessoas ficam falando de mim pelas costas… eu tô errado?
― Gostaria de dizer que sim, Lu… ― Miguel disse. ― Sinto muito… falar as pessoas vão falar mesmo.
― Ah, cara… ― eu disse com voz de choro.
― Fica assim não… ― Ele disse e me deu um abraço.
Daí eu comecei a chorar.
― É pedir muito que as pessoas tomem conta de suas próprias vidas? ― Eu disse com a voz rouca.
Miguel ficou em silêncio me ouvindo.
― Eu só queria que tudo voltasse ao normal, sabe?
― Entendo…
Abracei ele de volta e afundei minha cabeça em seu peito. Ficamos assim por uns dois minutos, até eu me recuperar.
― E eu não sei se o Rafa ainda quer alguma coisa comigo… ― Eu disse.
― Ah, vai tomar no cú… claro que ele quer, Lu! Fala isso não!
― Não! Você não me entendeu… ― eu tentei me corrigir. ― Tipo, claro que eu quero voltar a ficar com ele… mas ao mesmo tempo eu não quero… é complicado…
― Continua.
― Tipo, eu quero ficar com ele… eu preciso ficar com ele… mas eu também preciso ser mais responsável em casa, focar nos estudos, ser um filho melhor, sabe?
― Mas você pode fazer tudo isso e ainda sim ficar com ele, não pode?
― Não sei…
― Qual é, Lu, você sabe que pode.
― É… eu acho que sim…
Como inserir Matheus no meio dessa história? Não tinha como. Não tinha como falar pra ninguém sobre Matheus. Ele simplesmente era um problema meu e só meu. Eu já estava um pouco mais calmo em relação a ele. Não sei como faria para lidar com isso, mas eu sei que conseguiria.
― Nossa, Mi… foi bom conversar com você.
― É sempre bom poder conversar com alguém…
― Olha, acho que já vou indo…
― Por que? Que isso, Lu!
― Minha mãe tá me esperando pra almoçar… se ela ver que eu fiquei muito tempo na rua, vai contar para o meu pai.
― Almoça aqui!
― Não posso. Mi, você sabe que eu não posso.
― Desculpa.
― Tudo bem… eu vou indo agora, me perdoa por tomar seu tempo assim e ir embora.
― Não, relaxa, outro dia você vem aqui.
― Claro.
― Vai na escola amanhã?
― Vou sim, a gente conversa mais amanhã… ― eu disse.
― Tá…
― Vou indo, tchau Mi, obrigado por tudo.
― Tchau, Lu… se precisar, me liga.
― Beleza.
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Eu disse e me despedi. Voltei para casa porque já era tarde. Já se tinha passado do meio dia e minha mãe já devia estar me esperando com o almoço. O resto do dia correu tranquilamente. Sem muitos empecilhos em casa.
Na hora de dormir, assim que saí do meu banho, fui para meu quarto. Entrei, tranquei a porta e fitei minha cama de longe. Droga… estava na hora de dormir… eu estava com medo. Medo de ter aquele pesadelo novamente… medo de acordar com as calças molhadas… medo do escuro… medo de ficar sozinho.
Sem saber muito o que fazer, peguei algumas sacolinhas plásticas e botei em cima do meu colchão. Depois, cobri elas com papel higiênico, muito papel, e joguei uma toalha por cima… pronto… assim, caso eu fizesse xixi na cama de novo, isso protegeria pelo menos o colchão.
Me deitei em cima disso e fechei os olhos para tentar dormir. A luz do quarto estava acesa, por isso demorei um pouquinho mais que o normal para dormir. Minha cabeça estava muito cheia. Vários pensamentos brotaram e começaram a girar na minha cabeça. Ora eu pensava em Rafa, ora em Matheus, ora em minha conversa com Miguel. Tudo rodopiava na minha cabeça, me impedindo de dormir. Fiquei mais ou menos uma hora pensando na vida até pegar no sono.
― NÃOOOOO! ― Gritou o garoto loiro a três metros de distância de mim. ― NÃOOOO! NÃOOO! FAZ COMIGO! FAZ COMIGO! ― A próxima coisa que eu senti foi uma dor muito aguda na barriga.
― Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! ― Acordei gritando.
Segunda-feira. Dia de ir para a escola. Dia de enfrentar deus e o mundo. Dia de olhar todo mundo nos olhos. Cinco e meia da manhã. Acordei suado e com a cueca molhada… novamente.
Para minha felicidade, meu sistema improvisado tinha estancado quase todo xixi noturno. Isso tinha me permitido não virar o colchão, que estava cem por cento seco. Levei minha roupa até a máquina de lavar e tomei um banho.
Quando tudo estava devidamente limpo, fui para a cozinha. Encontrei minha mãe lá.
― Oi… ― ela disse gentilmente. ― Bom dia.
― Quem vai me levar pra escola hoje? ― Eu disse colocando minha mochila em uma cadeira da mesa.
― Eu né… ― Ela disse.
― Cadê ele? ― Perguntei soando grosso.
― Ele quem? ― Meu pai perguntou entrando na cozinha.
Virei a cara e fui até a geladeira pegar suco de laranja.
― Hoje você ainda vai pra escola, mas vou ver se consigo sua transferência ainda hoje à tarde.
― Não vou sair da Aliança. ― Eu disse com seriedade na voz.
― Isso não é uma decisão só sua, Lucas. Já conversamos sobre isso. ― Ele reforçou.
― Já? Quando? Pode me refrescar a memória, Luciano? ― Eu disse Luciano ao invés de pai.
― Ai, Lucas… logo pela manhã não… pelo amor de deus. Chega, vai, chega, chega, chega…
― Não vou sair da Aliança. Ponto. ― Eu disse e meu pai suspirou decepcionado.
Terminamos de tomar café da manhã, fui para meu quarto e vesti o uniforme da escola. Peguei meu boné e fui até o espelho do banheiro. Dei uma olhadinha na minha cabeça e a cobri
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com meu boné. Já faziam três dias que eu tinha raspado a cabeça. Já não dava mais para ver tanto meu couro cabeludo… dava para ver apenas uma fina camadinha de cabelo cobria minha cabeça.
Peguei minha mochila e fui para o carro. Minha mãe me levou até a escola. Ficamos em silêncio durante todo percurso, exceto na hora da despedida.
― Tchau, filho! ― Ela disse.
― Tchau. ― Tentei responder secamente.
Estava na hora. Estava na hora de enfrentar todos os olhares da escola. Estava na hora de ser atingido por todos os lados. Estava na hora de passar pelo corredor da morte. Não precisei nem pisar na calçada para poder contemplar a cena de várias crianças se reunindo e cochichando sobre mim nas suas rodinhas de fofocas.
Botei a mochila no ombro e caminhei até o sexto ano. Durante o percurso, quando passei por uma rodinha de garotas, todas me olharam curiosas e uma até disse:
― Oi, Lu…
Assim que ela disse isso e abanou a mão, todas as outras da roda começaram a soltar risinhos.
― Oi… ― Eu disse de volta para a garota que eu nunca havia visto na vida.
Continuei caminhando até o sexto ano. Quando passei por uma rodinha de garotos, alguns riram, outros ficaram sérios, outros indiferentes… cara… eu queria morrer…
Estava todo mundo prestando atenção em mim… não bastava eu ter chamado muita atenção com o lance das fotos, agora eu estava careca. Era demais para mim. Tudo bem que o boné cobria minha cabeça, mas ainda sim dava para notar que meus cabelinhos não existiam mais… que jaziam no fundo de uma lixeira em um barbeiro no subúrbio de Ribeirão Preto.
Cheguei no sexto ano e os olhos das poucas crianças que estavam ali me fitaram. Levantei minhas sobrancelhas em um gesto de ‘Oi gente… é, eu sei… estou careca…’ e continuei caminhando até minha carteira, no fundo da sala. Eu, como estava com muito sono, peguei meu celular e comecei a mexer. Passaram três minutos, fui interrompido por um:
― Deus do céu! Eu tinha que ver isso com meus próprios olhos, Olhos Verdes!
Olhei para cima e Arthur me fitava galantemente. Tinha alguma coisa diferente nele… ele não estava normal… o que será que era? Meu deus! Arthur estava usando óculos! Ele estava usando um daqueles óculos fashions com as lentes grandes, de armação na cor preta.
― Com seus olhos artificiais, você quis dizer? ― Eu o corrigi.
― Ah… isso? ― Ele disse tirando os óculos. ― O médico disse que eu tenho que usar na escola… ou sempre quando eu for estudar ou ler…
― Ou seja, o tempo todo? ― Eu disse brincando.
― O que houve com seu cabelo? ― Ele disse.
Assim que ele perguntou, pude perceber várias crianças se virando e olhando para mim, doidas para ouvirem a resposta para essa pergunta.
― Meu pai me fez cortar, como soube? A fofoca correu rápido assim?
― Tenho meus informantes, você sabe disso, Olhos Verdes.
― Sei sim…
― Pois é… uma pena… eu gostava do seu cabelo de antes…
― Você? ― Perguntei ironicamente. ― Jura?
― Não, claro que não! Só não sabia o que dizer! ― Ele confessou.
― Aff… ― eu disse rindo.
