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Vida 01

2513 palavras | 2 |4.60
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A descoberta da minha homossexualidade se deu com o início da puberdade. Por volta dos 11 anos, as mudanças no meu corpo começaram a acontecer e eu passei a sentir interesse por garotos.
Na escola nós tínhamos aula de Ciências, onde aprendíamos sobre o corpo do homem e o corpo da mulher e eu sempre me interessava pelo lado masculino, deixando o feminino em segundo plano. Sempre que eu via um garoto bonito, sentia algo dentro de mim, só não sabia dizer o que era aquele “sentimento”.
Tudo foi se aflorando com o passar do tempo. Com 14 anos eu já tinha certeza da minha orientação sexual, mas não tinha coragem de contar nada pra ninguém e tampouco alguém desconfiava de alguma coisa.

O único que talvez pudesse ter uma “pulga atrás da orelha” era o meu irmão gêmeo. Cauã. Idênticos no físico e totalmente diferentes no psicológico. Irmãos gêmeos normalmente têm algo que os diferenciem, mas comigo e o Cauã isso não acontecia.
Éramos – e somos – realmente muito idêntico. Só o que muda, ou melhor: mudava, era nosso caráter e a forma como enxergávamos a vida, mas hoje em dia nem isso nos torna diferentes. Desde crianças sempre estudamos na mesma sala de aula e isso muitas vezes foi motivo de brigas e desavenças entre nós dois.
Eu fazia a linha do “politicamente correto” e ele a do “bad boy pegador”. Cansei de vê-lo aos beijos no pátio do colégio, cada dia com uma menina diferente. Aquilo me dava nojo e às vezes me fazia ficar irritado.

– Você vai me emprestar a matéria de hoje? – ele perguntou, assim que nós chegamos em casa.
– Não deveria. Ninguém mandou você matar aula pra ficar beijando a Nataly.
– O que é agora? Tá com ciúmes só porquê eu passo o rodo e você não pega ninguém?
– Não, não estou com ciúmes. Só não acho certo você matar aula pra ficar fazendo essas coisas.
– Para de ser idiota, irmãozinho! A vida é feita pra ser vivida e eu quero é curtir. Me empresta logo esse caderno, vai?

Eu sempre caía no joguinho dele. Não sei se por dó, ou por pura camaradagem.

– Muito bem, é assim que se faz.

O tempo foi passando e a vontade de contar a verdade começou a surgir dentro de mim, entretanto, eu não sabia como deveria fazer aquilo.
Meus pais eram muito conservadores. Minha mãe, Fátima, era do tipo de pessoa que acreditava que as mulheres deviam casar virgens. Já o meu pai, Edson, era extremamente preconceituoso; em todos os sentidos. Ele era do tipo de pessoa que não gostava de negros, evangélicos e principalmente, de gays. Nem deixar a minha mãe trabalhar fora de casa ele deixava.
Às vezes eu tentava me relacionar com garotas e até ficava com algumas, mas nunca senti absolutamente nada ao fazer aquilo. Confesso que fiquei com meninas primeiramente pra comprovar o que eu já tinha certeza e também para tentar mascarar a minha realidade.
E até que funcionou por algum tempo.

Meu irmão se gabava demais por pegar quase todas do colégio. Não sei como ele conseguia aquela façanha. Talvez fosse pelo fato dele chamar a atenção. Cauã era do tipo de adolescente que despertava o interesse das garotas por onde passava. Bonito, popular e com fama de galinha. Prato cheio para as periguetes de plantão.
Eu também tinha a minha popularidade, embora não saísse tanto como o meu irmão. Talvez a nossa semelhança chamasse a atenção das pessoas do colégio, afinal éramos os únicos gêmeos daquele lugar e por causa disso, tanto Cauã como eu vivíamos rodeados de amigos.

Mas foi só aos 16 anos que eu conheci o garoto que fez a minha vida dar um giro de 360º: Víctor. Nosso santo bateu desde o primeiro momento em que nos vimos, no primeiro dia de aulas do 2º ano do Ensino Médio. Como ele era novo na escola, ficou completamente perdido e sem amigos e por esse motivo eu resolvi puxar assunto e desde então não nos desgrudamos mais – só quando fui pro Rio de Janeiro, é claro –.
Em menos de uma semana, descobri que Víctor também era gay, mas não abri o jogo sobre a minha homossexualidade.
Não naquele momento. Ele descobriu só no meio do ano:

– Por que não me contou isso antes? – perguntou, irritado. – Pensei que você confiasse em mim…
– Eu confio em você, mas não contei por medo…
– Medo de quê? Você acha que eu vou sair espalhando por aí?
– Não. Não é isso. Não sei te explicar. É complicado…
– Sei que é.
– Não está bravo comigo, está?
– Decepcionado – confessou.
– Desculpa, Víctor. Eu queria ter te contado isso antes, mas não me sentia à vontade, entende?
– Pior que eu entendo. Tá, tudo bem. Eu te perdoo.