Daí os murmúrios da sala aumentaram em dez vezes. Arthur, que estava na minha frente, tampando minha visão, se virou e me permitiu contemplar a figurinha que se encontrava parada em frente à porta do sexto ano. Ele não tinha feito isso. Filho da puta.
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― Meu… deus… ― Arthur disse sem fôlego.
― Filho da puta! ― Exclamei.
Rafael veio andando em minha direção com a mochila nas costas e sem nenhum fio de cabelo na cabeça… quer dizer, sem nenhum fio é modo de dizer, parecia que ele tinha raspado a cabeça na máquina um, então… ele ainda tinha um tapetinho louro na cabeça.
Na hora me deu um acesso de raiva, de ódio e de fúria. Por que ele tinha feito isso? POR QUE? Por que ele tinha abdicado de seus lindos finos fios dourados? Por que ele tinha jogado sua franjinha loura, que eu tanto amava, fora? Ele não precisava ficar careca! Ele não precisava fazer isso por mim! NÃO PRECISAVA!
Eu levantei da minha carteira e corri em direção a ele; porém, ao invés de me atirar nos seus braços, que ele havia aberto, eu passei direto e saí correndo da sala, deixando ele no vácuo. Assim que passei por ele, enxuguei uma lágrima que tinha escapado dos meus olhos antes da hora. Corri para o Bloco Leste. Corri para me esconder de tudo e de todos. Eu precisava chorar.
Assim que cheguei no corredor do Bloco Leste, entrei na primeira sala que tinha ali. Era uma salinha de aula vazia, contendo apenas algumas carteiras encostadas no canto da parede. Me sentei em uma dessas carteiras e abaixei a cabeça a chorar. Depois de um minuto chorando desesperadamente, ouvi a porta se abrir.
― Com licença… posso entrar? ― Rafa perguntou.
Eu fiz que sim com a cabeça. Ele entrou e fechou a porta. Caminhou em minha direção e se sentou na cadeira que tinha ao lado da minha.
― Por que você fez isso? ― Eu perguntei bravo e olhei para ele.
― Você ainda pergunta? Quantas vezes eu já te disse, caralho! ― Ele disse revoltado.
― Eu gostava do seu cabelo! ― Confessei um tanto quanto envergonhado.
― Eu também… ― Ele disse.
― Então, seu idiota! Por que você fez isso!?
― Poxa, Lucas… foi por você… ― Ele disse com as bochechas vermelhas. ― Já disse que íamos passar por isso juntos…
Ele pegou a cadeira de sua carteira e colocou ela ao lado da minha. Depois se sentou colado em mim. Ele foi me abraçar, mas eu dei um murro em seu peito, deixando ele sem ar.
― EU GOSTAVA DO SEU CABELO ANTES! VOCÊ NÃO TINHA QUE CORTAR! ― Daí eu dei mais um soco em seu peito. ― SEU IDIOTA! ― Eu gritei e dei mais um soco.
Ele tentou me segurar, mas atingi ele pelo menos mais umas quatro vezes antes dele conseguir me imobilizar por completo.
― Cala boca! ― Ele mandou. ― Olha pra mim, porra!
Eu parei de dar chilique e olhei para ele. Aqueles olhos azuis enormes me fitavam serenamente.
― Eu pedi para minha mãe me levar no barbeiro, mas ela não quis. Pedi para o meu pai, mas ele também não quis. Pedi pro Biel, mas ele também foi contra. Daí peguei uma tesoura e cortei minha franja de um jeito escroto. Eles foram obrigados a me levar no barbeiro, para raspar minha cabeça, pois esse era o único jeito de consertar a cagada que eu havia feito. E eu fiz isso por…
― Para, Rafa! ― Eu gritei.
― Eu fiz isso por você!
― Para! ― Eu disse enquanto ele me puxava para abraçá-lo. ― Para com isso, Rafa!
― Vamos passar por isso juntos, tá? ― Ele disse baixinho no meu ouvido.
― Não… ― eu tentei empurrar ele, mas ele me imobilizou.
Daí eu comecei a chorar com minha cara encostada no seu peito. Ele fechou os olhos e encostou sua cabeça na minha. Seus braços me envolveram e eu cedi. Abracei ele de volta. Que
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saudade que eu estava… e que confusão que minha cabeça estava… eu não sabia mais o que fazer… eu não sabia mais quem amar… eu não sabia mais se resistia ou se me entregava de vez a ele, eu estava completamente perdido. Eu não sabia o que fazer, e precisei de uns bons cinco minutos abraçado com ele para chegar a uma conclusão. E, nesse momento, eu só tinha certeza de uma coisa na vida:
― Te amo tanto… gatinho… ― eu disse por fim.
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| Episódio 38 ― Reconciliação
― Você ainda é um idiota. ― Eu disse depois do momento de drama e ele riu.
― Vai cagar. ― Ele respondeu.
― Eu gostava do seu cabelo, porra! ― Eu disse e dei um soquinho em seu ombro.
― Desculpa, então! Olha, mas eu não fiquei gatinho assim? ― Ele disse e passou a mão nos finos e minúsculos fios de cabelinhos amarelos claros no topo de sua cabeça.
― Não. Você ficou horrível de feio. ― Eu disse brincando. ― Esses olhões azuis não combinam com sua careca.
― Não fiquei feio! ― Ele se defendeu.
― Ficou sim. Ficou horrível. Você é um idiota de burro. ― Eu disse rindo. ― Otário.
― Vai crescer! ― Ele disse rindo. ― E eu não achei que o seu ficou ruim…
― Ficou ruim sim. ― Eu retruquei. ― Mas pelo menos o meu vai crescer primeiro que o seu. ― Eu disse brincando.
― Não vai não, seu pai vai cortar de novo.
Quando ele disse isso, me deu vontade de chorar. Era verdade… o que eu estava falando? Eu acho que eu nunca mais poderia deixar meu cabelo crescer… eu sabia que o Rafa tinha falado brincando… até tentei sorrir, mas não consegui esconder minha cara de sem graça. Ele percebeu que tinha falado merda e tentou se desculpar. Primeiro ele colocou a mão no meu ombro e depois disse:
― Ah, cara… foi mal, Lu…
― Não, tudo bem… ― eu disse enquanto virava a cara para ele não ver meus olhos cheios de água.
― É sério… desculpa… ― ele disse e tentou me consolar.
― Tá de boa… ― Eu disse.
Ele, que estava sentado do meu lado, se levantou e ficou de frente para mim, mas eu virei a cara de novo.
― Lu! ― Ele me chamou.
― Sai! ― Eu disse me levantando da cadeira que eu estava.
Tentei respirar e contar até três para engolir o choro. Ele precisava mesmo fazer uma piada dessas? Ele também não ajudava! Eu sei que tinha sido uma brincadeira, mas foi uma brincadeira de muito mal gosto.
― Lu…
― Vamos voltar pra aula. Já deve ter começado. ― Eu disse e enquanto me dirigia para fora da sala.
Ainda estávamos na sala de aula vazia do Bloco Leste. A aula já devia ter começado, pois eram umas sete e quinze… daí eu e ele voltamos para o sexto ano.
Ainda bem que as aulas já tinham começado. Não tinha nenhum aluno fora de sala e os corredores da escola estavam vazios e silenciosos. Silenciosos porque eu e o Rafa não nos falamos mais. Apenas caminhamos em silêncio até a nossa sala. Quando entramos, a professora de história estava recolhendo uma tarefa que ela havia passado semana passada. Droga! Eu havia me esquecido completamente dessa tarefa!
Eu e o Rafa entramos na sala e todo mundo olhou pra gente, exceto a professora, que estava distribuindo pontos negativos para os alunos que não entregaram a tarefa.
A sala toda olhou pra gente e alguns começaram a rir e cochichar… claro! Os dois veadinhos carecas da sala estavam matando aula para namorar! Quer algum assunto melhor que esse? Eu tinha certeza de que todo mundo estava falando sobre nós. Eu e o Rafa caminhamos o mais rápido possível para nossas carteiras no fundo da sala.
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― Pessoal… pessoal! Os nomes que eu falar ainda não me entregaram a tarefa: Guilherme, Lucas, Paulo, Rafael, Vitor e Wesley. Está faltando a de vocês aqui!
Bom, eu iria levar ponto negativo, mas pelo menos o Rafa também… passaríamos por isso juntos… não era essa a ideia?
― Professora! Eu deixei o meu em casa… ― Guilherme disse.
― Desculpa, Guilherme… você vai levar um ponto negativo por causa disso.
― Tá, professora… desculpa!
― E o resto, pessoal? Cadê? ― A professora cobrou.
― Não fiz professora… ― Paulo disse.
― Nem eu… ― Wesley acrescentou.
― E por que é que vocês não fizeram? ― Ela perguntou brava.
― Esqueci, professora… ― Paulo disse.
― Eu também, professora… ― Wesley disse.
― E o resto pessoal? Lucas, Rafael, Vitor?
Eu estava morrendo de vergonha, mas a professora estava me cobrando e eu tinha que me manifestar. Ser o Rafael ajudaria tanto nessa hora… ele não teria dificuldade alguma em se expressar, gritando para quem quisesse ouvir que tinha esquecido… mas eu estava com vergonha. Nunca tinha deixado de fazer nenhuma tarefa… e agora, além de veado e careca, a sala toda devia estar achando que eu era um mal aluno. O que a sala pensaria de mim? Enchi meu peito de ar e disse em voz alta:
― Não fiz, professora.
― E por que? ― Ela perguntou ofensivamente.
― Esqueci. ― Disse timidamente.
― Ponto negativo. ― Ela respondeu rudemente. ― Nossa pessoal, muita gente não entregou. Vamos! Cadê?
― O meu está aqui! ― Rafa disse se levantando com uma folha de caderno nas mãos.
Ele caminhou até a professora e entregou. Nessa hora eu fiquei morrendo de raiva. Ele tinha feito o trabalho? Ele, que era um cabeça de vento? Era eu quem sempre lembrava ele dos trabalhos! Custava ele me lembrar uma única vez? Eu me preocupava com suas notas, mas pelo visto ele não se importava nem um pouco com as minhas! Filho da puta! Eu levaria esporro sozinho! Cuzão!
― Eu também não fiz, professora! ― Vitor disse.
Quando o Rafa voltou, virei a cara para não olhar para ele. Cuzão do caralho. E não nos falamos até a hora do recreio. Quando o sinal tocou, todo mundo foi saindo da sala, mas eu permaneci sentado na minha carteira.
― Você não vai sair? ― Rafa perguntou.
― Você vai? ― Respondi com uma pergunta. ― MIGUEL! ― Eu gritei para Miguel antes que ele saísse da sala.
Miguel olhou para trás e voltou. Ele veio caminhando até chegar em nós.
― Oi, Lu… fala aí… ― ele disse preocupado.
Eu olhei para o Rafa e disse:
― Vou falar com o Miguel.
Rafa ficou me olhando sem entender… daí eu acrescentei.
― A sós…
Daí ele se tocou que eu queria falar com Miguel a sós e disse irritado:
― O que você vai falar pra ele que eu não posso ouvir?
― Nada. Tchau. ― Eu disse secamente.
― Aff… quer alguma coisa da cantina? ― Rafa ofereceu. ― Vou lá, então…
― ―
308
― Não. Tchau! Tchau! Sai! ― Eu disse e fiz sinal para a porta.
Rafa saiu e eu olhei para Miguel. Miguel estava com uma cara de desconfortável.
― O que foi? ― Perguntei.
― Vocês realmente não estão se dando bem, hein?
― Pois é.
― Mas não me chama de novo quando vocês forem brigar… por favor… eu fico sem graça… porque eu gosto dos dois… não sei quem defender.
― Eu! ― Respondi à pergunta óbvia dele.
Ele suspirou e disse:
― Você não vai sair? Não quer ir pra quadra?
― Tá maluco? ― Eu disse quase gritando. ― Tá todo mundo falando sobre mim! Só quero sumir da face da Terra! Não quero ver ninguém!
― Não tão falando de você, seu idiota! Será que você não percebe isso?
― Tão sim! Quando eu e o Rafa entramos na sala hoje, todo mundo falou!
― Mas aí é pedir demais! Vocês chegam atrasado, o pessoal pensa besteira!
― Não é para pensarem!
― Tá, foda-se! Mas o que você pode fazer a respeito? Lu, escuta! Isso passa, cara! Daqui a pouco o pessoal esquece…
― Aff… quero que me esqueçam agora! Não quero mais ser o centro das atenções!
― Cara, quanto menos atenção você quiser chamar, mais você vai. Desculpa ser a pessoa que te disse isso, mas é verdade. Se quiser que as pessoas parem de falar de você, vista o personagem e mostre que não se importa… ao invés de ficar com vergonha de sair no corredor, porra.
― Vai se foder! ― Eu disse irritado. ― Para de falar merda!
― Tô falando a verdade, não me ouça se não quiser.
― Não ouço.
― Nossa, Lu. Meu deus! Como você tá chato!
Mostrei o dedo do meio para Miguel.
― Pode ficar o quão irritado quiser, você sabe que eu estou certo. Para de ser bobo, Lu. Você sabe que está sendo bobo. As pessoas não estão falando de você. E daí que você está careca? Foda-se! Isso vai te impedir de mostrar a cara agora? Você tem o Rafa, tem a mim… tem vários amigos! Por que vai se deixar levar por causa dos inimigos? Para de ser tão crianção!
Aaaaaaaaaa! Que ódio do Miguel! Crianção? Quem era ele para falar que eu era um crianção? Ele não sabia o que eu estava passando para falar assim comigo!
― Vai, se acalma! Calma! Calma! Olha, vamos fazer assim… hoje ficamos aqui na sala… amanhã também… mas depois de amanhã vamos ficar na porta da sala. Tudo bem? Vamos indo aos poucos… pode ser?
― Pode. ― Eu disse.
― Tá… então vou ficar aqui com você.
― Obrigado. ― Eu disse revoltado.
Ficamos em silêncio por uns dois minutos, daí eu disse:
― É que o Rafa tá me irritando… olha pra ele, Mi… ele foi lá na cantina no meio de todo mundo! Ele não tem vergonha de nada! Ele tem tudo! Ele sempre teve tudo que sempre quis… Até eu ele me tem…
― Xiiii… senti um desabafo aqui… ― Miguel disse brincando.
― Para… seu bobo. ― Eu disse mais triste que irritado.
― Continua.
― ―
309
― É isso… eu só tô chateado com o Rafa… ele não tá sofrendo tanto quanto eu… eu sei que estou sendo egoísta…
― Bota egoísta nisso…
― Vai tomar no cú! Eu sei! Eu sei! Ele não está sofrendo tanto quanto eu! Eu devia estar feliz por isso! Mas não consigo… acho que estou com inveja dele…
― Aff… era só o que me faltava… inveja do próprio namorado. Você é a pessoa mais inteligente e ao mesmo tempo burra que eu conheço, Lu.
― Fale o que quiser. É isso que eu sinto. Quem disse que os nossos sentimentos precisam ser racionais e fazerem sentido?
― Você tem razão. Ninguém.
― Pois então, cale a boca.
― Mas não leve muito para o lado pessoal, Lu… o Rafa nasceu pra ser perfeito, cara… sabe quando a pessoa nasce para ser bom em alguma coisa? O Rafa nasceu pra ser bom em ser perfeito… tolo é quem não sente inveja dele… você sabe que ele é muito bonito, rico, engraçado, extrovertido e sempre tem tudo o que quer… quando quer… foda-se… ele é assim, mas tem vários defeitos também… como todo mundo… olha o que ele está passando… olha o lado dele também… você acha que ele não sofre quando te vê sofrendo?
― Não sei… talvez… se sofre, não deveria.
― Não deveria? Ele não deveria se preocupar com você? Então você é deus, agora, que não precisa de ninguém, seu idiota!
― Aff…
― Claro que você precisa da preocupação dele! Você só é muito arrogante pra não admitir!
― Tá… chega. Não quero mais falar sobre isso. Vamos falar sobre outras coisas.
― Você quem sabe… ― Miguel disse.
E conversamos sobre coisas aleatórias durante o resto do recreio inteiro.
Quando o sinal tocou, a sala foi voltando aos poucos. Quando o Rafa voltou, ele se aproximou de mim e eu virei a cara. Acho que ele ia falar alguma coisa, mas mudou de ideia depois de ver minha reação com ele. Daí ele se sentou em sua carteira e não falou mais nada.
Acontece que, o resto da aula correu normalmente. Como uma segunda-feira normal, de uma semana normal, antes da epidemia. Fiquei tão entretido com a aula de matemática que até me esqueci que estava careca… na verdade me esqueci de todos os meus problemas… foi a melhor aula que eu já tive… se bem que o meu sarrafo estava bem baixo, né?
Na hora de ir embora, me despedi secamente do Rafa e fui até minha mãe. Ela me levou direto para casa.
Em casa, almocei com ela e com meu pai, como uma segunda-feira normal, de uma semana normal, antes do colapso. Não falamos muito na mesa… só o tradicional “me passa o sal? ”.
No horário de almoço, meu pai e minha mãe ficaram na sala, vendo TV e eu fiquei no meu quarto, fazendo minhas coisas da escola. Estava sendo um dia normal. Tinha tudo para ser um dia normal… mas… como quando se trata da minha vida, nada nunca dá certo…
Depois de um tempo, minha mãe e meu pai foram trabalhar e eu fiquei sozinho em casa. Eu sentei no sofá para assistir um pouco de TV quando ouvi uma buzina tocar lá fora. Não devia ser aqui. Eu não estava esperando visitas… mas daí ouvi alguém chamar:
― Luuuuuuuuuucas!
Tomei um susto quando ouvi essa voz. Demorei alguns segundos para raciocinar. O que ele estava fazendo aqui? Botei a televisão no mudo e fui lá no portão ver o que ele queria.
― Luuuuuuuuuucas! ― A voz chamou novamente.
― ―
310
Abri o portão e vislumbrei o maravilhoso rosto angelical de Gabriel.
― Gabriel? ― Eu perguntei curioso. ― O que faz aqui?
Olhei atrás do Gabriel e pude ver o carro do pai do Rafa, com o Rafa dentro, no banco do carona. Ele estava com os braços cruzados, cara de bravo e olhando para frente emburrado.
― Tem um minuto? ― Ele perguntou.
― Claro… ― eu disse. ― Quer entrar? ― Eu disse e olhei novamente para o carro, para o Rafa.