Senti um alívio enorme dentro do meu peito.

– Promete que não vai falar isso pra ninguém? – implorei.
– Fica tranquilo. Eu te encubro e você me encobre.
– Fechado!!!

Ficamos combinados daquele jeito, porém nosso segredo não durou por muito tempo. Víctor começou a sair com um garoto do 1º ano e praticamente a escola toda ficou sabendo do acontecido.
Quando o Cauã soube daquela história, foi logo contando pros meus pais, que quase tiveram um troço em saber que eu andava com um garoto gay:

– Não quero que você tenha amizade com esse tipinho, Caio – meu pai esbravejou. – Pode parar de andar com esse… esse… esse inseto!
– Não vou parar de andar com ele não – respondi na lata.
– Como é que é? – Edson ficou vermelho de ódio.
– Sinto muito, você não pode escolher as minhas amizades. Eu ando com quem eu quiser e falo com quem me der na telha!
– Ah, não vai parar não?
– Não – o desafiei.
– Veremos!!!

Praticamente todos os dias meu pai me ameaçava de alguma forma e aquilo foi me deixando preocupado. Se ele estava possuído só em saber que eu tinha um amigo gay, o que faria quando soubesse que eu também era homossexual? O que será que ia acontecer comigo? E a minha mãe? O que acharia? E o Cauã??? Eu me senti num beco sem saída. Me senti com uma bomba nas mãos que poderia explodir a qualquer momento e eu realmente não sabia quais seriam as proporções que aquela história teria quando a bomba explodisse.

Pensei em tudo o que tinha acontecido por várias semanas, mas não consegui achar uma solução para poder contar a verdade para a minha família.
Dessa forma, resolvi continuar na clandestinidade. Mesmo odiando mentiras, era melhor manter a minha máscara de heterossexual até descobrir uma maneira de abrir o jogo para todos. Pelo menos desse jeito eu me sentia seguro.

Independente da vontade do meu pai, continuei minha amizade com o Víctor e sempre que eu tinha oportunidade, ia na casa dele para jogar conversa fora.

– Entra aí.
– Valeu. Está sozinho?
– Sim. Por quê?
– Por nada. Curiosidade.
– Vem, vamos pro meu quarto – ele me puxou pela mão e eu achei aquilo muito estranho.

Quando nós entramos, ele fechou a porta e me fitou com o semblante sério.

– O que foi? – perguntei.
– Nada – respondeu depois de alguns segundos.
– Está acontecendo alguma coisa?
– Não. Por quê?
– Você está estranho.
– Impressão sua…
– Sei. Desembucha!
– Não é nada, sério.
– Beleza, se você tá dizendo…
– Já fez a lição?
– Já e você?
– Ainda não. Me ajuda?
– Fazer o quê, né?
– Você é demais, sabia?
– Vai, começa logo.

Ele ficou estudando por um tempo e depois fechou o caderno com severidade.

– O que foi?
– Não consigo me concentrar.
– Por que? Quer que eu vá embora?
– Não, é claro que não…
– Então?
– Então vamos fazer outra coisa.
– O quê?
– Qualquer coisa…
– Por exemplo?

Ele me fitou, abriu os lábios e não falou nada.

– Caio, você não sente vontade de ficar com um… garoto?
– Claro – nós já havíamos conversado sobre aquilo –, mas você sabe que eu não tenho com quem ficar.
– Na verdade… tem…

Eu arregalei os olhos.

– Quem? – perguntei todo inocente.
– Comigo – ele respondeu baixinho e desviou os olhos para a minha boca.
– Tá ficando louco, né? – caí na gargalhada. Ficar com meu melhor amigo? Sem chance!
– Não, não estou – ele se aproximou.
– Você é meu melhor amigo, Víctor.
– Eu sei, eu sei…
– E você está com o Bernardo, não está?- Não, não estou mais…
– Ah, não?
– Não… não quer… experimentar o beijo de um homem?

Engoli em seco.

– Quero – respondi baixinho –, mas não podemos ficar…
– Podemos sim, ninguém vai saber disso…
– Não – eu insisti. – É melhor não.
– O que é? Não quer que eu seja o primeiro, é isso?
– Não, não é isso, Víctor. Já disse que você é só meu amigo.
– Mas eu não quero ser só seu amigo, Caio…
– O que está dizendo?

Ele estava tão perto que eu senti o cheiro do seu hálito no meu rosto. Meu coração disparou.

– Eu estou dizendo que estou a fim de ficar com você…

Víctor colocou a mão em cima da minha e começou a acariciá-la.