― Não, na verdade eu queria te convidar pra sair…
― O que? ― Eu disse assustado. O Gabriel estava me chamando para sair… sair?
― Olha só… vou resumir a história: Eu estou indo para a chácara de um amigo, aqui perto, e eu convidei o Rafa para ir comigo, porque lá é um lugar muito bonito… certo? E ele está muito estressado… então… vai ser muito bom para ele esfriar a cabeça. Mas, acontece que, eu só não avisei ele que passaria aqui… pra te chamar também… por isso ele ficou bravo daquele jeito… então… lá não vai ter ninguém… daí vocês podem conversar em paz… podem ficar… podem fazer o que quiserem… tem até piscina lá…
Primeiro que eu era um idiota em pensar que o Gabriel estava me chamando mesmo pra sair… ele era o irmão do meu namorado… Lucas, seu idiota! Segundo… bom… a proposta dele era tentadora, mas… eu não poderia sair de casa… se meus pais ficassem sabendo…
― Olha, Gabriel, eu agradeço o convite, mas… eu estou de castigo para o resto da vida, e… se meus pais souberem que eu saí de casa… com o Rafa ainda… eles vão me botar pra fora de casa… e esse é um risco que eu não estou disposto a correr, então… obrigado, mas não.
Eu estava fechando o portão, mas o Gabriel o segurou e me impediu.
― Lucas! Espera!
Eu retornei o portão para a posição anterior e esperei ele falar.
― Olha só… vou ser honesto contigo… o Rafa tá muito chato… tá, não tem motivo pra segurar a língua aqui… o Rafa tá um cú… ele tá sendo muito mal criado lá em casa… tá sendo um porre. E eu sei que o problema é que vocês dois brigaram… ele só não admite… então… eu queria pedir pelo amor de deus, Lucas! Você precisa fazer as pazes com ele! Pelo seu bem, pelo bem dele, pelo bem de todo mundo! Vai ser saudável para vocês dois!
― Concordo com você… ― eu disse. ― O Rafa tá um cú. Mas é por isso mesmo que brigamos, e não o contrário. E eu já disse que não posso sair… então… obrigado, mas não.
― Lucas! ― Gabriel insistiu mais uma vez. ― Pelo amor de deus! Olha, seus pais estão em casa?
― Não.
― Tem como alguém sabe que você saiu?
Eu olhei para dentro de casa. Só havia o Duque.
― Não.
― Então! Se você quiser, eu te trago antes dos seus pais voltarem! Eles nunca saberão de nada!
― Não sei não… Gabriel… é muito arriscado…
― Lucas… por favor… por mim… pelo Rafa… vocês precisam fazer as pazes…
Mordi o lábio inferior e olhei para dentro de casa enquanto pensava nas causas e consequências que uma fugida de casa traria. Tudo podia dar muito errado… mas ao mesmo tempo, tudo podia dar muito certo…
― Okay… ― eu disse para mim mesmo. ― Tudo bem, Gabriel… olha… você precisa, sem falta, me trazer aqui antes das seis e meia.
― Trarei. Sem falta. Prometo.
Olhei para dentro de novo e pensei por mais alguns segundos.
― ―
311
― Tudo bem… e… mais uma coisa…
― O que foi? ― Ele perguntou.
― Quero que o Rafa venha aqui me convidar pessoalmente. Fala pra ele parar de ser um covarde.
― Aff… tem certeza? Isso só vai deixa-lo mais irritado, Lucas…
― Absoluta. Se for pra dar certo, ele tem que fazer a parte dele também.
― Aff… tudo bem, justo… vou falar com ele… ― Gabriel disse.
― Enfatize na hora que você for dizer ‘covarde’, por favor. ― Pedi com gentileza.
Gabriel suspirou e foi até o carro. Ele conversou com o Rafa e eu só ouvi um gritinho afeminado e agudo dizendo:
― De jeito nenhum!
Mas depois de mais dez segundos de conversa, o Rafa desceu do carona, deu a volta no carro e veio até mim.
― Oi… ― Ele disse timidamente.
― Oi… ― Respondi tão timidamente quanto.
― Vem logo, por favor… ― ele implorou.
― Não sei… acho que vou ficar… tenho umas tarefas de história pra fazer, sabe?
― Porra, Lu! Você ficou chateado com isso?
― Claro que fiquei! Você fez e eu não! E não custava nada você…
― GENTE! ― Gabriel gritou. ― Estamos perdendo tempo aqui! Deixem pra lavar a roupa suja lá na chácara! Anda, Rafa! Faça sua parte, pentelho da porra!
― Lucas! Você aceitaria, por favor, ir dar uma volta comigo, para fazermos as pazes de uma vez por todas? ― Rafa disse sendo irônico.
Mas eu gostei. Foi fofo…
― Sim! ― Eu disse rindo.
― Aff… ― Rafa reclamou. ― Me senti te pedindo em casamento.
― Só vou fechar a casa e já vou, gente, esperem aí…
Fui para dentro de casa, desliguei a TV, fechei as janelas, troquei de roupa, de cueca, principalmente… botei a que eu mais gostava… vai que, né? Botei comida para o Duque, joguei um perfume por cima, fechei toda a casa e saí.
Gabriel estava no banco do motorista do Toyota sedan prateado, Rafa estava no banco do carona e eu entrei no banco de trás. Daí Gabriel deu partida e saiu. Ele ligou o rádio e estava tocando uma música eletrônica do Avicii. Depois de uns cinco minutos dirigindo, Gabriel entrou num bairro chique da cidade.
― Só preciso passar ali pra pegar uma amiga minha… ― Ele disse.
― Aff! ― Rafa reclamou. ― Meu deus, Gabriel! Quantas pessoas vamos buscar hoje?
― Juro que ela é a última!
― Meu deus! ― Rafa reclamou novamente. ― Quem é?
― Juliana.
― Eu devia reconhecer esse nome? ― Rafa perguntou.
― Não. ― Ele disse rindo. ― Se você reconhecesse, eu estaria fazendo alguma coisa de errado. ― Rafa suspirou.
Paramos em frente à uma casa enorme, parecia uma mansão. Gabriel desceu do carro e foi até o portão, tocar a campainha. Trinta segundos depois, uma moça loira saiu de dentro de casa. Ela parecia ter uns dezesseis, dezessete anos. Ele a cumprimentou com um beijinho na bochecha. Eu prestei atenção nela e pude ver ela mexendo os lábios dizendo baixinho:
― Qual é a dos pirralhos?
― ―
312
Não deu para ver o que o Gabriel respondeu. Juliana tinha o cabelo comprido e loiro claro, impossível saber se era natural ou artificial. A garota parecia uma bonequinha, de tão perfeita. Não duvidaria se ela dissesse que seu cabelo era natural. Ela estava usando uma blusinha azul clara, shortinho jeans curto e salto alto. Junto com uma bolsinha, um colar dourado e várias pulseiras da mesma cor.
Gabriel abriu a porta de trás e ela entrou e se sentou ao meu lado. Senti um forte perfume feminino tomar conta do carro. Depois de fechar a porta, Gabriel entrou no banco do motorista e disse:
― Ju, esse é meu irmão, Rafael, e esse é o amigo dele, o Lucas.
― Namorado. ― Rafa corrigiu o irmão.
Com certeza foi só pra alfinetar o irmão, mas eu fiquei morrendo de vergonha.
― Oi, meninos! ― Ela disse levemente constrangida depois do comentário do Rafa.
― Oi… ― eu disse tímido.
Daí um silêncio constrangedor se instaurou no carro. Tinham coisas que eu gostaria de falar só para o Gabriel, assim como tinham coisas que eu gostaria de falar só para o Rafa, assim como tinham coisas que eu gostaria de falar para os dois… mas eu não tinha nada para falar na frente dessa garota… e acho que todo mundo ficou um pouco assim… Gabriel tinha coisas para falar para a menina, mas não queria falar na nossa frente… daí o silêncio ficou muito constrangedor.
Depois de mais quinze minutos dirigindo, nós chegamos num bairro cheio de chácaras… sim… era o mesmo bairro que tinha sido o aniversário do Dieguinho. Gabriel deu algumas voltas até passar em frente ao local onde eu havia beijado o Rafa pela primeira vez… mas isso só eu e ele sabíamos.
Me deu uma melancoliazinha… uma tristeza no peito… em saber que, naquele tempo, eu estava no céu e não sabia. Acho que a vida é assim mesmo… foi um tapa na cara passar em frente ao tronco caído onde um dia um outro Lucas e um outro Rafael se sentaram apaixonadamente apaixonados.
Só passamos mesmo… logo aquele lugar ficou para trás… vi aquelas árvores perfeitamente perfeitas passarem por nós inexoravelmente… e ocuparem um lugar especial na minha memória.
Gabriel continuou dirigindo até chegar em outra chácara… não era a mesma que havia sido o aniversário do Dieguinho… era uma outra.
O Rafa desceu, abriu o portão da chácara, Gabriel entrou com o Toyota enquanto o Rafa fechava o portão. Nós três descemos do carro e Gabriel foi falar com Rafael, me deixando sozinho com a menina.
Eu olhei para ela e ela me olhou, daí nós dois olhamos para o chão.
― Gabriel é legal… ― eu disse.
Ela riu educadamente e respondeu:
― É… ele é sim… e o Rafa também…
― É… ele é sim… ― respondi. ― Estamos bem, não é? ― Perguntei.
Ela começou a rir do meu comentário inapropriado.
― É sim… estamos bem… quantos anos você tem mesmo? ― Ela perguntou.
― Doze. ― Respondi. ― Você?
― Dezesseis.
― Hum… ― Eu disse. ― Vocês estão juntos há quanto tempo? ― Perguntei.
― Ah… eu conheço o Gabriel faz tempo… mas começamos a ficar esse sábado…
― Entendi… ― Eu disse.
― Vocês? ― Ela perguntou.
― ―
313
― Estamos juntos faz pouco mais de um mês… ― eu disse. ― Mas conheci o Rafa no começo do semestre… estudamos juntos…
― Nossa… legal…
― É… eu acho.
Daí o Gabriel e o Rafa chegaram até nós. Gabriel foi até a Juliana e abraçou ela, daí ele tascou um beijão na boca dela, que riu.
Nessa hora, eu e o Rafa olhamos para os dois se acabando no beijo e depois nos olhamos. Aí eu desviei meu olhar e olhei para o chão. Daí Gabriel pegou na mão da menina e foi para dentro de casa.
― O que Gabriel disse? ― Eu perguntei para o Rafa, que olhava para os pés.
― Ele disse que ia ficar um bom tempo com a menina no quarto principal… e disse que estava me fazendo um favor me trazendo aqui… e que, no mínimo, eu deveria retribuir esse favor não entrando, por tudo que é mais sagrado nesse mundo, ele usou essas palavras, naquele quarto e interromper o… ah… você sabe…
― Entendi… e pra onde a gente vai? ― Perguntei.
― Podemos ficar no rancho ali… ― ele apontou para um lugarzinho lindo que tinha ali.
Caminhamos até o ranchinho, onde tinha um banquinho suspenso, como se fosse um balanço, em baixo de várias árvores. Nós dois nos sentamos debaixo desse banquinho e começamos a conversar.
― Então… estamos aqui para fazermos as pazes? ― Eu perguntei.
― Acho que sim… ― Rafa disse.
― Então… pode começar… ― Eu disse.
― Começar com o que? ― Ele perguntou.
― Me pedindo desculpas! ― Respondi sendo grosso.
― Desculpas por que? Não fiz nada de errado!
― Quer que eu comece por onde? Com você aparecendo lá em casa ou com você não me avisando sobre o trabalho de história?
― Caralho, Lu! Como você é mesquinho! Ainda tá chateado com isso?
― Mesquinho? Não sou mesquinho! E não! Não é só isso!
― É o que então?
― É você! Você é meu problema! Você tá muito chato!
― Eu!?!? Eu!?!? Que que eu fiz?
Não consegui achar nada de errado na atitude dele… foi aí que comecei a desconfiar que o problema talvez não fosse ele… mas sim eu.
― Hein? O que foi que eu fiz? ― Ele insistiu.
― Raspou a cabeça! ― Disse bravo.
― Foi por você! ― Ele tentou se justificar.
― Por mim? Por mim? Eu pedi? EU PEDI? HEIN? EU NÃO PEDI PRA VOCÊ RASPAR A CABEÇA! EU NÃO PEDI QUE VOCÊ TIVESSE PIEDADE DE MIM! NINGUÉM PRECISA TER PENA DE MIM!
― Olha, desculpa! Desculpa, eu sei!
― Você fica falando que a gente vai passar por tudo juntos! Mas isso é mentira, Rafa! ― Eu disse me levantando nervoso. ― VOCÊ NÃO VAI PASSAR POR DEZ POR CENTO DO QUE EU PASSEI E TÔ PASSANDO! LÁ EM CASA TÁ UM INFERNO!
― Para de gritar, Lu! Se acalma! ― Ele disse me segurando pelos pulsos e me fazendo sentar de novo. ― Calma! Calma! Não precisa gritar, fala o que você quiser, mas sem gritar!
― Tá um inferno lá em casa! Porra! Nós só brigamos, meu pai quer me trocar de escola, minha mãe tá grávida, sabia disso? Sabia disso? Sabia que eu vou ter um irmão? Pois é!
― ―
314
― Sua mãe tá grávida? ― Ele perguntou confuso.
― SIM! ESTÁ!
― Calma, Lu! Calma! Por que você não me disse?
― Por que você ia querer saber dos meus problemas?
― Ah, vai tomar no cú! Por que você faz isso?
― Isso o que?
― Acha que todos os problemas do mundo são seus! E acha que tudo é culpa sua!
― Não faço isso!
― Faz sim! Toda hora! Você não aceita ajuda dos outros! É egoísta e arrogante! Tudo isso por que se acha melhor que os outros! ― Rafa jogou na minha cara.
― Não me acho nada!
― Se acha sim! Você é muito metido porque estuda de graça na Nova Aliança! E você se acha mais inteligente que os outros e não aceita ajuda de ninguém! Nem de quem te ama!
― Cala a boca! ― Gritei.
― Cala a boca você! ― Ele gritou.
― E você? E VOCÊ? Que fica achando que entende o que eu estou passando, quando seus pais te amam, teu irmão te ama, você tem uma família, tem dinheiro pra caralho, sabia que eu vou ter que trabalhar? Sabia que eu vou ter que trabalhar pra poder dar uma condição de vida melhor para o meu irmão? Sabia que se não for eu, meu irmão vai ser tratado igual lixo pelos meus pais, igual eu sou? Você acha que entende isso? Acha?
― Eu só quero ajudar!
― Eu não quero sua ajuda!
― Não quer porque é egoísta… e arrogante… e metido… e se acha melhor que os outros!
― Metido? Metido é você! Que é o loirinho descolado da escola! Que raspa a cabeça por solidariedade! Você gosta é de chamar atenção! Você sempre quer ser o centro das atenções!
― Para de falar merda!
― Para de falar merda você! ― Gritei. ― Porra! Para de falar merda você! Seu idiota! IDIOTA! IDIOTA! IDIOTA! IDIOTA!
Daí o Rafa ficou em silêncio me olhando sem graça. E aí eu percebi como era fácil machucar alguém quando se ama… como foi fácil falar as piores verdades na cara… fácil e ao mesmo tempo difícil… que situação complicada que estávamos…
Tentei recuperar meu folego. Eu estava em pé, vermelho de tanta raiva… e o Rafa estava sentado no banquinho me olhando atentamente.
― Porra… ― eu disse por fim. ― Acho que é isso, então… tudo bem se você quiser terminar… já estou cheio disso. ― Eu disse.
Ele continuou em silêncio… daí ele olhou para o chão e ficou pensativo. Eu, sem saber o que fazer, me sentei ao lado dele e fitei o horizonte.
― Tá… ― ele disse.
― Tá o que? ― Eu perguntei, me corroendo de medo por dentro dele estar aceitando o termino do nosso namoro.
― Eu vou tentar melhorar… olha… desculpa… eu não sabia que você estava assim… nessa situação… eu só quis ajudar… desculpa por cortar meu cabelo também… eu achei que você ia ficar feliz com isso…
― Eu fiquei, Rafa… eu juro, de coração… eu gostei da sua atitude… mas não precisava mesmo… foi desnecessário… isso com o meu pai… não era pra você se preocupar…
― Mas eu me preocupo! O que tem de errado nisso?
― Nada!
― ―
315
― Então!
― Eu sei! Também fui um idiota em não aceitar sua ajuda… é que eu sempre tenho a impressão de que você sempre tem tudo que quer… e isso me deixa muito chateado… porque você tem tudo… inclusive eu…
― Não… Lu… não fala isso… se eu pudesse, você sabe que eu mudaria isso… e eu não tenho tudo que eu quero… eu quero que você seja feliz também… eu quero que seus pais nos aceitem tanto quanto você quer! Você acha que eu não quero isso?
― Não sei…
― Claro que eu quero! Eu sei que meus pais me aceitaram de boa… mas essa vitória foi nossa… não foi só minha… não foi só eu que fui beneficiado com isso… você também ganhou quando eles nos aceitaram! Nós dois ganhamos! Você sabe que eles gostam de você! Entende? Meus pais gostam de nós dois…
― E os meus não gostam de nenhum de nós…
― Exato! Viu? Ninguém sai no prejuízo… tá… eu sei que pode parecer que você está na pior, mas não está! Você também tem pessoas que te amam… eu te amo… você sabe disso, Lu… poxa… eu nunca na minha vida te desejei mal… e eu nunca na minha vida quis ter mais que você… se é assim, é porque a vida quis… e eu não acredito que seja… eu não tenho mais que você… já que estamos abrindo nossos corações aqui… eu tenho medo de uma coisa… olha… eu gosto muito de você… e sei que nunca vou parar de gostar… e nós dois aqui sabemos que você não precisa de mim… nós dois aqui sabemos que, se a gente terminasse, você superaria primeiro… eu sinto isso… talvez porque você seja mais maduro que eu…
― Não fala isso, Rafa… você tá falando um monte de besteiras… se a gente terminasse, você que superaria primeiro… Rafa… você é perfeito… você pode ter quem quiser nos seus braços, quando quiser… eu não tenho um por cento da sua habilidade em conversar, conquistar, seduzir, sei lá o que você faz… mas você faz isso muito bem… você é o tipo de pessoa que escolhe com quem fica… e eu também tenho medo de você me deixar… porque eu não sei se conseguiria namorar outro garoto… não me vejo passando por tudo que eu passei com você de novo… é demais pra mim… às vezes eu fico pensando que… se a gente terminar… eu vou morrer sozinho…
Daí ele começou a rir.