– Não – eu respondi. – Não quero ficar com você.
– Tem certeza?

Suspirei.

– Absoluta.
– Não parece – ele aproximou o rosto bem devagar.

– Pa-para, Víctor – me afastei um pouco.
– Fica calmo, Caio – ele se aproximou novamente. – Não vai acontecer nada que você não queira.

Eu saí da cama e fui até a janela.

– Não insiste, Víctor. Eu não quero estragar a nossa amizade.
– Nossa amizade não vai ser estragada, Caio. É só um beijo!
– Não. Não consigo nem imaginar uma coisa dessas – mas eu estava começando a ficar balançado. Meu amigo era bem gatinho e no fundo, bem no fundo, me chamava a atenção.
– Vem aqui, senta perto de mim…
– Não sei – estava com medo.
– Não fica com medo de mim, Caio. Eu não vou abusar de você.

Sorri.

– Sei que não vai fazer isso, mas é complicado…
– Não sente vontade?
– Sim – confessei.

O boy levantou e foi até onde eu estava.

– Então me dá uma oportunidade, por favor…
– Nã-não sei.

A mão dele foi até o meu rosto, desceu pelo meu pescoço e andou até minha nuca.

– Eu sei que você também quer…
– Não que-quero…
– Quer sim, não minta para você mesmo. Vem?

Víctor começou a me puxar e me levou até a cama. Nossos olhos não desgrudaram e meu coração disparou. Parecia que ia sair pela boca de tanto nervosismo.

– Você é tão lindinho, sabia? – o menino falou baixinho.
– Obrigado…

Víctor me abraçou com ternura e beijou o meu pescoço.

– Fica calmo. Está tudo bem.
– U-uhum – eu estava muito nervoso. Não era certo ficar com o meu melhor amigo.

Ele me empurrou e eu fui obrigado a ficar sob o corpo dele. Nossos lábios ficaram a menos de um centímetro e ele não parou de olhar nos meus olhos.

– Fecha os olhos, bebê…

Bebê? Não consegui. Ele foi se aproximando cada vez mais e quando ia me beijar, eu virei o rosto e seus lábios tocaram a minha bochecha.

– É me-melhor nã-não, Víctor…
– Fica calmo – ele repetiu. – Não vou fazer nada que você não queira.

Meu amigo acariciou a minha nuca e eu comecei a ficar excitado e quando ele percebeu o que tinha acontecido, sorriu e falou no meu ouvido:

– Viu? Você quer tanto quanto eu…

Não soube o que responder. Meu corpo dava indícios que queria aquilo, mas a minha mente falava totalmente o contrário. Eu não sabia o que fazer.
Ficar ou não ficar com o Víctor? E se a nossa amizade estragasse caso aquilo acontecesse? Mas eu queria experimentar o beijo daquele garoto. O beijo do meu melhor amigo…
Eram tantas dúvidas que a minha cabeça começou a latejar. Ele voltou a beijar o meu rosto e quando segurou o meu pênis por cima da bermuda, eu levei um susto.

– Calma, Caio – ele pediu pela enésima vez. – Não está gostando?
– Si-sim, mas não é certo…
– Não seja tão politicamente correto. Isso será o nosso segredinho, confia em mim.
– E-eu confio, mas estou com medo…
– Não fica com medo, gatinho. Não vai te acontecer nada, você vai gostar…
– Nã-não sei… – eu estava muito nervoso. Muito nervoso mesmo.

Víctor segurou no meu rosto com tanta suavidade que eu fui acalmando e relaxando aos poucos. Não dava pra negar que o cara estava sendo extremamente paciente comigo e também um verdadeiro cavalheiro. Em nenhum momento ele me obrigou a nada.
O rapaz beijou a minha orelha e eu me arrepiei, o que fez a minha vontade aumentar ainda mais.
Eu estava ofegante e comecei a ficar suado. Víctor estava tranquilo e seguro do que estava fazendo. Foi naquele momento que eu percebi o quanto ele tinha experiência no assunto.

– Está mais tranquilo?
– Estou.
– Então relaxa mais e curte o momento. Já disse que você vai gostar…

Suspirei e fechei os meus olhos. Eu não tinha o que perder… Ou tinha?
Quando abri as pálpebras, ele estava olhando o meu rosto com os lábios entreabertos. Senti meu corpo tremer de tensão e resolvi deixar acontecer. Ele aproximou o rosto bem devagar e quando me dei conta, nossos lábios já estavam grudados, mas não se mexiam.

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2 Comentários

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  • Responder Chatin ID:g6200i4zkk

    Prrrr veyyy q toppp ameii

  • Responder Nando Santos ID:2y9dces6id2

    Estou a gostar da tua experiência, espero que tenhas continuação.