― O que foi? ― Perguntei.
― É que… acho que nós dois somos muito bobos…
― Por que? ― Perguntei.
― Porque eu acabei de confessar que, se você me deixar, eu acho que vou morrer de depressão e você acabou de confessar que, se eu te deixar, você vai morrer sozinho… não percebe, Lu? Esse tempo todo nós dois estávamos com medo da mesma coisa? E você pode ter certeza de que eu nunca vou te deixar… tá? Por nada nesse mundo…
― Eu também não vou te deixar, Rafa… por nada nesse mundo…
Daí eu desviei os olhos dele e olhei para o chão.
― Agora foi eu quem me senti te pedindo em casamento… ― eu disse e ele riu.
― Se quiser… eu caso…
― Claro! ― Eu disse. ― Daí podemos nos mudar para uma casa nova, ter filhos e, se pá, netos… eu ficaria livre da minha família… teríamos o dinheiro da sua… o que pode dar errado? ― Perguntei rindo.
― Não é? O que pode dar errado?
Daí começamos a rir das besteiras que estávamos falando.
― Aí, aí… então, Lu… me desculpa, viu… ― ele disse. ― Me desculpa por tudo…
― Claro, pô… não precisa nem falar nada… eu é que peço desculpas…
― ―
316
― Nada… ― ele disse tímido. ― Não vamos brigar nunca mais… pode ser?
― Aham… ― concordei.
Daí ele me olhou nos olhos e disse:
― É… posso te dar um beijo? ― Ele pediu.
― Por que tá pedindo? ― Eu perguntei rindo.
― Ué… da última vez que te beijei, você quase me bateu… ― Daí eu ri.
― Sim, você pode me dar um beijo… ― eu disse.
Daí fechei os olhos e me aproximei do seu rosto. Nossos narizes se tocaram e eu senti ele expelir sua respiração quente em cima de mim. E, finalmente, nossos lábios se encostaram e selaram a nossa reconciliação. Eu nunca estivera tão leve e livre como estava agora. Foi libertador poder dizer tudo que eu sentia para ele. Foi libertador pedir e receber perdão. Estávamos, pela primeira vez depois de muito tempo, felizes.
Nesse momento, minha família parecia ser um problema insignificante na minha vida… eu estava entregue ao momento. Eu não queria que esse momento terminasse nunca.
Que saudade que eu estava dessa boquinha dele… desse gostinho delicioso e perfeito de menino loiro… de Rafa…
Seus lábios estavam úmidos e quentes… e o contato do seu rosto com o meu era enlouquecedor. Logo eu passei minhas mãos pelo seu corpo e o pude sentir livremente… ele fez o mesmo.
― Quer entrar? ― Ele convidou.
― Quero. E Gabriel?
― Tem mais de um quarto lá dentro… só temos que evitar o principal…
― Então vamos… ― eu disse já ficando excitado.
Ele se levantou primeiro, estendeu a mão e eu a peguei. Nossos dedos se entrelaçaram e fomos de mãos dadas até o casarão da chácara.
Chegando lá, entramos de fininho e o Rafa fechou a porta atrás de mim. Nos adentramos na casa de mãos dadas e exploramos o espaço por alguns segundos.
― Ali! ― Rafa disse e apontou para uma porta. ― Acho que ali deve ser um quarto.
Nós dois andamos juntos até a porta e, quando o Rafa foi colocar a mão na maçaneta, eu o segurei pelo pulso. Ele me olhou confuso e eu coloquei o dedo na boca, fazendo sinal de silêncio.
― Shhhh!
Daí encostei minha orelha na porta e pude ouvir gemidos.
― Aawwwwn! Awwwwn! ― Gemia uma voz de garota.
Rafa encostou o ouvido na porta e ouviu o que eu acabara de ouvir.
― Porra! Esse é o quarto principal, então… ― ele disse.
― A coisa está quente ali… ― eu disse baixinho para ele.
― Ah, cara… que nojo… é meu irmão fazendo sexo…
Ele podia até achar nojento, mas eu estava incrivelmente excitado ouvindo os dois transarem atrás da porta. Tentei imaginar a cena e acabei mordendo meu lábio inferior.
― Adoro quando você faz isso… ― Rafa disse.
― Faço o que? ― Perguntei.
― Isso…
Ele disse e se aproximou de mim. Daí ele deu uma mordidinha de leve no meu lábio inferior também.
― Auuuu! ― Eu reclamei.
― Doeu? ― Ele perguntou.
― Não… foi gostoso… ― confessei.
― ―
317
― Foi gostoso, é? ― Ele perguntou sendo sedutor.
― Foi… foi gostoso… ― Respondi.
― Hum… imagina quando eu te morder em outro lugar…
― AAAWWWWWNNN! ― Ouvimos a garota gritar de prazer do outro lado da porta.
― Morder? Morder aonde? ― Perguntei.
― Que tal aqui? ― Rafa disse e levou sua boquinha até meu pescoço, dando uma mordiscada.
― Nossa… isso foi bom… ― eu disse fechando os olhos e passando as mãos pelo seu corpo.
― E que tal aqui… ― ele disse e levou sua boquinha até minha barriguinha, dando outra mordiscada.
― Au… ― eu disse completamente louco de tesão.
― Vamos logo pro quarto? ― Ele ofereceu.
― Demorou… ― concordei.
Daí, quando nós nos viramos para ir embora, Rafa olhou para trás e disse:
― Ei! Olha! É a mochila do Gabriel!
Eu olhei para trás e vislumbrei uma mochila encostada na parede, ao lado da porta.
― O que tem? ― Perguntei.
― Ele guarda camisinhas no bolso da frente.
― Como sabe? ― Perguntei.
― Não me pergunte… ― ele disse com uma voz safada.
Rafa foi até a mochila, se ajoelhou e abriu o zíper da frente. Ele retirou uma sacolinha verde recheada de camisinhas.
― Seu irmão é um safadinho! ― Eu disse rindo.
― Quer escolher? ― Ele perguntou.
― Não, pega qualquer uma e vamos logo para o quarto! ― Eu implorei.
― Pra você vou pegar uma extra lubrificada, porque não quero sofrer… e pra mim vou pegar essa extra grande… pra caber tudo… ― Daí eu ri da idiotice dele.
― Até parece que esse toquinho seu precisa de uma camisinha dessas… ― Daí ele riu e disse:
― Então pra mim vou pegar essa texturizada… imagina como deve ser…
Como resposta mordi meu lábio inferior novamente sem querer.
― Ei! Olha só! Olha o que ele tem aqui!
― O que? ― Perguntei curioso.
Ele me mostrou um tubinho escrito KY.
― O que é isso? ― Perguntei.
― Não leu aqui? Gel lubrificante!
― Lubrificante? Lubrificante, lubrificante?
― Sim! Dizem que é melhor que óleo…
― Dizem? ― Perguntei rindo. ― Quem disse?
― AAAWWWWWWNNNN! ― A menina gemeu quase gritando novamente.
― Ela disse! ― Rafa disse rindo. Daí eu ri da idiotice dele novamente. ― Já experimentei KY… não é a primeira vez que fuço na mochila do meu irmão…
Nessa hora, me deu um tesão enorme em imaginar o Rafa mexendo na mochila do irmão e se masturbando com KY roubado.
― Então vem logo! ― Eu o chamei. ― Precisamos mostrar pra essa mina o que é gemer de verdade!
― ―
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― Você não vai gemer, não é? ― Ele perguntou preocupado. ― Lucas… meu irmão tá aqui…
― Só não vou gemer pouco!
― Ai droga… ― Rafa disse e se atirou em mim.
Nós fomos nos beijando até o primeiro quarto vazio que encontramos. Entramos e o Rafa passou a chave na porta, trancando-a. Tinham duas camas de solteiro nesse quarto, mas isso não era um problema… não seria a primeira vez que transaríamos numa cama de solteiro.
Fomos andando nos comendo pela boca até chegarmos na cama. Caímos juntos e o Rafa já foi me encoxando com tudo. Senti seu voluminho duro e delicioso latejar dentro de suas calças.
O quarto estava escurinho e era iluminado apenas pelos míseros raios de luz que penetravam a janela nesse horário do dia. Rafa agarrou minha camiseta e puxou, para que eu saísse de dentro dela. Ele me deixou de peito nu e me cobriu de baba com seus beijos desesperados dados em todas as partes do meu corpo.
Agarrei sua cabeça… senti falta de seus cabelos loiros que eu amava agarrar enquanto ele experimentava do meu corpo.
Daí ele se sentou bem em cima de mim, e retirou sua camiseta. Eu botei a mão em suas coxas deliciosas enquanto ele dava umas reboladinhas em cima de mim. Ele se inclinou para me dar um beijo e eu senti seu peito nu com as mãos. Como eu sentira falta dessa carne branca de menino… meu deus… era enlouquecedor.
Senti sua língua invadir minha boca enquanto ele colava seu peito ao meu. Abracei ele com todas as minhas forças e senti suas costas nuas percorrem meus dedos. E que língua gostosa era essa… que se separou da minha boca e começou a lamber todo meu corpo. Sinto que ele passou essa língua por todo e qualquer centímetro quadrado pertencente ao meu corpo… e como foi bom isso.
Daí ele desabotoou minha bermuda e a agarrou pelos lados. E puxou até que eu ficasse só de cuequinha em cima da cama. Tinha uma manchinha de pré-porra, que tinha começado a se formar, na minha cueca.
Ele logo tratou de sair de dentro de sua bermuda também, ficando só de cuequinha para mim.
― Fica de quatro! ― Ele ordenou.
Eu, que estava deitado de barriga para cima, me virei e fiquei de barriga para baixo. Ele me agarrou pela cintura e me puxou, até que minha bunda batesse em sua virilha quente. Senti sua ereção por baixo da cueca latejar de prazer. Ele abaixou minha cuequinha até os meus joelhos e saiu de dentro da sua. Daí foi atrás de mim e me encoxou de uma forma deliciosamente gostosa. Senti a pontinha de seu pau me tocar, estava molhadinha de pré-porra.
Não resisti… eu, que estava de quatro, me virei, terminei de sair de dentro de minha cuequinha, e agarrei o corpo dele com as pernas. Ele caiu em cima de mim e sua boca veio direto de encontro com a minha. Daí começamos a nos pegar completamente pelados na cama. Foi bom cara… foi muito bom… meu deus… enlouquecedor…
Só que eu não podia ficar assim por muito tempo… eu quase gozei umas três vezes… tive que me segurar com todas as minhas forças para não explodir enquanto rolava na cama pelado com meu gatinho. Até que finalmente nos soltamos e ele me botou de quatro novamente.
― Ah, cara… isso vai ser bom…
Ele disse e abriu o pacotinho de uma camisinha texturizada da Jontex… daí ele vestiu e pegou o tubinho de lubrificante KY. Ele passou KY no seu pintinho do mesmo jeito que passamos pasta numa escova de dentes… daí ele esfregou o lubrificante por toda extensão de seu
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pintinho. Depois ele pingou mais algumas gotas do gel no dedo e levou até meu cuzinho. Ele esfregou lá e foi delicioso… o gel era meio geladinho e gosmento… um tanto quanto gelatinoso… ele chegou até enfiar um pedacinho do seu dedo dentro de mim, enquanto me lubrificava… foi ótimo.
Até que, por fim, ele me agarrou pela cintura de jeito e foi com tudo pra dentro de mim. Sua piroquinha entrou incrivelmente fácil… era um milagre do lubrificante… e ele conseguiu me atingir fundo… me pegou de jeito… foi extremamente prazeroso ser penetrado por ele.
O que fez tudo ficar mágico e maravilhoso foi o lubrificante, porque… pra falar a verdade, não senti porra nenhuma de textura de camisinha… não senti diferença alguma… era como se ela fosse lisinha mesmo… quer dizer… lisinha, lisinha não era… mas não era texturizada o suficiente para me fazer sentir um prazer diferente… foi normal…
O Rafa me deu umas três estocadas e saiu de dentro de mim. Daí ele passou mais lubrificante e meteu de novo. Nossa… era incrivelmente bom e confortável fazer sexo com um lubrificante anal adequado… a partir de agora, nada mais de creme para cabelo, óleo de bebê ou saliva… meu deus… era incrivelmente prazeroso sexo anal com KY…
― Aaawnnnnn… ― gemi.
― Eita porra… só não vai gritar! ― Rafa disse quando eu comecei a gemer.
Senti minha pré-porra fluir livremente pelo meu pau enquanto ele se acabava ali atrás de mim. Ele começou a acelerar os movimentos e isso foi me deixando com cada vez mais tesão. Eu estava morrendo de vontade de gozar, mas tentei me segurar, afinal, eu ainda queria comê-lo.
― NOSSA! ― Rafa disse enquanto intensificava cada vez mais seus movimentos. ― UAU! ISSO TÁ MUITO GOSTOSO! AAAAAAWWWNNN!
― Ué, não era você que não queria gritar? ― Perguntei.
― Foda-se! Eu grito! Eu grito o que você quiser! ― Ele disse tangendo a loucura. ― AAAAAWNN! ― Ele gemeu num quase grito.
Daí ele retirou seu pinto de dentro de mim. Eu olhei para trás, para ver o que ele estava fazendo e ele retirou a camisinha.
― Quero fazer sem… quero te sentir de verdade… ― Ele disse.
Daí ele botou mais lubrificante no seu pinto desprotegido e mandou pra dentro. De fato, sentir seu pintinho nu era bem melhor… nossa… que sensação era essa que eu estava sentindo, cara!
― NOOOOSSAAAA! ― Rafa gritou. ― AAAAAAAAAWNNNNNN! ― Ele gemeu.
― Aaaaawnnnn! ― Gemi também.
E ele começou a intensificar o vai e vem cada vez mais. A glande dele explorava meu cuzinho vorazmente e ele metia até onde dava… senti seu saquinho bater em mim ritmicamente e ele me segurar com cada vez mais força. Minha próstata estava sendo tão bem estimulada que eu vazava sem parar. Meus olhos se reviravam de tanto tesão e eu não sabia mais nem quem eu era. Eu só queria saber de dar pra ele… para o resto da minha vida.
Foi assim até ele gozar e inundar meu cuzinho de porra pré-adolescente. Ele, que já estava com seu corpo meio suadinho, por causa do calor do quarto, gemeu como alguém que experimentava o orgasmo pela primeira vez.
― AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAWWWNNNN! ― Ele gemeu enquanto se aliviava dentro de mim.
Ele abraçou meu corpo e se jogou em cima de mim. Nós dois caímos na cama e ele continuou me abraçando por trás.
― Porra! Isso foi bom, cara! ― Ele disse.
― Imagino! ― Eu disse. ― Minha vez? ― Perguntei.
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― Já? ― Ele disse ainda desorientado por causa do orgasmo forte que estava experimentando até agora.
― Sim! ― Eu disse me afastando dele.
Senti o seu pauzinho sair de dentro de mim e senti também a porra quente escorrer pelo meu cuzinho.
― Vira! ― Eu ordenei.
Ele foi ficando de quatro, mas eu tive uma ideia melhor.
― Não! Não vira não, quero fazer de frente pra você! ― Eu disse enquanto abria a camisinha extra lubrificada da Jontex.
Vesti e lotei meu pau de lubrificante. Enquanto isso, o Rafa se deitou de frente para mim e abriu as pernas um pouquinho. Eu fui direto nele e meti com tudo… eu estava precisando disso… eu precisava me aliviar…
Comer ele com lubrificante era tudo de bom também… meu deus… como era gostoso a sensação de entrar e sair livremente de dentro dele. O cuzinho dele era muito quente, apertadinho e gostoso… eu podia sentir ele latejar de prazer… eu estava comendo ele com vontade… daí nós dois começamos a gemer novamente.
― Aawnnn! Awwwn! ― Eu gemia.
― Aaaaa! Aaaaawnn! ― Ele gritava.
E nossos corpos suados começaram a se movimentar com cada vez mais intensidade a medida que eu metia nele.
― Nossa… nossa… Rafael! ― Eu gritava o nome dele.
Meu deus! Como era bom fodê-lo assim! Meu deus! Eu estava no limite da sanidade ali fodendo ele. Uma sensação incrivelmente boa e viciante tinha tomado conta de mim… do meu corpo… do meu peito…
Me inclinei para poder beijá-lo e meti a língua na sua boca. Boca, que por sinal, era incrivelmente deliciosa e gostosa de se beijar…
Trocamos saliva intensamente… foi uma babação que só vendo… se você fosse fã de baba de menino, provavelmente ficaria vidrado com a cena. Foi maravilhoso…
E eu comi ele até gozar… só que eu não fui ágil o suficiente como ele para conseguir retirar a camisinha antes de gozar… simplesmente aconteceu… eu explodi dentro dele e a sensação de alivio que se seguiu foi uma das melhores coisas que eu já senti na vida… foi excepcionalmente bom!
Senti a camisinha se encher com meu esperma quente enquanto eu tremia com a forte onda de orgasmo que tomava conta do meu corpo.
― Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! ― Gemi e gritei como nunca.
Pronto! Agora eu estava acabado mesmo… destruído por fora, mas deliciosa e imensuravelmente satisfeito e feliz por dentro.
― Puta que me pariu… isso foi bom, cara… ― eu disse.
― E como! ― Ele concordou.
Eu saí de dentro dele, retirei a camisinha e joguei no chão mesmo…
― Putz… putz… ― eu disse ainda tentando recuperar o fôlego.
Eu me ajeitei na cama pra ficar confortável e abracei ele por trás. Ficamos deitados de conchinha por um instante. Enfiei meu braço por baixo do dele até alcançar sua mão. Daí nossos dedos se entrelaçaram.
Não falamos nada… nem precisávamos… queríamos apenas curtir a presença um do outro… felizes da vida… e foi o que aconteceu. Ficamos deitados por uns quinze minutos até eu ouvir o Rafinha roncar.
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Dei uma cheirada no seu pescoço e depois o beijei. Cuidadosamente, soltei sua mão e retirei meu braço, que estava embaixo do dele. Ele se remexeu na cama, mas não chegou a acordar. Eu peguei minha cueca que estava no chão e vesti. Depois joguei um lençol em cima dele e fui atrás da minha bermuda. Ela também estava no chão… apanhei-a e vesti.
Olhei para meu gatinho, que dormia serenamente ali na cama, e saí do quarto. Eu estava com sede e ia atrás de água, afinal, tínhamos suado pra caralho na hora do sexo. Eu ainda podia sentir seu suor em meu corpo. Daí destranquei a porta do quarto e saí.
O restante da casa, diferentemente do quarto, estava demasiadamente claro e frio. Lá dentro do quarto estava abafado, quente e escurinho. Daí eu fui até a cozinha da chácara de pé no chão e sem camisa mesmo.
Chegando lá, abri a geladeira, mas ela estava vazia… era de se esperar… ninguém estava morando aqui… mas vi que ali havia um filtro. Daí vasculhei os armários até encontrar um copo.
Enchi o copo de água e olhei a chácara pela janela da cozinha… era realmente um lugar lindo.
― Oi! ― Ouvi uma voz me chamar.
Olhei para trás e vi Gabriel… ele estava sem camisa e sem bermuda… ele estava usando apenas um samba-canção azul claro. Tentei não olhar, mas assim que bati o olho em seu corpo, pude contemplar um volumão no seu shortinho e uma mancha de porra na região que deveria estar a cabeça de seu pau.
― Oi… ― eu disse enquanto tentava afastar os pensamos proibidos da minha mente.
― Pelo visto vocês fizeram as pazes… né? ― Ele perguntou.
― Ah… é sim… obrigado, Gabriel… graças a você, fizemos as pazes. ― Eu disse feliz por isso ser verdade.
― E pelo que eu ouvi, a coisa foi boa…
Nessa hora eu virei um pimentão, de tão vermelho.
― Ah, cara… você ouviu?
― Um pouco… ― Ele disse. ― Só na hora que vocês gritavam… ou seja… quase o tempo todo…
― Ah, cara… essas paredes são o que? De papel?
― De gesso, na verdade… ― ele disse rindo. ― Relaxa, não conto pra ninguém o que ouvi.
― Ah, cara… que vergonha… ― Eu disse escondendo a cara.
― Vergonha de que, Lu? Estou feliz por vocês… fico feliz que meu irmãozinho não seja um cabaço completo… e por falar nele… cadê ele?
― Pegou no sono… ― Eu disse.
― Aff… típico dele… dormir… claro que ele dormiria depois do sexo…
― E sua amiga? ― Perguntei.
― Tá acabada lá na cama também… ― ele disse rindo. ― Foi a primeira vez dela…
― Jura? ― Perguntei surpreso… ela tinha uma carinha de rodada…
― Sim… estava muito nervosa, tadinha… mas acho que ela gostou… só sentiu um pouco de dor… mas normal…
― Eita… ― eu disse sem saber muito bem o que responder. ― Então quer dizer que você veio aqui tirar a virgindade de uma menina e aproveitou para trazer seu irmão e o namorado dele para brincarem também? ― Perguntei rindo.
― Sim… tipo isso… sou uma pessoa má? ― Ele perguntou.
― Se for, agradeço sua maldade… ― eu disse rindo.
― Hahaha… ― Ele riu.
― Eu gosto de você, Lu… ― ele disse.
― ―
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― Eu também gosto de você, Gabriel…
Ele estendeu os braços e eu fui abraça-lo. Foi um abraço rápido, mas foi gostoso.
― Vamos ver se o Rafa volta ao normal agora… ― ele disse.
― Ele vai voltar.
― Ele tava muito chato, ultimamente, sabe?
― Eu sei…
― Sabia que ele se culpa por você ter ficado careca?
― Como assim?
― Ah… ele acha que foi culpa dele… que não te protegeu o suficiente… que foi porque vocês estavam namorando que tudo aconteceu… sei lá… na cabecinha dele é culpa dele… você não devia exigir demais dele, sabe?
― Eu sei… já superamos isso… não estamos mais brigados… prometemos nunca mais brigar…
― Promessa um tanto burra… ― Gabriel disse.
― Burra? Por que? ― Perguntei.
― O que é um relacionamento sem brigas? Sem brigas não há progresso… vai falar que essa briga com o Rafa não te lavou a alma?
― Ah, olhando por esse lado…
― Estou falando sério… as vezes uma briguinha faz bem, sabe? Pra jogar na cara tudo que há de ruim no relacionamento e os dois melhorarem…
― Nossa, Gabriel… você é muito evoluído… ― eu disse rindo.
― Evoluído? ― Ele perguntou rindo do meu adjetivo.
― Sim… hahaha…
― Sou só vivido…
― Tomara que o Rafa fique assim quando crescer… ― eu disse timidamente.
― Não sei… eu já era assim na idade dele… coisa de irmão mais velho, eu acho.
― Ah… acho que eu te entendo… mas não vamos perder as esperanças, né? ― Eu disse rindo. ― E tomara que ele fique tão bonito quanto você também… ― deixei escapar.
― Eita… ― Gabriel ficou sem jeito.
― Ah… não… não leva pra esse lado… eu te acho bonito sim, mas você não faz meu tipo… ― confessei.
― Ah, é? E qual é seu tipo? ― Ele perguntou interessado.
― Garotos, digamos… um tanto quanto menores. ― Eu disse rindo.
― Hum… ― ele disse. ― Entendi.
― É… quanto mais novo, melhor… ― eu disse brincando.
― Sei… ― ele disse. ― Bom, de qualquer maneira… foi bom conversar com você, Lu… mas uma menina me espera para um segundo round.
― Hahaha… sorte a sua… ― Eu disse. ― Meu companheiro está é no segundo round do sono…
― Ai, ai… só vocês dois mesmo, viu… ― ele disse rindo.
Depois dessa nossa conversa, Gabriel voltou para o quarto principal enquanto eu voltei para meu quartinho com o Rafa. Me deitei atrás dele e passei minha mão em volta de sua barriga. Cheirei novamente seu pescoço gostoso e dei mais um beijinho nele.
Fechei meus olhos e pensei um pouquinho sobre a vida… eu só não podia dormir e perder a hora, pois senão eu estaria encrencado… e não foi justamente isso que aconteceu?
Depois de parecer dormir infinito, acordei assustado. O quarto estava mais escuro que o normal. Era noite. Deviam ser umas sete da noite. Merda! Merda! Meus pais já deviam ter chegado em casa faz tempo!
― ―
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Me espreguicei e acordei o Rafa:
― Rafa! Ei! Rafa! Ei! Gatinho!
Ele acordou com uma carinha de sono irresistível.
― Meu amor… temos que ir embora…
― Nossa… que horas são? ― Ele perguntou.
― Tarde. ― Respondi. ― Vou chamar seu irmão.
― Dá tempo de uma rapidinha? ― Rafa perguntou.
Eu ri e dei uma apertada em sua bundinha pelada.
― Não, meu delicia… se veste logo aí! Vou chamar Gabriel…
Eu saí do meu quarto e fui até o quarto principal. A porta estava fechada. Daí eu bati na porta e ninguém respondeu. Eu abri devagarinho e estava tudo escuro. Abri a porta o suficiente para iluminar o quarto um pouquinho e ver Gabriel dormindo abraçado com a garota.
― Gabriel! ― Eu o chamei. ― Ei! Gabriel!
Ele abriu os olhos e me olhou confuso.
― Temos que ir!
― Ah… foi mal, Lucas… peguei no sono… desculpa!
― Não tem problema! ― Eu disse. ― Não precisa se apressar, já estou atrasado mesmo…
― Tá… ― ele disse.
Daí eu saí e fechei a porta. Voltei para o meu quarto e me deitei novamente com o Rafa sonolento.
― Oi, gatinho… ― eu disse pra ele. ― Agora você tem que se trocar, meu amor… ― eu disse carinhosamente.
― Ah… vamos ficar aqui pra sempre… por favor! ― Ele implorou.
― Quem me dera, meu gatinho… quem me dera… ― eu disse rindo.
Dei um abração nele e uns mil beijos em seu pescocinho cheiroso. Ele tinha um cheirinho de menino deliciosamente irresistível. Daí ele se levantou e começou a se trocar para irmos embora.

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4 Comentários

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  • Responder tesão gay ID:3ij0y0lim9a

    torçendo para que de tudo certo.

  • Responder Keno ID:1dawlywqrc

    Valeu a pena por esperar quem dera eu poder ter um amigo assim como o Miguel ou qualquer outro que sempre tenha atitude como o Igor, Miguel e Arthur, mesmo que fosse só para conversar mesmo até pq onde moro simplesmente não tenho amigos, mas estou ansioso pelos próximos capítulos mesmo que demorei para postar estarei esperando ansioso espero que o mundo não se incomode por homossexuais seria bem melhor do que estamos vivendo hj em dia se bem que pelo que ouvi falar já teve tempo onde era errado mas não que tenha mudado hj em dia muita coisa mas já tem algumas leis que ajudam e tbm tem o respeito de uma boa parte da população

  • Responder Rluv ID:7xbyrj5vv1

    É bom acompanhar a história, Gabriel é um irmão da porra. Só espero que não dê tanta merda pro Lucas. Ainda tô torcendo pra o Arthur kk

  • Responder Tommen ID:vpdk7chl

    Masterpiece, como sempre. Valeu a pena a espera.